Estilo chinês de fazer negócio trava exportações do agro
Imposição de taxas de importação esporádicas para proteger mercado local dificulta entrada de mais produtos brasileiros.
O desenvolvimento da agropecuária brasileira tem como um dos motores o apetite chinês. A negociação entre os dois países, porém, ainda será longa e cansativa.
Quando necessitam de um produto, como é o caso da soja, os chineses são bons parceiros. Em muitos casos, porém, a visão estratégica de compra mescla abertura de mercado com proteção interna.
Quando conseguem estoque suficiente ou aumento da produção, os chineses colocam amarras nas compras, impondo taxa de importação.
Isso gera incertezas aos exportadores brasileiros. É o que ocorre com a carne de frango e com o açúcar, mercados que tinham deixado os produtores brasileiros esperançosos.
Essas incertezas dificultam qualquer planejamento brasileiro de produção e de exportação. Em 2013, por exemplo, os chineses compraram 3,5 milhões de toneladas de açúcar do Brasil. Neste ano, são apenas 204 mil toneladas.
Apesar das dificuldades de negociações, o agronegócio brasileiro vem ganhando importância no país asiático.
Há um direcionamento das importações chinesas para outros produtos além da soja, principalmente para proteínas. A urbanização, a evolução da renda e as mudanças de hábitos na China trazem uma dependência externa do país no setor de alimentos.
Esse novo cenário abre portas para o Brasil. Entretanto, o aprendizado milenar dos chineses em negociações torna as coisas mais difíceis.
Neste ano, até agosto, a exportação brasileira de alimentos para o país asiático soma US$ 22,4 bilhões (cerca de R$ 93 bilhões). Já a importação chinesa desses produtos brasileiros fica em US$ 341 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão).
A soja, importante na alimentação do 1,39 bilhão de chineses, é, de longe, o principal item brasileiro de exportação para a China. A oleaginosa supera 90% do total das vendas externas do Brasil em alimentos para aquele país.
Nos últimos dez anos, a China deixou US$ 126 bilhões (cerca de R$ 520 bilhões) no Brasil com a soja. É uma relação comercial que cresce ano a ano.
Em 2017, as exportações de soja em grão para a China renderam US$ 20,4 bilhões (o equivalente a R$ 85 bilhões). Nos oito primeiros meses deste ano, o valor já empatou com o ano passado inteiro. São US$ 20,3 bilhões e 51 milhões de toneladas.
A demanda chinesa por soja cresce tanto que, a cada ano, o Brasil aumenta em 1 milhão de hectares a área de plantio. Por ora, é um mercado certo e rentável para os brasileiros. O consumo chinês empurra a produção mundial para patamares recordes todos os anos e poderá tornar a oferta bem superior à demanda.
Se o mercado de soja já é certo para o brasileiro, o dos demais produtos ainda precisa ser conquistado. Um caso típico é o do açúcar.
Os chineses aumentaram a taxa de importação do produto brasileiro, que agora é de 90%. Eles afirmam que os 4,7 milhões de produtores do país têm uma produtividade baixa e não conseguem competir com os brasileiros.
O setor de proteínas é um dos mais promissores, embora também esteja sujeito a barreiras esporádicas do governo chinês. É o caso de alguns cortes de carne de frango, que tiveram uma imposição de taxa de importação de até 38,4% neste ano.
Mesmo assim, as exportações brasileiras para o país somam 294 mil toneladas neste ano até agosto, no valor de US$ 540 milhões (cerca de R$ 2,24 bilhões).
Outro mercado crescente para os brasileiros é o de carne suína, cujas exportações já superam 100 mil toneladas neste ano, com receita de US$ 201 milhões (cerca de R$ 834 milhões). Esses valores superam os de todo o período de 2017.
A demanda por carne suína crescerá no curto prazo. Os chineses são os maiores produtores e consumidores mundiais dessa carne, mas o país asiático tem focos de gripe suína africana, doença que afeta a produção.
O maior destaque entre as proteínas fica para a carne bovina, um produto que tem crescimento constante na alimentação dos chineses.
As exportações brasileiras para o país somam US$ 2,1 bilhões (R$ 8,7 bilhões) de 2015 a 2017 —média anual de US$ 698 milhões (R$ 2,9 bilhões). Neste ano, até agosto, já atingem US$ 887 milhões (R$ 3,6 bilhões).
O café também é um potencial mercado, uma vez que o consumo da bebida cresce na Ásia. O problema é que, apesar de ser o maior produtor e exportador de café em grão, o Brasil não tem uma marca forte para ocupar espaço no café industrializado.
Em parte, o Brasil também dificulta as relações com a China. O país não tem uma cultura de acordos comerciais e trava a entrada de alguns produtos estrangeiros.
Os chineses se propõem, por exemplo, a importar frutas do Brasil. Em troca, querem colocar produtos deles deste setor no país. Os brasileiros temem a concorrência.
