Flávio Bolsonaro e a engenharia real do poder – Por Camilo Calandreli
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O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ): Entre herança, identidade e estratégia para 2026
Por Camilo Calandreli
Em política, o tempo não perdoa improvisos — e a história recente do Brasil tem mostrado isso com clareza crescente. A construção de uma candidatura competitiva não se sustenta apenas em lembrança de nome, legado familiar ou capital eleitoral herdado. Esses fatores podem abrir portas, mas não garantem permanência. E muito menos vitória.
A máxima é simples, ainda que dura: herança política antecipa largada — mas também antecipa teto.
É nesse contexto que o nome do senador Flávio Bolsonaro passa a ocupar um espaço estratégico no tabuleiro nacional de 2026, especialmente à medida que seus movimentos recentes indicam algo além da dependência de um sobrenome: apontam para uma tentativa consistente de construção de identidade política própria.
A Agrishow como símbolo: Presença, diálogo e posicionamento
A participação de Flávio Bolsonaro na Agrishow, em Ribeirão Preto — o maior evento de tecnologia agrícola da América Latina — não foi apenas protocolar. Foi simbólica.
Ali, em meio a produtores rurais, empresários, investidores e lideranças do agronegócio, Flávio não apenas circulou — dialogou, articulou e se posicionou.
O agro brasileiro não é apenas um setor econômico. É uma força política organizada, com capacidade de influência real nas decisões nacionais. Estar presente nesse ambiente, ouvir suas demandas e construir pontes não é opcional para quem pretende disputar poder em alto nível — é estratégico.
E Flávio parece compreender isso.
Entre alianças e maturidade: O movimento além da bolha
Outro ponto que chama atenção é a construção de alianças fora do eixo tradicional do bolsonarismo raiz, como a aproximação com o senador Sergio Moro.
Esse tipo de movimento revela algo fundamental: maturidade política.
A política contemporânea exige mais do que fidelidade ideológica — exige capacidade de convergência, formação de blocos e articulação com diferentes setores da sociedade e do espectro político.
Não se trata de abandonar princípios, mas de compreender que governabilidade se constrói com pontes, não com isolamento.
O desafio central: deixar de ser lembrado e passar a ser compreendido
Pesquisas qualitativas recentes apontam um dado estratégico relevante: Uma parcela significativa do eleitorado ainda reconhece Flávio Bolsonaro, mas não associa a ele atributos próprios claros.
Em muitos casos, ele ainda aparece apenas como “o filho do Bolsonaro”.
Esse é o ponto crítico.
Porque na política moderna, reconhecimento sem significado não sustenta candidatura.
Candidatos que crescem rapidamente apoiados em memória eleitoral, rejeição ao adversário ou nostalgia de governos anteriores frequentemente encontram um limite invisível: o teto da falta de identidade.
E esse teto não se rompe com marketing.
Rompe-se com construção real.
A engenharia da identidade política
Antes de pedir voto, é preciso construir identidade.
E isso exige método, consistência e estratégia.
Uma candidatura sólida precisa responder, de forma clara e repetida, a cinco pilares fundamentais:
- Qual é sua causa central
- Qual traço humano o define
- Como se diferencia dos adversários
- Qual linguagem emocional estabelece com o eleitor
- E qual biografia é útil para o país naquele momento
Sem isso, qualquer investimento em mídia se torna caro — e ineficiente.
Com isso, transforma-se em ativo político.
Trajetória e entregas: o que sustenta o discurso
A trajetória política de Flávio Bolsonaro revela uma atuação consistente e estratégica desde os seus mandatos como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro até sua consolidação no Senado Federal. Durante seu período na ALERJ (2003–2018), destacou-se pela apresentação de dezenas de projetos de lei voltados à segurança pública, defesa da família e valorização das forças policiais, além de ter presidido a Comissão de Segurança Pública. Sua atuação foi marcada por iniciativas que buscavam o endurecimento no combate ao crime, o fortalecimento institucional das polícias e a proteção de cidadãos em situação de vulnerabilidade, posicionando-se como uma das vozes mais firmes do parlamento fluminense nesse tema.
No Senado Federal, Flávio Bolsonaro ampliou sua atuação para o cenário nacional, com participação ativa em comissões estratégicas e na formulação de propostas legislativas relevantes. Entre seus projetos, destacam-se iniciativas voltadas à segurança jurídica, à proteção da legítima defesa, ao combate à criminalidade organizada e ao fortalecimento do ambiente de negócios no Brasil. Além disso, o senador tem atuado de forma alinhada a pautas econômicas liberais, defendendo a desburocratização, o incentivo ao empreendedorismo e a geração de empregos, contribuindo para um ambiente mais favorável ao crescimento econômico e à atração de investimentos.
No campo orçamentário, sua atuação por meio de emendas parlamentares demonstra compromisso com resultados concretos para a população do Rio de Janeiro. Recursos destinados à saúde, infraestrutura urbana, segurança pública e apoio a municípios refletem uma estratégia de atuação voltada à entrega efetiva de políticas públicas. Essa combinação entre produção legislativa, articulação política e destinação de recursos consolida Flávio Bolsonaro como um agente político de relevância no cenário nacional, com trajetória marcada pela defesa de princípios, capacidade de articulação e foco em resultados.
Mas, no cenário de 2026, isso não basta existir — precisa ser comunicado, organizado e traduzido em narrativa clara para o eleitor.
Porque política não é apenas o que se faz.
É o que se faz — e o que o eleitor entende que foi feito.
Equipes, estratégia e construção de longo prazo
Outro elemento fundamental é a presença crescente de equipes qualificadas e profissionais na condução estratégica de imagem, posicionamento e articulação política.
Campanhas vencedoras não são improvisadas. São planejadas.
E, ao que tudo indica, há uma mudança de postura em curso: menos espontaneidade desorganizada, mais construção estratégica.
Isso inclui aproximação com grupos de interesse legítimos, setores econômicos estruturados e lideranças regionais com capacidade de mobilização.
2026 não será sobre memória. Será sobre identidade.
Muitos ainda olham pesquisas e enxergam viabilidade.
Mas campanhas profissionais olham outra coisa: consistência de identidade.
Porque intenção de voto sobe rápido.
Mas identidade política leva anos para consolidar.
Se Flávio Bolsonaro conseguir transformar capital herdado em identidade própria, ampliar alianças, consolidar presença em setores estratégicos como o agronegócio e comunicar com clareza suas entregas e visão de país, deixará de ser apenas um nome competitivo — e passará a ser uma candidatura estrutural.
Caso contrário, corre o risco de esbarrar no limite clássico de quem larga na frente, mas não sustenta a corrida.
O jogo de 2026 já começou.
E, nele, não vencerá quem for mais lembrado.
Vencerá quem for mais compreendido.
Sobre o Autor:
Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública e Museologia, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de livros como:
- Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no Brasil;
- Um Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil;
- Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.
Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove; 5/5/26)

