Jagunços do Master evidenciam gravidade do escândalo – Editorial Folha
- No decreto de prisão do ex-banqueiro Vorcaro e comparsas estão expostas evidências de ousadia criminosa
- Caso também expõe a permissividade de autoridades e instituições à penetração do crime organizado, o que corrói a República
Não bastassem a fraude bilionária e os esquemas para comprar proteção nas altas camadas de poder no escândalo do Banco Master, chegam ao público fortes indícios de que a organização mantinha um núcleo dedicado a operações clandestinas, o que incluía intimidar a imprensa e quem mais se colocasse em seu caminho.
"A Turma", como o bando se identificava no material apreendido pela Polícia Federal, conversou sobre "quebrar todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. A sugestão da sova foi dada pelo chefe e então dono do Master, Daniel Vorcaro, a um dos jagunços do grupo, Luiz Mourão, o "Sicário", apelido que remete a matadores de aluguel.
De acordo com as ordens de prisão decretadas pelo ministro André Mendonça, "Sicário" e um ex-policial também invadiam sistemas de órgãos federais, monitoravam e espionavam alvos do dono do banco e agiam para limpar a imagem pública da empresa financeira e de Vorcaro, por meio de pedidos forjados a plataformas digitais e pagamentos a editores por veiculações amistosas.
Além da dupla de capangas e do próprio Vorcaro, foi preso preventivamente Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro suspeito de organizar pagamentos de "A Turma". Mourão se suicidou nesta quarta (4), segundo a PF, acrescentando dose extra de pasmo ao que já era espantoso.
Segundo a PF, foram corrompidos dois servidores do Banco Central, que já estavam afastados pelo órgão e agora foram suspensos também judicialmente e colocados sob vigilância eletrônica.
Diante do volume de evidências da constituição de uma milícia privada, causa espécie a atitude do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de requerer mais tempo para analisar o pedido de prisão da PF. Fez bem Mendonça em negar o argumento do procurador de que não haveria perigo iminente em "Sicário" e seus comparsas continuarem soltos.
Espera-se que a PGR não se contamine pelo espírito de acomodação, para dizer o menos, que regia a condução do caso sob Dias Toffoli no Supremo Tribunal Federal. Todos os envolvidos na distribuição da Justiça já deveriam estar convictos da necessidade de apurar com rigor e à luz do Sol esse escândalo tentacular.
O filme que se vai produzindo em torno do descalabro do Master mostra um elevado grau de ousadia criminosa, de um lado, e de permissividade à penetração e à cooptação mafiosas em organizações do Estado, do outro.
Faz pouca diferença o agente da infestação ter promovido festas com poderosos e lhes facilitado negócios e riquezas. Para o efeito de carcomer as instituições da República, dá na mesma se ele fosse um capo a comandar dos presídios o tráfico de drogas.
Nem sequer a violência como meio de promover os interesses do chefão ficará de fora da descrição da máfia que se apoderou do Master. Condescendência na investigação só piora os sintomas e adia o enfrentamento da doença (Folha, 5/3/26)

