29/09/2026

Flávio Dino abusa da toga para reeleger Lula – Editorial Folha de S.Paulo

Flávio Dino abusa da toga para reeleger Lula – Editorial Folha de S.Paulo

  

  • Ministro indicado pelo petista intervém individualmente no TSE e revoga veto a notícia falsa contra Flávio
  • Aberração mina autoridade do órgão eleitoral e acelera corrosão do STF; Fachin precisa agir para conter mixórdia de decisões contraditórias

 

Se restava dúvida de que a degradação do Supremo Tribunal Federal descambaria para a atuação francamente partidária de seus ministros, ela foi dissipada no domingo (27), com a aberrante intervenção monocrática de Flávio Dino no Tribunal Superior Eleitoral.

 

Investido das atribuições típicas desta corte eleitoral, o ministro André Mendonça havia vetado uma série de manifestações em redes sociais que promoviam direta ou indiretamente a notícia falsa de que Flávio Bolsonaro (PL) trabalharia para derrubar o status de Nossa Senhora Aparecida de santa padroeira do Brasil.

 

Pode-se criticar, como o faz esta Folha, a opção de legisladores e magistrados brasileiros de tratarem o cidadão e o eleitor como incapazes de discernimento. Partindo dessa falácia, a tutela sobre as expressões, mesmo as mentirosas, dá poderes extraordinários a quem tem o papel de julgar.

Apesar disso, as leis e a jurisprudência para a censura em período eleitoral estão postas há décadas, e o tribunal competente para decidir sobre elas é o TSE.

 

Em 2022, presidido por Alexandre de Moraes, o órgão proibiu a falsa associação do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o crime organizado. Também suspendeu manifestações que o ligavam à defesa do aborto, conectavam-no a corrupção ou diziam que ele proscreveria as igrejas evangélicas se eleito.

 

Nenhum ministro do Supremo, onde havia dois indicados pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), valeu-se da toga para atalhar a corte eleitoral e favorecer o então postulante à reeleição. A primazia descarada, quatro anos depois, coube a Flávio Dino para beneficiar seu padrinho, Lula.

 

O episódio acelera o esboroamento da autoridade do STF porque o atira de vez na arena partidária e amplia o arsenal da guerra entre facções internas. Ministros que não haviam descoberto o caminho das pedras para mandar individualmente em tudo o que quiserem agora o encontrarão.

 

A vítima imediata da metralha de Dino é a centralidade da Justiça Eleitoral no Brasil. Sem esse árbitro imparcial e distanciado da política partidária, o pleito de 2022 teria corrido mais riscos em virtude do assédio de um presidente da República autoritário. Agora a ameaça parte de quem tem o dever de defender a Carta.

 

O fato de o assediador vestir uma toga do Supremo Tribunal Federal não deveria deixar mais tranquilos os brasileiros ciosos das práticas institucionais consagradas. Dino, vale lembrar, também foi escolhido a dedo pelo PT —numa ação que versa originalmente sobre mineração (!)— em petição para investigar interferência estrangeira na eleição.

 

Se o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, não intervier logo na balbúrdia, em pouco tempo o Brasil testemunhará uma mixórdia de decisões contraditórias de ministros que se acham plenipotenciários, cenário em que será crescente o risco de desobediência, com o colapso da confiança na corte (Folha, 29/9/26)

 



Só falta os ministros irem de vermelho ou enrolados em bandeiras para o STF

Ministro Flávio Dino na sessão plenária do STF Foto Rosinei Coutinho STF

Campanha de Flávio usa decisão de Dino como contra-ataque. Influenciadores de direita estão se mobilizando para criticar ministro do STF; movimento virtual já foi percebido dentro do TSE

 

Por Eliane Cantanhêde

 

André Mendonça, na qualidade de ministro do TSE, usou a repulsa a uma clara fake news para mandar retirar das redes sociais tudo a respeito de Nossa Senhora Aparecida.

 

A contagem regressiva do primeiro turno já começou, num cenário estável e com o presidente Lula cinco pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro na Quaest, mas só se fala sobre o STF, onde a polarização eleitoral domina tudo e todos e corrói ainda mais a imagem da corte. É como se só os seus dez votos fossem eleger o novo presidente.

