Identidade Digital: resistência antes da escravidão - Por Paula Sousa
Identidade Digital Imagem Reprodução Blog Assinei Digital
O que vem sendo vendido como modernização e praticidade pode, na verdade, inaugurar a era do controle total. A chamada identidade digital, aliada às métricas ESG e à moeda digital de Estado (Drex), avança silenciosamente no Brasil sob o argumento de simplificar a vida das pessoas — mas, nas entrelinhas, carrega o potencial de limitar a liberdade de toda uma nação.
A máscara da conveniência
A narrativa oficial é sedutora: “vai facilitar”, “vai agilizar”, “vai unificar tudo”. Mas a pergunta que precisa ser feita é — a quem realmente serve essa conveniência?
A identidade digital promete concentrar em um só registro tudo o que o cidadão é e faz: documentos, contas bancárias, registros de saúde, histórico escolar, consumo, trabalho e até comportamento nas redes. Na superfície, soa moderno e eficiente. Mas, sob essa aparência, esconde-se o risco de um sistema de vigilância total, onde cada ação, compra ou opinião é rastreável e passível de punição.
O Fórum Econômico Mundial e a ONU já apresentaram infográficos que descrevem essa integração global entre identidade digital e serviços básicos: finanças, alimentação, mobilidade, governo eletrônico e telecomunicações.
Tudo “sustentável”, tudo “conectado”. Mas também tudo controlável.
O controle populacional e o crédito social
Em nome da segurança e do bem coletivo, esse sistema é capaz de cruzar fronteiras entre liberdade e obediência. As ideias de “controle populacional”, “equilíbrio ambiental” e “governança global” aparecem como justificativas éticas — e não faltam exemplos do que isso significa na prática.
No Vietnã, milhões de contas bancárias foram suspensas porque cidadãos se recusaram a aderir à identidade digital.
Na China, o crédito social já define quem pode viajar, estudar ou acessar serviços, de acordo com o comportamento e as opiniões políticas do indivíduo. Um jornalista, ao tentar comprar uma passagem de trem, foi bloqueado por “falta de autorização digital”.
Essa é a nova forma de censura: quem se comporta conforme as regras do sistema ganha pontos e privilégios. Quem questiona, perde direitos. E o mais preocupante é que esse modelo está sendo adaptado para o Ocidente, agora sob o discurso do ESG — a moral verde que decide quem é “cidadão do bem”.
ESG: o verniz moral do controle
ESG (Environmental, Social and Governance) é apresentado como um modelo ético de gestão, mas na prática vem sendo usado como mecanismo de coerção. Empresas que não seguem os “valores corretos” são excluídas do mercado financeiro.
Cidadãos que consomem mais carne, viajam demais ou gastam energia fora da “meta sustentável” podem ser penalizados.
Cada ação é transformada em um indicador moral.
Comer carne vira uma “quebra ambiental”. Usar água além da cota vira “conduta insustentável”. E qualquer tentativa de se opor a essas narrativas passa a ser tratada como “extremismo”.
O ESG é o verniz ético perfeito para justificar o que, na essência, é controle social disfarçado de virtude.
DREX: o dinheiro que pode ser desligado
No Brasil, o Drex (Digital Real X) representa a digitalização do dinheiro físico.
Segundo o ministro da Fazenda Fernando Haddad, em entrevista ao podcast “3 Irmãos”, o Drex “pode permitir controle, mas não é para isso”. A frase soa inofensiva, mas revela a verdade que poucos percebem: se algo pode ser usado para controlar, mais cedo ou mais tarde será.
Diferente do dinheiro físico, o Drex é programável e rastreável. Isso significa que ele pode ser bloqueado, revertido ou limitado conforme critérios definidos por quem controla o sistema.
Na prática, se o governo ou uma autoridade decidir que você já comprou “carne demais”, viajou “além da meta” ou fez doações “indevidas”, o sistema pode simplesmente impedir a transação.
O Drex é o embrião de uma economia de permissão — onde o cidadão só pode gastar se estiver de acordo com o algoritmo.
As engrenagens globais do novo controle
Nomes como Tony Blair, Klaus Schwab, Bill Gates e instituições como o Fórum Econômico Mundial e as fundações Ford e Melinda Gates são peças conhecidas nesse tabuleiro.
Blair defende abertamente sistemas de identidade digital “para prever e prevenir crimes futuros”. Klaus Schwab, criador da ideia da Quarta Revolução Industrial, prega a integração entre humano, máquina e biotecnologia — um mundo onde o biológico e o digital se confundem.
O lema do Fórum — “Você não possuirá nada e será feliz” — resume o projeto: uma sociedade em que a propriedade é substituída por acesso condicionado.
Durante a pandemia, vimos um ensaio: passaportes sanitários, vacinas obrigatórias e restrições de circulação testaram até onde a população aceitaria abrir mão da liberdade em troca de segurança.
Nada disso é teoria. São fatos públicos, discursos registrados, decisões políticas reais — e todas apontam para o mesmo destino: menos autonomia, mais controle.
O impacto na vida do cidadão comum
Se esse sistema avançar sem resistência, a vida cotidiana se tornará uma sequência de autorizações digitais:
- Sem identidade digital, você não poderá acessar serviços básicos, empregos ou benefícios.
- Seu dinheiro poderá ser bloqueado, revertido ou limitado.
- Cada compra, opinião e viagem será registrada e avaliada.
- Um “score de comportamento” definirá se você é confiável.
- O direito de ir e vir poderá ser negado com um clique.
- E enquanto o cidadão for vigiado, as elites seguirão livres e intocáveis.
Tudo isso soa familiar? É o que George Orwell, Aldous Huxley e Ray Bradbury já alertaram em suas distopias. A diferença é que agora não se trata mais de literatura — mas de política pública.
Um chamado à consciência
O Brasil está prestes a cruzar uma linha da qual não há retorno. A tecnologia, que deveria libertar, está sendo moldada para vigiar, punir e condicionar. E enquanto o discurso fala em sustentabilidade e segurança, o que se constrói é uma arquitetura de obediência digital.
Ainda há tempo. Mas é preciso que o povo compreenda o que está em jogo, questione o que está sendo imposto e cobre limites claros de seus representantes.
A liberdade não será tirada de uma vez — será negociada em trocas de conveniência, até que um dia acordemos dependentes de permissão para existir.
A resistência começa agora. Depois será tarde demais (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 9/10/2025)

