10/04/2026

Escândalo Master não tem ideologia – Editorial Folha de S.Paulo

Escândalo Master não tem ideologia – Editorial Folha de S.Paulo
  • Vorcaro buscava quem pudesse ser útil entre partidos de todas as orientações, governos e instituições
  • A nota positiva é que o banco foi liquidado pelo BC autônomo, a PF mostrou independência e o jornalismo cumpre seu papel fiscalizador

 

Como quase tudo no polarizado debate político nacional, o escândalo do Banco Master se tornou objeto de disputa de versões e interpretações entre militantes à esquerda e à direita. Com os dados disponíveis até o momento, trata-se de um exercício pouco produtivo.

 

Uma nova leva de informações, desta vez oriunda de declarações fiscais em poder da CPI do Crime Organizado, reforça a percepção de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro não se pautava por preferências ideológicas —atraía, a peso de milhões, quem pudesse ser útil para sua rede de influência entre partidos, governos e instituições que incluíam Banco Central e Supremo Tribunal Federal.

 

Para tanto, entre outros expedientes, o Master contratou escritórios de advocacia e empresas ligadas a um rol suprapartidário de personagens da política e da administração pública.

 

Entre eles, a mulher de Alexandre de Moraes, ministro do STF; familiares do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD); Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda de Michel Temer (MDB) e ex-presidente do BC sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT); Guido Mantega, ex-titular da Fazenda em administrações petistas; a nora de Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado.

 

Como se a lista não fosse eclética o bastante, devem-se acrescentar o próprio Temer; Antônio Rueda, presidente do União BrasilRicardo Lewandowski, ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça de Lula; ACM Neto, ex-prefeito de Salvador (União Brasil); o bolsonarista Fabio Wajngarten; e o próprio Jaques Wagner.

 

Não se sabe, de forma individualizada, o que Vorcaro pretendia de tantos contratados —e também de passageiros em seus jatinhos e de convidados para suas festas nababescas. Tem-se, ao menos, uma amostra do que conseguiu dos poderes públicos.

 

Os exemplos incluem um socorro a seu banco por parte do estatal BRB, patrocinado pelo então governador do Distrito FederalIbaneis Rocha (MDB), além de aportes de fundos previdenciários estaduais e municipais.

 

No Congresso Nacional, o centrão ensaiou uma pressão sobre o BC quando a operação com o BRB ainda estava sob análise. Ainda está por ser esclarecida a extensão da influência de Vorcaro na autoridade monetária, no Supremo e no Tribunal de Contas da União (TCU).

A nota positiva é que a vasta teia de relações de Vorcaro não evitou sua derrocada. O Master foi liquidado pelo BC autônomo, a Polícia Federal mostrou independência para prosseguir nas investigações, mesmo com tantos interesses contrariados, e o jornalismo profissional cumpre seu papel fiscalizador do poder.

 

A apuração do caso, no entanto, mal começou —e terá não poucos obstáculos à frente. Espera-se que uma delação premiada de Vorcaro permita identificar onde houve falha, omissão e corrupção em suas múltiplas interações com a política e o Estado. As instituições têm o dever de avançar e depurar-se com o caso (Folha, 10/4/26)