 

Nas ruas, não se vêem bandeiras, cartazes ou carros paramentados, seja pró Lula, seja a favor de Flávio, numa das eleições mais frias e desanimadas de que se tem notícia. Mas, no Supremo, a equipe da campanha de Lula só falta se vestir de vermelho, com estrela no peito, e a de Flávio, a qualquer hora, aparece enrolada nas bandeiras do Brasil, EUA e Israel.

Campanha de Flávio usa decisão de Dino como contra-ataque. Influenciadores de direita estão se mobilizando para criticar ministro do STF; movimento virtual já foi percebido dentro do TSE

 

Por Eliane Cantanhêde

 

André Mendonça, na qualidade de ministro do TSE, usou a repulsa a uma clara fake news para mandar retirar das redes sociais tudo a respeito de Nossa Senhora Aparecida.

 

A contagem regressiva do primeiro turno já começou, num cenário estável e com o presidente Lula cinco pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro na Quaest, mas só se fala sobre o STF, onde a polarização eleitoral domina tudo e todos e corrói ainda mais a imagem da corte. É como se só os seus dez votos fossem eleger o novo presidente.

 

Nas ruas, não se vêem bandeiras, cartazes ou carros paramentados, seja pró Lula, seja a favor de Flávio, numa das eleições mais frias e desanimadas de que se tem notícia. Mas, no Supremo, a equipe da campanha de Lula só falta se vestir de vermelho, com estrela no peito, e a de Flávio, a qualquer hora, aparece enrolada nas bandeiras do Brasil, EUA e Israel.

Os ministros Flávio Dino e André Mendonça durante sessão do STF. Foto Wilton Junior Estadão

 

O ministro André Mendonça, relator do caso Master, mandou retirar das redes sociais tudo a respeito de Nossa Senhora Aparecida, depois de viralizar a fakenews de que Flávio tiraria dela o título de Padroeira do Brasil. Mendonça acertou em combater fakenews, mas exagerou ao proteger seu candidato.

 

Flávio Dino, que disputa como Gilmar e Alexandre quem é mais audacioso, reagiu, dando uma canetada para suspender a decisão de Mendonça e deixar rolar tudo, inclusive a fakenews contrária a Flávio. Logo, Dino também exagerou e não teve pruridos ao proteger seu próprio candidato.

 

Flávio Bolsonaro, que se exibiu com uma boneca de crochê simulando Nossa Senhora Aparecida, botou em campo mais um “dos seus” no STF, Luiz Fux, a quem pediu para neutralizar Dino. Mas fez também o que um mínimo de bom senso recomendaria não ter feito: bateu de frente com a CNBB.

 

Circulam na internet cantorias de bispos católicos, sem citar Lula ou Flávio, mas defendendo soberania nacional, democracia, combate à pobreza, preservação da Amazônia... Alguém tem dúvida sobre de quem são essas bandeiras?

 

Na semana decisiva da eleição, o mais conveniente para Flávio seria se assumir vítima de mensagens veladas e uma evidente fake news, mas ele quis potencializar a questão e acusou a conferência dos bispos, principal entidade católica do Brasil, de ter agido com o PT para difundir a versão falsa. Não foi uma boa ideia.

 

A CNBB reagiu: “Não se combate uma mentira com outra mentira”. Desmentiu tanto a acusação de Flávio como a própria acusação a Flávio, mas a crise ganhou asas e já tinha caído em cheio no STF, que está com a imunidade baixa e se contagia com enorme facilidade.

 

Difícil dizer se foram só o fim das bets e a promessa de canetas emagrecedoras, ou se a história sobre a Padroeira do Brasil tem algo a ver com isso, mas a pesquisa Quaest captou um aumento de 16 para 19 pontos da diferença de Lula para Flávio entre os católicos. O petista tem 48% e o filho de Bolsonaro, 29% nesse segmento. Numa disputa tão apertada, isso pode fazer a diferença no final (Estadão, 29/9/26)

 



Juristas avaliam que decisão de Dino sobre posts contra Flávio é grave e burla sorteio no STF

Juristas avaliam que decisão de Dino sobre posts contra Flávio é grave e burla sorteio no STF. Foto Wilton Júnior/Estadão

 

Por Hugo Henud

 

Especialistas afirmam que uso de ações já distribuídas para analisar novos pedidos permite direcionar casos a ministros conhecidos, afronta garantias constitucionais e leva temas eleitorais ao STF sem passar pelo plenário do TSE; mecanismo também foi adotado por Gilmar Mendes

