Explicações de mulher de Moraes não convencem advocacia
“É hora de o ministro falar”: O ministro Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci; o escritório dela firmou contrato com o Banco Master. Foto: André Dusek/Estadão
Por Raquel Landim
Durante muito tempo, Alexandre de Moraes se escorou na justificativa de que todo ataque a ele era um ataque ao STF. Neste episódio, esse ingrediente não está presente
Avesso a críticas, o ministro Alexandre de Moraes vem buscando se desvencilhar das suspeitas de relações indevidas com o banqueiro Daniel Vorcaro – até agora sem sucesso.
A mais nova tentativa é a nota de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, que confirmou o contrato milionário com o Banco Master e deu alguns detalhes dos serviços prestados.
Ela diz ter produzido 36 pareceres e realizado 94 reuniões de trabalho durante dez meses. O contrato rendia R$ 3,6 milhões ao mês — ou seja, provavelmente, chegou a um total de R$ 79,2 milhões pagos.
Serviços advocatícios são particulares e é muito difícil uma conclusão empírica. Até por isso, assim como publicidade, são muito utilizados nos crimes de lavagem de dinheiro — sem qualquer juízo de valor sobre o contrato da esposa do ministro, apenas como experiência histórica.
A coluna consultou cinco dos advogados mais renomados do País para que eles observassem as explicações prestadas e comparassem com a sua vivência. Todos foram unânimes em afirmar, sob reserva, que as condições do contrato, não fazem muito sentido. E que nunca viram algo assim.
A hora trabalhada em um escritório de ponta varia entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. Na nota explicativa, a esposa do ministro diz ter feito 94 reuniões de trabalho: 79 reuniões de três horas, 14 reuniões de duas horas. Calculando pela hora mais cara, chegamos a R$ 1,325 milhão.
Os pareceres são mais complicados de calcular. É possível avaliar pela hora trabalhada, mas não há detalhamento, ou pelo valor unitário. Um parecer técnico custa cerca de R$ 50 mil. Se são 36 pareceres, nos levaria a R$ 1,8 milhão. Porém, há pareceres caríssimos.
Um advogado disse à coluna que o mais custoso que já viu chegava a R$ 500 mil, mas dizia respeito a uma causa bilionária. Haveria algum desse tipo?
Também há outras complicações: o Master tinha outros advogados atuando em contenciosos, mas contratava a doutora Viviane Barci para elaborar estratégias. Não produziu inquéritos, petições, juntou procuração, mas fez a estratégia. Poderia estar, portanto, em praticamente qualquer caso do banco.
De toda maneira, para chegar em R$ 36 milhões, é um caminho e tanto.
Outra dúvida também entre os advogados é qual era o escopo total do trabalho para chegar a um contrato num valor de R$ 129 milhões ao longo de três anos. Geralmente, contratos longos e caros envolvem objetivos finais, como, por exemplo, um IPO (Oferta Inicial Pública de Ações).
O problema maior é que não é só a nota sobre o contrato que deixa dúvidas.
Moraes também negou que o telefone que conversava com o banqueiro no dia de sua prisão seja dele, embora o Globo garanta que tenha checado o número. Saiu-se com uma justificativa complicada sobre relação entre contatos e caixas, refutadas por peritos criminais em todos os jornais.
No Supremo Tribunal Federal, o clima é de preocupação de que um dos ministros mais importantes da Corte, símbolo da defesa da democracia no 8 de Janeiro, tenha se envolvido com as pessoas erradas.
Durante muito tempo, Moraes se escorou na justificativa de que todo ataque a ele era um ataque ao Supremo. E muitas vezes sua figura foi utilizada pela direita como luta política. Neste episódio, esse ingrediente não está presente (Estadão, 10/3/26)

