Entenda o impacto do conflito no Irã em diferentes segmentos do agronegócio
Oriente Médio é um importante destino dos produtos agropecuários brasileiros — Foto Pixabay
Setor teme efeitos tanto no escoamento de exportações estratégicas quanto na importação de insumos.
O agronegócio brasileiro acompanha com atenção os desdobramentos do conflito no Oriente Médio, importante parceiro comercial do país. O setor teme impactos tanto no escoamento de exportações estratégicas (como carne bovina, frango e milho), quanto na importação de insumos essenciais à produção agrícola, como os fertilizantes nitrogenados.
Entre as principais preocupações estão restrições logísticas em rotas-chave, como o Estreito de Ormuz, fechado nesta segunda-feira, e a possibilidade de alta de custos em meio à escalada das tensões geopolíticas.
O Brasil lidera a produção mundial de carne halal, abatida sob os preceitos da lei islâmica, e depende do Estreito de Ormuz, fechado nesta segunda-feira, para escoar a produção. As exportações brasileiras de carne bovina para os países árabes fecharam 2025 com alta de 1,91% em relação ao ano anterior, somando US$ 1,79 bilhão, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira
Para o advogado Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, o momento exige atenção. “Os contratos não ficam imediatamente suspensos por conta de força maior ou outra condição, na medida em que os exportadores brasileiros possam ter outras rotas, como, por exemplo, o Mediterrâneo. Só que são rotas mais caras e mais complicadas”, explica.
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) afirmou que tem “acompanhando o desenrolar da situação, mas, por enquanto, não temos nenhuma informação das empresas sobre impactos concretos.”
Etanol
A guerra no Oriente Médio pode ser favorável aos preços do etanol. A avaliação é da XP, que divulgou relatório sobre a influência do conflito nos mercados agrícolas.
Na publicação, os analistas destacam que a situação já provoca uma forte alta nos preços do petróleo nas bolsas. Em Londres e Nova York, os contratos do tipo Brent e os do WTI sobem mais de 2% na sessão desta segunda-feira, com o barril acima dos US$ 70.
Uma valorização do produto no mercado internacional tende a ser positiva para o biocombustível, dada a sua relação de competitividade com o combustível fóssil.
Fertilizantes
Em 2025, o Irã exportou 184,7 mil toneladas de ureia ao Brasil, o equivalente a US$ 66,8 milhões e o principal produto vendido pelo país persa ao mercado nacional.
Um fator que pode elevar os custos na agropecuária é que o Irã é o principal fornecedor do gás natural para produção de fertilizantes de países que exportam nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria, diz a analista de mercado de fertilizantes da Safras&Mercado, Maísa Romanello.
“Esses países recebem o gás natural vindo do Irã para produção de ureia e, caso haja interrupção do fluxo de gás natural, eles serão afetados com menor disponibilidade de matéria-prima”, afirma.
No Egito, os preços da ureia já se aproximam dos US$ 540/ton, sendo que na semana passada esses valores estavam pouco abaixo dos US$ 490/ton - ou seja, uma elevação que supera os 10% -, segundo a consultoria StoneX.
Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, ressalta que o Oriente Médio abriga países responsáveis por cerca de 40% das exportações globais de ureia, 28% das exportações de amônia e 29% das exportações globais de DAP.
“Logo depois do início do conflito, fornecedores de ureia do Oriente Médio retiraram suas ofertas, aguardando mais clareza sobre a precificação", afirma. “Eles querem entender se a ureia vai valer 400, 500, 600 ou 700 dólares por tonelada antes de voltar a vender.”
Frango
Os exportadores brasileiros já avaliam nova rotas para continuar com as exportações para o Oriente Médio. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, os envios que antes passavam pelo canal de Ormuz e Suez deverão ser redirecionados para rota via Cabo da Boa Esperança, ao sul da África.
“Já está sendo previsto um aumento de custos e também o aumento na demora na entrega dos produtos”, declarou Santin. Segundo ele, também são analisadas rotas via Turquia e outros portos da região, como Salalah, em Omã.
De acordo com a ABPA, o Brasil exporta cerca de 200 mil contêineres anualmente, sendo o Oriente Médio o destino de 25% das exportações do setor de proteína animal.
Na região estão os Emirados Árabes Unidos, maior importador de carne de frango do Brasil, com 480 mil toneladas adquiridas em 2025.
A MBRF, que tem unidades na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, informou “que está priorizando a segurança e a integridade dos seus colaboradores no Oriente Médio e que suas operações não foram afetadas. A companhia acionou seu plano de contingência para garantir o abastecimento”. A JBS disse que não comentaria.
Frutas
De acordo com o vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Waldyr Promicia, algumas empresas de frete marítimo já anunciaram a interrupção do envio de navios para a região do Golfo Pérsico, comprometendo as exportações para a região.
“Com certeza teremos que suspender essas operações, pelo menos temporariamente. Essa fruta sobra e vai para outros mercados, sobrecarrega outros mercados, enfim, uma guerra é sempre uma guerra. Sempre vai trazer problemas”, lamentou o executivo.
Diante do cenário, há preocupação também com a disponibilidade de contêineres nos próximos meses numa situação semelhante à enfrentada durante a crise logística deflagrada pela pandemia de Covid-19.
Milho
O Irã se consolidou em 2025 como o maior importador do milho brasileiro. Foram 9 milhões de toneladas no ano passado, ou 23% do total exportado pelo Brasil.
Mas, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), a questão mais preocupante da tensão geopolítica envolvendo o Irã diz respeito aos fertilizantes, especialmente a ureia, um dos principais insumos utilizados na cultura do milho. Os iranianos exportaram 184,7 mil toneladas de ureia ao Brasil em 2025.
“Sempre quando há confrontos militares, independentemente da região, ficamos muito apreensivos, pois somos um país que depende muito da exportação, mas que também necessita do fertilizante, que em sua grande maioria é importado. Nesse sentido, o caso da ureia é ainda mais complicado, já que tem um custo elevado, e é um produto muito demandado por outros países, como os EUA”, disse o diretor executivo da Abramilho, Glauber Silveira.
Soja
Dez navios estão programados para carregar, nos próximos dias, cerca de 660 mil toneladas de soja e farelo de soja com destino ao Irã, segundo dados da Alphamar Agência Marítima.
De acordo com o sócio diretor da empresa, Arthur Neto, há grande incerteza sobre o destino das cargas após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã estarem levando companhias a retirarem navios da região do Estreito de Ormuz.
Dos dez navios, seis já estão na chamada área de fundeio dos portos brasileiros, aguardando para começar a carregar o produto. Outros quatro estão em trânsito, a caminho da costa brasileira. Do total, cinco devem sair do porto de Santos, quatro de Paranaguá (PR) e um do porto de Tubarão (ES).
“A grande incerteza é o que vai acontecer com esses dez navios que já estavam anunciados para o Irã. As tradings que estão vendendo essa carga vão manter o negócio? Ou os navios eventualmente serão destinados para outras rotas?”, disse Neto, à reportagem (Globo Rural, 2/3/26)

