15/06/2026

EUA proíbem estrangeiros de usar modelo de IA mais avançado

EUA proíbem estrangeiros de usar modelo de IA mais avançado

Foto mostra logotipo da empresa de IA Anthropic em tela de smartphone. Imagem Nicolas Tucat AFP

 

Por Ronaldo Lemos

 

  • Empresa suspende acesso global do modelo mais poderoso após ordem de Washington
  • China classifica ação americana como 'estrangulamento' e reforça aposta em IAs locais

 

Na última sexta os EUA proibiram o uso do modelo de IA mais poderoso da Anthropic por "estrangeiros". Você não leu errado. O critério da proibição é nacionalidade, algo inédito nesse contexto. Mesmo quem mora nos EUA mas não tem cidadania está proibido de usar o modelo. Estão banidos também os próprios funcionários estrangeiros da empresa.

 

Dada a impossibilidade de cumprir uma ordem assim, já que não é fácil determinar a cidadania de cada usuário, a Anthropic decidiu suspender o acesso do seu modelo mais avançado para todo mundo, indiscriminadamente.

 

A decisão de Washington acendeu um alerta global. E de quebra mostrou o que "soberania tecnológica" significa na prática (já volto a isso).

 

As empresas do setor de IA gostam de dizer que a inteligência artificial é a "nova eletricidade": a nova infraestrutura em cima da qual pessoas, organizações e países vão construir suas atividades, fluxos de trabalho, estudo e até a gestão de serviços públicos. Só que os EUA não têm o poder de cortar a eletricidade de "estrangeiros". Com a IA esse poder não só existe como acaba de ser usado.

 

A consequência é que pessoas, organizações e países vão precisar pensar muitas vezes antes de construir em cima de uma IA que pode ser suspensa. Usar inteligência artificial requer investimento, tempo, capacitação. Nada disso se justifica se a plataforma pode deixar de funcionar a qualquer momento de forma repentina, mesmo que você dependa dela.

 

A proibição dos EUA repercutiu fortemente na China. Lá a ação foi chamada de "qiabozi" (卡脖子), que em mandarim significa "estrangular o pescoço". O termo foi usado em sentido duplo: a confirmação de que depender das IAs americanas implicaria o risco de ser estrangulado a qualquer momento. E a constatação de que a estratégia chinesa de apostar em modelos locais estava certa.

 

Se a geopolítica continuar interferindo na tecnologia como aconteceu desta vez, vai ser necessário pensar soberania digital em quatro níveis. O primeiro, mais elementar, é ter controle local sobre os dados no país. O segundo é ter independência na cadeia de software, auditando e mitigando a possibilidade de interferências externas. O terceiro é exigir que a infraestrutura de hardware e software seja controlada por cidadãos do próprio país. E o quarto, é ser capaz de desenvolver de forma autônoma sua própria tecnologia, incluindo modelos de inteligência artificial.

 

Não tirei esses níveis da minha cabeça. Essa é a classificação que a Comissão Europeia lançou no último dia 3 de junho no seu "Pacote de Soberania Tecnológica". Dadas as circunstâncias, esse sim é um modelo europeu que o Brasil poderia almejar.

 

Nosso país copiou a Europa para fazer sua lei de IA, em tramitação no Congresso. Mas copiou a Europa de 2019. De lá para cá a lei europeia de IA foi drasticamente simplificada. Os europeus perceberam que regulação divorciada de política industrial tem como consequência apenas atrasar as capacidades locais e gerar ainda mais dependência externa.

 

E vale lembrar que o Brasil não alcança sequer o nível 1. Hoje, 60% da carga digital do país está hospedada em datacenters no estado da Virgínia nos EUA. Isso inclui sites, aplicativos, comércio eletrônico, operações bancárias, Pix e até serviços públicos como o SUS. As possibilidades de "qiabozi" são enormes.

 

E em inteligência artificial, o principal projeto público para desenvolver um modelo de IA local e soberano foi feito no Piauí, o "SoberanIA.ai". Estive em Teresina nesta semana e lá ouvi o seguinte vaticínio: "o Ministério da Defesa ainda vai precisar do SoberanIA". Talvez esse momento chegue antes do que imaginamos.

 

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