 

 

A decisão de Flávio Dino que restabeleceu publicações com a falsa informação de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretende retirar de Nossa Senhora de Aparecida o título de padroeira do Brasil é vista por juristas ouvidos pelo Estadão como exemplo de uma prática grave que contorna o sistema de distribuição de processos do Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Na prática, apontam, novos pedidos são apresentados dentro de ações que já têm relator definido e aceitos para análise sem um novo sorteio na Corte - o que afronta garantias constitucionais e, em casos eleitorais, faz com que controvérsias cheguem diretamente ao STF sem passar pelo plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

Dino atendeu a um pedido do humorista Antonio Tabet, um dos autores de publicações atingidas pela decisão de André Mendonça no TSE que determinou, na sexta-feira, 25, a retirada dos conteúdos. Em vez de apresentar uma nova ação ao Supremo, a defesa de Tabet fez um pedido de extensão dentro de um processo que já estava sob a relatoria de Dino e tratava originalmente da remoção de publicações sobre a inelegibilidade do ex-deputado Deltan Dallagnol.

 

O ministro entendeu que o tema envolvendo Tabet poderia ser analisada a partir da decisão anterior sobre Deltan porque os dois casos tinham em comum uma discussão sobre liberdade de expressão. Com esse fundamento, restabeleceu a postagem do humorista e estendeu o entendimento às demais publicações removidas pelo mesmo motivo.

 

No STF, os processos são, em regra, distribuídos por sorteio entre os ministros. A exceção ocorre quando o novo caso tem relação direta com outro já em andamento e, por meio da chamada prevenção, fica com o mesmo relator.

 

O criminalista Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da ESPM-SP, avalia que o mecanismo abre espaço para que as partes direcionem novos pedidos a ministros cujo entendimento já conhecem.

 

“Pode abrir uma brecha perigosa. Quando uma parte decide pedir algo novo dentro de uma ação antiga, ela já sabe exatamente quem é o relator, como ele pensa e qual é o histórico daquele gabinete. Isso se aproxima da busca estratégica pelo julgador que tende a ser mais favorável”, afirma.

 

Para o jurista, o problema começa quando um novo pedido é encaixado em um processo antigo apenas para manter a controvérsia com o mesmo ministro. “O problema sério é quando essa ligação entre o fato novo e o processo antigo é forçada ou artificial”, afirma.

 

Crespo explica que o ministro provocado nessas situações não é obrigado a analisar o novo pedido dentro do processo original. Se entender que o tema extrapola o objeto da ação, pode recusar a análise naquele processo, determinar uma nova autuação ou remeter a questão à Presidência do STF para que seja definida a distribuição. “Esse é o caminho correto”, diz.

 

O jurista Aury Lopes Jr. chama atenção justamente para esse ponto: a ampliação dos critérios usados para justificar que uma nova disputa permaneça com um relator já definido. “O perigo está no alargamento dessa exigência, na flexibilidade desses requisitos para manipular a competência”, afirma.

 

A consequência, segundo Ana Laura Barbosa, professora da FGV-SP e do Insper, é o enfraquecimento do princípio do juiz natural, segundo o qual as partes não podem escolher previamente quem decidirá uma causa. A professora avalia que as justificativas usadas para manter novos pedidos em processos anteriores têm sido frágeis.

 

“Essa garantia não é só uma tecnicalidade. É uma proteção da imparcialidade do julgador. Se for possível selecionar qual juiz decidirá a matéria, burlando a distribuição, existe o risco de influenciar no resultado do julgamento”, afirma.

 

O professor do Insper, Luiz Gomes Esteves, aponta outro efeito dessa ampliação: o risco de o processo original deixar de servir como limite para definir quais novos pedidos podem permanecer com o mesmo ministro.

 

“Se o processo deixa de ser um limite, qualquer parte interessada pode escolher o ministro do STF que será responsável pelo seu caso”, afirma. “A ideia é a de que você não poderá escolher o juiz de seu processo, o que nesses casos não tem se aplicado”, completa.

 

No episódio envolvendo Dino, o advogado eleitoral Alberto Rollo aponta ainda um agravante: o tema era eleitoral e, na avaliação dele, deveria ter sido analisado primeiro pelo TSE. “Embora o assunto seja o mesmo, as partes não são [as mesmas], os interesses não são [os mesmos]”, afirma.

