16/04/2026

Imprevidência social sob Lula 3 – Editorial Folha de S.Paulo Política & Economia

Imprevidência social sob Lula 3 – Editorial Folha de S.Paulo Política & Economia
  • INSS tem segunda troca de comando em um ano, motivada por fila; primeira foi por fraude bilionária
  • O aumento das pendências ajudou o governo a conter a alta dos gastos, impulsionada pela política insustentável de reajuste dos benefícios

 

Com a segunda troca de comando em um ano, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é, possivelmente, o órgão cuja gestão é a mais desastrosa neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —não considerando na lista empresas estatais como os Correios.

 

A tornar o caso mais grave, o INSS é uma estrutura gigantesca do Executivo federal e responsável direto pela maior rubrica não financeira do Orçamento: o pagamento de benefícios previdenciários do regime geral, estimado em R$ 1,124 trilhão neste ano.

 

Nesse oceano de dinheiro público ocorreu a fraude que, em abril de 2025, resultou na demissão de Alessandro Stefanutto da chefia do instituto. Por meio de acordos com o órgão, sindicatos e outras entidades há anos faziam a seu favor descontos não autorizados nos benefícios de aposentados e pensionistas, o que forçou o governo a fazer ressarcimentos de R$ 3,3 bilhões.

 

Se é fato que a roubalheira vinha de administrações anteriores, foi sob Lula que ela atingiu seus maiores montantes, em meio a sinais evidentes de, na melhor das hipóteses, negligência.

 

O escândalo acabou ofuscado por outro, o do Banco Master, e a CPI criada para investigá-lo foi encerrada sem conseguir aprovar um relatório final. Entretanto, o crime continua sob a mira da Polícia Federal, as perdas para os cofres do Tesouro estão por serem cobradas das entidades responsáveis e até os nomes de um filho e de um irmão do presidente da República surgiram na apuração.

 

Mesmo assim, a administração petista achou que era hora, em ano eleitoral, de dar alguma satisfação pública sobre outro descalabro no INSS: a fila crescente de pedidos de benefício pendentes de decisão, pretexto para a demissão de Gilberto Waller Júnior na segunda-feira (13).

 

O problema é real —a fila tinha 1,2 milhão de requerimentos pendentes no início de Lula 3 e atingiu pico de 3,1 milhões em fevereiro deste ano, tendo caído a 2,8 milhões em março. Já as motivações das autoridades são nebulosas.

 

O demitido culpou a pasta da Previdência Social, à qual o instituto é vinculado, pelo aumento da fila, devido a atrasos em perícias médicas. O ministério é um feudo do aliado PDT, que perdeu o comando do INSS com a saída do correligionário Stefanutto, preso em novembro pela PF.

 

Parte do aumento da fila se deve às orientações do governo no sentido de priorizar revisões de benefícios e apurações de irregularidades, em detrimento da análise de pedidos. Não parece coincidência que tal escolha contribua para conter a alta dos gastos e do déficit do INSS —impulsionada pela política insustentável de reajustes dos benefícios acima da inflação retomada por Lula.

 

Tal política sobrecarrega um regime de aposentadorias já pressionado pelo envelhecimento da população, acelera a dívida pública e encurta o prazo até uma nova reforma previdenciária, outra preocupação que o petista prefere deixar para seus sucessores (Folha, 16/4/26)