Estreito de Ormuz pode afetar a safra e o preço dos alimentos
Mapa do Estreito de Ormuz — Foto Getty Images
Por Marcos Jank e Bruno Capuzzi
Bloqueio em Ormuz elevou os preços dos fertilizantes, comprimindo margens e ameaçando o abastecimento agrícola no Brasil.
O Brasil lidera o ranking mundial das exportações de commodities agropecuárias e detém o maior saldo comercial no agronegócio. Ao mesmo tempo, é o maior importador de fertilizantes do mundo, comprando 85% do que consome.
O fertilizante é a comida das plantas, que, por sua vez, são a comida dos animais domésticos e das pessoas. Uma crise de abastecimento de fertilizantes se traduz em menor produtividade agrícola, quebra de safra, inflação de alimentos e menor segurança alimentar no País e no exterior.
Em 2022, quando a pandemia e a guerra da Ucrânia sacudiram as cadeias globais, os preços dos fertilizantes dispararam. Mas o susto foi suportável: o preço das commodities agrícolas subiu mais rápido, ampliando a margem do produtor. Não houve ruptura estrutural.
A crise de 2026 é diferente. O fechamento do Estreito de Ormuz fez os preços dos fertilizantes dispararem. Desta vez, porém, os preços das commodities agrícolas não acompanharam. As margens estão se comprimindo e pode haver desabastecimento na safra que será plantada no segundo semestre deste ano.
A crise que Ormuz “exporta” para o campo brasileiro
O estreito escoa parte decisiva da cadeia global de fertilizantes: 40% das exportações mundiais de ureia, 30% da amônia, 24% dos fosfatos e 50% do enxofre. A dependência brasileira (relação importação/consumo) dos macronutrientes é bem mais grave do que no resto do mundo: nitrogênio (90%), fósforo (75%), potássio e enxofre (mais de 95%).
Subproduto do refino de petróleo e gás, o enxofre é hoje o insumo mais crítico, indispensável para a produção de ácido sulfúrico e fosfatados, com efeitos em cascata. A isso se somam dois agravantes: (a) China, Rússia e outros países restringiram as suas exportações de fertilizantes para garantir o seu abastecimento doméstico; (b) a expansão das baterias de veículos elétricos representa uma disputa estrutural dos fosfatos com a agricultura, reduzindo a oferta disponível.

Brasil tem uma enorme dependência por fertilizantes importados. Foto: Negro Elkha - stock.adobe.com
A vulnerabilidade brasileira não é apenas elevada e conjuntural. Ela é sistêmica e não linear. Fertilizantes são fundamentais para a produção agrícola nos solos brasileiros, que são ácidos e intemperizados, exigindo uma reposição contínua de nutrientes. Disrupções de preços e logística produzem efeitos desproporcionais sobre a oferta e as decisões de plantio. Os estoques no País cobrem cerca de 2 a 3 meses de demanda, mas boa parte desses volumes já está comprometida com entregas futuras.
O que é possível fazer. A solução óbvia da formação de reservas estratégicas é inviável neste momento porque há carência global. A diversificação de fornecedores, que deveria ter sido construída nos intervalos de normalidade, chegou tarde. No curto prazo, existem alternativas limitadas: biofertilizantes, agricultura de precisão, reaproveitamento de resíduos agroindustriais (vinhaça, torta de filtro, esterco bovino, cama de frango), pó de rocha e outros complementos.
Mas nenhuma dessas alternativas elimina a nossa dependência estrutural por fertilizantes químicos importados. Elas compram tempo, mas não substituem estratégias público-privadas estruturais para reduzir a dependência (Marcos Jank é professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia; Bruno Capuzzi é professor sênior e pesquisador Insper Agro Global; Estadão18/4/26)