 

Rollo sustenta que o caminho adotado permitiu que o pedido chegasse diretamente ao STF e a um ministro cujo entendimento já era conhecido. “Passou por cima de todo o plenário do TSE, que tem competência para decidir a matéria eleitoral, e foi direto no STF e ainda a um juiz escolhido. É muito ruim isso. É lastimável.”

 

Como antecipou o Estadão, antes mesmo do início da campanha ministros do Supremo já sinalizavam que poderiam intervir caso considerassem insuficientes as medidas adotadas pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e pelo vice, André Mendonça. Os dois foram indicados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

O expediente também provoca incômodo entre integrantes da Corte Eleitoral, que veem risco de as partes direcionarem novas disputas a ministros previamente conhecidos do Supremo, em vez de submetê-las ao sistema regular de distribuição.

 

O mesmo mecanismo acabou sendo acionado pela própria defesa de Flávio Bolsonaro nesta segunda-feira, 28. Os advogados buscam reverter a decisão de Dino por meio de um processo que já estava sob a relatoria de Luiz Fux.O pedido foi direcionado ao ministro porque ele relata um dos recursos no STF sobre a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, e a defesa sustenta que há conexão entre os temas, o que afastaria a necessidade de um novo sorteio.

 

Fux tem adotado posições próximas às de André Mendonça em julgamentos sensíveis, inclusive em casos ligados ao Banco Master e aos atos antidemocráticos de 8 de Janeiro. Fux foi ainda o único ministro da Primeira Turma a votar pela absolvição de Jair Bolsonaro e de outros cinco réus de todas as acusações na ação da trama golpista.

 

Prática se repete em outros casos no STF

 

O episódio dessa semana não foi isolado. Na semana passada, o PT apresentou em outro processo sob a relatoria de Dino um pedido para que a Polícia Federal investigue eventual interferência estrangeira na eleição e a atuação de Flávio Bolsonaro junto a autoridades americanas. A ação havia sido aberta originalmente para discutir os efeitos, no Brasil, de processos movidos no exterior relacionados a desastres ambientais.

 

Na mesma ação, Dino já havia estabelecido limites para aplicação, no País, de medidas estrangeiras, em decisão tomada no contexto das sanções impostas a Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky.

 

Dias depois, Dino voltou a analisar uma nova disputa dentro de um processo sob sua relatoria. Depois de André Mendonça determinar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Dino decidiu pela reintegração do delegado dentro de uma investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, embora o afastamento tivesse sido determinado em outro processo.

 

A prática porém, não se limita a Dino. Em fevereiro, Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos da Maridt Participações, empresa ligada à família de Dias Toffoli, após a defesa apresentar o pedido em um processo antigo e já arquivado sob sua relatoria.

 

Mais recentemente, o ministro também analisou dentro de uma ação anterior sobre renda básica um pedido da Defensoria Pública da União para validar o reajuste do Bolsa Família na reta final da eleição, considerado legítimo pelo ministro após a Presidência do STF manter o caso em seu gabinete.

 

Esse tipo de prática levou o presidente do STF, Edson Fachin, a alterar as regras de distribuição da Corte. Em maio, o ministro determinou que petições apresentadas em processos arquivados passassem por uma validação antes de serem encaminhadas ao antigo relator, numa tentativa de reforçar o controle sobre a distribuição dos casos (Estadão, 29/9/26)



O Brasil não tem a cara do STF – Por Carlos Alberto Di Franco

Imagem Reprodução X

 

Há algo de podre na democracia brasileira. Mas não se reformará a democracia destruindo-a

 

A atual situação do Brasil preocupa. E muito. O desencanto da população é imenso. Os Poderes da República, isolados no conforto da ilha da fantasia, parecem viver de costas para a cidadania. Não escutam as ruas, desprezam as críticas e, frequentemente, reagem às cobranças legítimas da sociedade com arrogância e autoritarismo.

 

Existe um Brasil real, constituído por um povo bom, trabalhador e honrado. Um povo que acorda cedo e dorme tarde, que enfrenta transportes precários, hospitais deficientes e uma insegurança crescente. Paga impostos escorchantes e recebe pouquíssimo em troca. É o Brasil dos pequenos empresários, dos profissionais liberais, dos agricultores, dos professores e de milhões de famílias que lutam para educar seus filhos e preservar seus valores.

