18/02/2026

Índia amplia etanol automotivo com Brasil no radar estratégico

Índia amplia etanol automotivo com Brasil no radar estratégico

Por Pedro Côrtes

Com mistura de 20% de etanol na gasolina, Nova Délhi reduz dependência do petróleo e cria janela estratégica para expertise brasileira.

 

A Índia praticamente antecipou sua meta de 20% de mistura de etanol na gasolina (E20) e, com isso, redesenhou não apenas sua matriz de combustíveis, mas a própria lógica de funcionamento do setor sucroenergético e do mercado de grãos.

 

O que começou como uma política de diversificação energética evoluiu para uma estratégia macroeconômica de substituição de importações, redução da vulnerabilidade externa e estabilização de renda no campo — com efeitos que extrapolam as fronteiras indianas e abrem espaço para cooperação internacional, inclusive com o Brasil.

 

O programa EBP (Ethanol Blended Petrol), acelerado a partir de 2020, elevou a taxa média de mistura de níveis inferiores a 5% há poucos anos para o patamar atual próximo de 20%.

 

Em um país que importa mais de 80% do petróleo que consome, a conta é direta: cada ponto percentual adicional de mistura reduz a exposição cambial, alivia o déficit energético e cria demanda doméstica previsível para produtores agrícolas.

 

A espinha dorsal da produção continua sendo a cana-de-açúcar. No entanto, diante de episódios recentes de restrição hídrica e preocupação com a oferta de açúcar, o governo ampliou incentivos para o etanol de grãos, sobretudo o milho.

 

O movimento não é marginal: ele funciona como mecanismo de estabilização do sistema, reduzindo a dependência exclusiva da cana e permitindo maior flexibilidade em anos de safra mais curta ou preços internacionais elevados do açúcar.

 

A capacidade instalada de produção se aproxima de 20 bilhões de litros anuais, resultado de um ciclo acelerado de investimentos em destilarias anexas a usinas de açúcar e em plantas dedicadas ao processamento de grãos. O modelo indiano, porém, não é de livre mercado pleno.

 

O governo estabelece preços diferenciados de aquisição conforme a matéria-prima — melaço, caldo de cana ou milho —, garantindo margem mínima aos produtores e assegurando previsibilidade de oferta às distribuidoras. Trata-se de uma política industrial explícita, com forte coordenação estatal.

 

Os efeitos macroeconômicos são evidentes. A redução potencial da conta de importação de combustíveis fósseis melhora o balanço externo e reduz a exposição a choques geopolíticos.

 

Ao mesmo tempo, o programa transfere renda para regiões agrícolas e suaviza ciclos de inadimplência no setor sucroenergético, historicamente pressionado por volatilidade de preços.

 

É nesse ponto que o Brasil entra na equação estratégica. A Índia não pretende se tornar dependente de importações estruturais de etanol, mas pode se beneficiar da experiência brasileira acumulada ao longo de décadas de mistura elevada e motores flex.

 

O Brasil domina tecnologias de produção integrada de etanol de cana, cogeração de bioeletricidade e, mais recentemente, etanol de segunda geração. Essa expertise pode ser exportada na forma de engenharia industrial, equipamentos, certificação de sustentabilidade e desenho regulatório.

 

Há, contudo, tensões estruturais no mercado indiano. Monções irregulares e ondas de calor têm afetado a produtividade da cana, pressionando custos.

 

Em anos de preços internacionais elevados do açúcar, cresce o incentivo para exportação, o que pode competir com a produção de etanol. E, embora montadoras tenham adaptado motores ao E20, persistem questionamentos de parte dos consumidores sobre eficiência e autonomia.

 

Soma-se a isso o dilema clássico dos biocombustíveis: o equilíbrio entre segurança energética e segurança alimentar.

 

O cenário prospectivo aponta para consolidação, não para expansão explosiva. O E20 tende a se firmar como novo padrão estrutural do mercado indiano, com ajustes graduais na participação do milho e aperfeiçoamentos no sistema de preços administrados.

 

A Índia não replica o modelo brasileiro nem o americano; constrói uma arquitetura própria, fortemente coordenada pelo Estado e orientada à redução de vulnerabilidades externas. Justamente por isso, o espaço para o Brasil não está em substituir a produção local, mas em agregar eficiência ao sistema.

 

No fim, o etanol indiano deixou de ser apenas política ambiental. Tornou-se instrumento de gestão macroeconômica e, ao mesmo tempo, oportunidade estratégica para um Brasil que detém a tecnologia mais madura do mundo em biocombustíveis (Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país; CNN, 17/2/26)