Fotografar o preço da comida virou crime? – Por Paula Sousa
Imagine a cena: você entra no mercado, vê o preço do contrafilé, tira uma foto para mandar no grupo da família mostrando que já não dá mais para comprar picanha toda semana. Parece inofensivo, não é? Pois é exatamente isso que a campanha de Lula quer levar ao Tribunal Superior Eleitoral como crime eleitoral. Segundo a coluna de Daniela Lima no UOL, o PT vai pedir ao TSE a abertura de investigação contra mais de 20 influenciadores que postaram vídeos mostrando o preço dos alimentos nos supermercados.
A acusação é de divulgação em massa de material inautêntico. Inautêntico? A etiqueta estava errada, então? Alguém forjou o preço do contrafilé?
Não foi bem assim. Segundo o próprio levantamento feito pela campanha petista, uma das provas da suposta coordenação é que a foto de um pedaço de contrafilé circulou por 33 contas com o mesmo código de barras na etiqueta. Ou seja: é a mesma foto, do mesmo produto, com o mesmo preço. Isso prova fraude, ou prova que o preço realmente estava daquele jeito e o brasileiro, chocado, compartilhou a mesma imagem? Quando um post viraliza porque todo mundo concorda que aquilo é um absurdo, isso é orquestração de bastidor ou é só gente fazendo conta no fim do mês?
Fica a pergunta: se o problema fosse mentira, por que a campanha não desmente o preço? Por que, em vez de mostrar uma nota fiscal mais barata, prefere discutir se o vídeo tinha "o mesmo gesto e a mesma estrutura de fala"?
Enquanto isso, o próprio presidente Lula já deu a explicação oficial para o motivo de tudo parecer mais caro. Em entrevista à TV Record, Lula disse que a "sensação" de preço alto existe porque "mudou nosso hábito" e porque "estamos comprando mais coisa". Ou seja: você não empobreceu, você é que está exagerando no carrinho. Culpa sua, não da inflação. Reconfortante saber que, para o Palácio do Planalto, o problema não é o custo de vida, é a sua falta de autocontrole no caixa do mercado.
Só que existe um detalhe chamado IPCA. O índice oficial de inflação acumula 4,44% em 12 meses até julho, com a Selic em 14% ao ano para tentar segurar uma meta de 3%. Se a inflação estivesse sob controle, por que o Banco Central mantém os juros nesse patamar? Alguém aumentou os preços, ou foi você mesmo quem decidiu, sozinho, gastar mais bem no meio de uma campanha de reeleição?
E se não é o consumo do brasileiro, talvez seja a guerra, certo? Foi o que disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista à Rádio Metrópole Salvador: a inflação viria do conflito entre Estados Unidos e Irã, guerra que, segundo ele, é "apoiada pelo bolsonarismo".
Pausa para respirar. O Brasil produz petróleo e exporta boa parte do que extrai. Guerra no Oriente Médio mexe com o preço global do barril, sem dúvida, mas mexeu do mesmo jeito em 2022, na guerra da Ucrânia, e ninguém culpou nenhum "ismo" na época. Se a regra é "toda guerra no mundo encarece a comida aqui", por que o nome do culpado muda conforme quem está no comando quando ela estoura?
Enquanto o governo tenta explicar por que o preço sobe por qualquer motivo, menos por causa do próprio gasto público, a Polícia Federal segue apurando para onde vai parte desse dinheiro. Documentos aos quais a revista Veja teve acesso mostram que investigadores recuperaram mensagens de um grupo de WhatsApp apelidado "Musaranhos", trocadas entre a lobista Roberta Luchsinger, o empresário Fernando Bittar e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
As mensagens integram um inquérito que apura suposto tráfico de influência junto ao governo federal, aberto a partir de quebra de sigilo autorizada pelo ministro do STF André Mendonça, dentro da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS.
E as urnas, o que dizem? A pesquisa Gerp divulgada nesta quarta-feira mostra Flávio Bolsonaro com 47% contra 42% de Lula num eventual segundo turno, cinco pontos de diferença, fora da margem de erro de dois pontos. É verdade que o Datafolha, divulgado dias antes, mostrou o cenário oposto, com Lula à frente por quatro pontos, dentro da margem de erro. A diferença nasce do método: a Gerp liga por telefone para eleitores em todo o país, incluindo zona rural de difícil acesso; o Datafolha entrevista pessoalmente, nas ruas das grandes cidades.
Qual dos dois enxerga melhor o Brasil de verdade: o que liga para a casa no interior, ou o que aborda o pedestre na esquina da capital? Escolha a pesquisa que mais lhe convier, mas repare no dado que se repete nas duas: Lula tem a maior rejeição entre os candidatos testados, com quase metade dos entrevistados dizendo que não votaria nele de jeito nenhum. Numa eleição em que o presidente disputa a própria reeleição, isso não é detalhe estatístico, é termômetro de governo.
Some a isso o fato de que, segundo o próprio agregador de pesquisas que reúne dezenas de levantamentos deste ano, o cenário de segundo turno vem se movendo na mesma direção nas últimas semanas: Flávio subindo, Lula perdendo fôlego. Pode não ser assim em todo instituto, mas a tendência aparece em mais de um lugar ao mesmo tempo, e isso custa a ser só coincidência de pesquisa.
Então fica a pergunta para quem ainda não decidiu o voto: vale a pena manter o modelo atual, enquanto a comida fica cada vez mais cara, empresas fecham as portas, o desemprego cresce e mais brasileiros passam a depender de auxílios para sobreviver? Vale a pena continuar aceitando um governo que chega a recorrer à Justiça contra quem reclama dos preços nos mercados, enquanto pessoas do círculo mais próximo do presidente são alvo de investigações da Polícia Federal, apenas porque alguns eleitores não gostam do sobrenome de Flávio?
Ninguém é obrigado a gostar de candidato algum. Rejeitar um sobrenome, uma história ou uma pessoa é um direito de qualquer eleitor. Mas fingir que a comida não ficou mais cara, que a corrupção não voltou a assombrar o país, que os impostos não estão corroendo o poder de compra e que a violência não está tirando a paz das famílias é outra coisa completamente diferente.
No fim das contas, estética não enche carrinho de supermercado, sobrenome não paga boleto e discurso não coloca comida na mesa. A realidade bate à porta todos os dias, e a dignidade de uma família também se mede por aquilo que ainda sobra no bolso quando o mês chega ao fim. É aí que o voto deixa de ser apenas uma escolha política e passa a ser uma escolha sobre o futuro que queremos para o Brasil.
Sobre a autora:
Paula Sousa é historiadora, professora com 8 anos de docência nas áreas de Humanas e pós-graduada em Gestão Pública. Com especializações que vão do Processo Legislativo e Finanças à Inteligência Artificial Generativa, é articulista e roteirista focada em geopolítica, história e socioeconomia — com produções para veículos como o Visão Libertária. É também palestrante e membro do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil (27/8/2026)