 

E existe outro Brasil: o País dos poderosos da República, daqueles que se consideram acima das leis e imunes à prestação de contas. É o universo dos privilégios, dos gabinetes refrigerados, das decisões tomadas longe da realidade e dos que chegam ao absurdo de invocar a ética da máfia como baliza de comportamento para magistrados. Uma inversão moral que, em qualquer democracia saudável, provocaria imediato e generalizado repúdio.

 

As cenas ocorridas antes, durante e depois da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), realizada em 15 de setembro, para decidir sobre a abertura de investigação acerca das supostas relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, provocaram espanto, indignação e verdadeira vertigem ética nas pessoas de bem.

 

O dia 15 de setembro ficará registrado como uma data triste na história da República. O que deveria ter sido uma sessão sóbria, transparente e esclarecedora transformou-se num espetáculo lamentável de bate-bocas, ironias, ataques pessoais, manobras processuais e acusações gravíssimas. Em vez de oferecer respostas objetivas à sociedade, a mais alta Corte do País expôs suas fraturas internas e terminou sem decidir a questão fundamental.

 

O Supremo começou a sessão pressionado por suspeitas muito graves e a encerrou ainda mais desacreditado. A discussão foi desviada do ponto central.

 

O que precisava ser esclarecido era simples: existem ou não elementos suficientes para investigar a conduta de Alexandre de Moraes? Em lugar de enfrentar essa pergunta, alguns ministros preferiram embaralhar os casos, discutir o rito, lançar suspeitas sobre colegas e criar obstáculos a uma apuração independente.

 

Mais grave: Alexandre de Moraes participou da discussão e votou numa matéria que dizia respeito diretamente a ele. É uma aberração. O mais elementar princípio da imparcialidade recomenda que ninguém julgue o próprio caso. Não se trata de antecipar culpa nem de condenar sem provas. Trata-se de preservar a dignidade da Justiça.

 

O pedido de vista de Flávio Dino, depois de horas de confrontos e acusações, adiou uma decisão que o País exigia com urgência. Houve ironias, interrupções e agressividade. O resultado foi devastador: o plenário do STF, que deveria pacificar conflitos, converteu-se no palco da própria crise.

 

Positivamente, o Brasil não tem a cara do atual Supremo Tribunal Federal. O Judiciário está politizado e insensível. A Corte Suprema tornou-se uma das instituições de menor credibilidade do País. A perda de autoridade não ocorre por acaso. É consequência de decisões monocráticas abusivas, inquéritos intermináveis, censura, prisões preventivas prolongadas, invasão de competências do Congresso e confusão entre os papéis de investigador, acusador e julgador.

 

Impõe-se, por intermédio do Congresso Nacional, uma profunda reforma do Supremo. É preciso estabelecer mandatos para os ministros, regras objetivas de impedimento, limites às decisões monocráticas e mecanismos efetivos de controle. Ministros devem receber remuneração digna, dar aulas e produzir conhecimento. E só. Não podem manter institutos que negociem palestras, promovam eventos patrocinados por grupos interessados em decisões judiciais ou criem zonas nebulosas entre a magistratura e o poder econômico.

 

Da mesma forma, seus familiares não deveriam exercer advocacia nos tribunais superiores. A proximidade familiar com um ministro não pode converter-se em cartão de visitas profissional. Ainda que não exista ilegalidade formal, permanece o evidente conflito ético.

 

O cenário é desanimador? Sim. Mas quem escreve esta coluna, por paradoxal que pareça, é um otimista. Acredito no Brasil e na democracia. Não é mais possível abafar o grito de desespero nem menosprezar a revolta dos cidadãos. Há algo de podre na democracia brasileira. Mas não se reformará a democracia destruindo-a. Diante de manifestações tão fortes de antipolítica, é preciso valorizar a boa política, o diálogo, a transparência e as posturas propositivas.