O Brasil precisa colocar mais produtos de valor agregado na China. Os chineses prometem abrir espaço, entretanto, dificultam até a entrada de farelo e de óleo de soja (Folha de S.Paulo, 14/9/18)
'Até hoje não conseguimos vender carne', diz Maggi a embaixador chinês
Legenda: Mesa de debates do seminário Brasil-China, em São Paulo
Ministro reclama de barreiras protecionistas; Jinzhang ressalta crescimento das exportações.
O seminário Brasil-China, da Folha, transcorria suavemente até aquele momento, segundo dia de debates. Na pauta, formas de incrementar o fluxo comercial entre os dois países e a identificação de gargalos que travam as relações bilaterais.
Foi quando o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, saiu do script reinante nesses eventos. “Um ano atrás eu estive na China, com o presidente Xi Jinping. Ele fez um brinde e disse ‘presidente [Michel Temer], eu amo a carne brasileira’”, contou.
O ministro se referia à visita de setembro de 2017, na qual uma comitiva brasileira reivindicou maior abertura para o produto. “Até hoje não conseguimos vender nada.”
A reclamação de Maggi era dirigida a barreiras a produtos brasileiros no mercado chinês. Citou como exemplo o açúcar. Em 2013, o Brasil vendeu ao país asiático cerca de US$ 1,4 bilhão do item, disse o ministro. Em 2017, o valor despencou para US$ 135 milhões. A queda, segundo ele, resultou de medidas protecionistas adotadas por Pequim.
Números setoriais à parte, a China é hoje o principal parceiro comercial brasileiro. No ano passado, foi responsável por 22% das exportações nacionais, com destaque para o agronegócio —justamente o setor que Maggi representa.
Em 2017, os chineses gastaram US$ 47,5 bilhões com produtos brasileiros, valor 35% superior ao do ano anterior. O superávit entre os dois países foi de mais de US$ 20 bilhões a favor do Brasil.
Parecem índices vistosos, não fosse a China o colosso que é. Vivem ali mais de 1,3 bilhão de pessoas —o equivalente a seis Brasis. O país já é a segunda economia do planeta, e há quem aposte que em poucos anos ultrapassará os Estados Unidos na liderança.
A China também é o segundo maior importador do mundo. Em 2016, comprou no mercado internacional US$ 1,59 trilhão. Perto disso, os US$ 47,5 bilhões gastos com produtos brasileiros no ano passado revelam o peso inexpressivo do Brasil no fluxo comercial do país asiático.
Diplomático, o embaixador chinês no Brasil, Li Jinzhang, preferiu ressaltar o crescimento relativo das exportações brasileiras a discutir os números absolutos e mostrou-se otimista quanto ao futuro das relações bilaterais.
Li assinalou que o volume de investimentos chineses no Brasil tem aumentado. Citou a participação de empresas em leilões na área de energia, petróleo e obras de infraestrutura e lembrou também a entrada dos chineses em áreas de alta tecnologia e de consumo de massa. Exemplo disso são os investimentos de grupos como o Chery na área automobilística.
Mesmo exibindo um fairplay próprio de titulares da diplomacia, o embaixador advertiu que a batalha comercial é acirrada; a China não é apenas um comprador à espera de boas ofertas.
Li também elogiou o churrasco brasileiro, numa alusão bem-humorada à declaração de Maggi. Mas, ao se referir ao caso do açúcar, disse que o governo chinês tem que pensar nos interesses domésticos.
“O preço do açúcar brasileiro é muito baixo, e não podemos desestimular a produção local”, afirmou Li Jinzhang. Em outras palavras, deixou claro que os chineses não desejam prosperar à custa de prejuízos dentro de casa.
Maggi e Li mostraram diferenças também em relação à guerra comercial entre China e EUA, deflagrada pelo governo de Donald Trump.
Para o embaixador, está em ascensão uma política de força que frustra o multilateralismo e torna o ambiente externo cada vez mais severo para países em desenvolvimento.
O ministro brasileiro preferiu recorrer a uma analogia. “Em briga de elefantes, quem perde é a grama —e nós somos a grama nesse momento.”
Ao que Li Jinzhang respondeu: “Você sabe, Maggi, são lutas de elefantes que vão afetar a todos. O Brasil também é um elefante.”
Tal qual algodão entre cristais, o chanceler brasileiro Aloysio Nunes Ferreira optou por destacar convergências na área de política internacional. “Brasil e China têm atuado em regime de visão estratégica global”, afirmou. O ministro das Relações Exteriores defendeu que a relação com a China deve ser vista sobretudo como parceria.
O seminário teve patrocínio da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex-Brasil), do Banco Modal e da distribuidora Caoa Chery, com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI) (Folha de S.Paulo, 14/9/18)