 

O Brasil real não tem a cara da sessão de 15 de setembro. Não tem a cara dos privilégios, das manobras e da arrogância. Tem a face sofrida, mas esperançosa, de milhões de cidadãos que ainda acreditam na Justiça. É justamente por eles – e pelo futuro da República – que chegou a hora de dizer, mais uma vez, com serenidade e firmeza: basta! (Estadão, 29/9/26)



Fake news sobre padroeira começou após Lula ver risco de ‘derreter’ entre católicos

Imagem de Nossa Senhora Aparecida apresentada em missa solene no Santuário Nacional. Foto Thiago Leon | Santuário Nacional

 

Por Roseann Kennedy

 

Pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que a maioria desse eleitorado agora desaprova o petista e também relaciona a crise envolvendo ministros do STF como um problema maior para Lula.

 

A propagação das fake news sobre a padroeira do Brasil a poucos dias das eleições não surgiu de forma aleatória. A onda de conteúdos falsos começou imediatamente após dados de pesquisas acenderem o alerta no Palácio do Planalto e na campanha presidencial petista de que Luiz Inácio Lula da Silva corria o risco de “derreter” no eleitorado católico.

 

Basta observar o levantamento Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira, 23. Os dados negativos para o petista vão muito além da queda nas intenções de voto, que já vem sendo registrada ao longo dos meses também em outros levantamentos. O problema agora é que a maioria absoluta dos católicos passou a relacionar diretamente o petista com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) — assunto que gerou o maior desgaste para a campanha de Lula até o momento — e a desaprovação do presidente entre esses eleitores alcançou 51%.

 

No início da sexta-feira, 25, dois integrantes do núcleo duro da campanha, em diálogo com a Coluna do Estadão, indagaram, em tom otimista, se estávamos acompanhando as notícias de que o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Um deles ressaltou o quanto isso era prejudicial para o adversário.

 

Entretanto, quando contestados de que se tratava de uma fake news, os mesmos interlocutores logo mudaram de assunto e apenas reforçaram que a notícia havia “saído na televisão” e que “não se fala de outra coisa nas redes”.

 

O cenário desenhado na pesquisa apontou vários recortes de alerta para Lula. O petista, que somava 54,2% da preferência dos católicos em março, hoje tem 49,1% desse eleitorado. Essa queda foi gradativa, mas há outros pontos de atenção.

 

O índice de maior impacto para a campanha petista talvez esteja nos desdobramentos da crise institucional no Judiciário. O instituto apresentou a seguinte pergunta: “Na sua opinião, a atual crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal prejudica mais a candidatura de Lula ou de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial?”. Entre os católicos, 51,7% afirmaram que os episódios no tribunal afetam mais o presidente, enquanto apenas 18,8% disseram atingir mais o candidato do PL.

 

A campanha de Lula sabe que o eleitorado em geral relaciona diretamente a ele as imagens dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Antes, essa era uma pauta que mobilizava mais os evangélicos, pela afinidade de voto com Flávio, especialmente pelas críticas contumazes que o grupo faz ao julgamento dos atos de 8 de janeiro. Mas agora, a crise no STF entrou de vez no radar do eleitorado católico também.

 

Também é necessário observar que, apesar de Lula continuar liderando pesquisas no Nordeste, seu principal rival conseguiu avançar na região. E está justamente nos estados nordestinos a maior concentração porcentual de católicos do País.

 

Segundo dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE, 56,7% da população brasileira se declara católica, alcançando 63,9% no Nordeste — região onde o candidato do PL realizou agendas recentes e onde o presidente registra perda de votos.

 

Logo, não foi à toa que o coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) estimulou a propagação da notícia falsa sobre a padroeira e Flávio Bolsonaro. Na sexta-feira, 25, sem nenhum constrangimento, e com alvo muito bem definido, George Marques da Silva e Silva republicou mensagem com a ordem: “Parem de divulgar retratação. Deixem o assunto rolar. Eles fizeram isso em outras eleições e quase nos ferram. Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada, precisa chegar no interior do Nordeste, no interior do Norte”. A postagem acabou apagada posteriormente.

 

Ou seja, os petistas aproveitam a religião e a dificuldade de falar com o público confessional para resgatar a tática admitida em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff durante a busca pela reeleição: “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, resumiu ela.

 

A pesquisa Atlas/Bloomberg foi realizada entre os dias 17 e 22 de setembro com 5.015 entrevistados. O levantamento apresenta margem de erro de 1 ponto percentual, nível de confiança de 95% e registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-04739/2026 (Estadão, 29/9/26)