Jhonatan de Jesus é uma síntese do derretimento das instituições
Por Eliane Cantanhêde
Emendas foram indicadas entre 2020 e 2023, quando Jhonatan de Jesus era deputado federal.
O sr. Jhonatan de Jesus é um exemplo pronto e acabado do derretimento das instituições no Brasil e provoca uma pergunta que já embute a própria resposta: como é possível esse cidadão virar ministro, justamente, do Tribunal de Contas da União (TCU)?
Ninguém fora do Congresso sabia quem ele era, até virar relator do processo no TCU sobre a liquidação do Banco Master e atuar descaradamente, não só a favor dos interesses de Daniel Vorcaro, mas principalmente atacando o Banco Central. Pode ser tudo, menos surpresa. Basta dar uma olhada nos seus mandatos na Câmara dos Deputados.
A defesa ferrenha do Master e de Vorcaro (por que será?) combina à perfeição com o sumiço das emendas parlamentares de Jhonatan. Quando era deputado federal, ele indicou R$ 42 milhões em emendas para Roraima e, como constatou in loco o Estadão, esses milhões viraram pó, ou melhor, mantiveram o pó.
A estrada que seria construída continua de terra e esburacada, sem um filete de asfalto. No terreno onde seriam feitas 300 casas populares, só há uma, pequenina e desabitada, que se transformou numa triste ilha, no meio de uma clareira de terra seca, cercada pelo mato. E o dinheiro, para onde foi? Se não foi o gato, quem comeu?
Formado em Medicina, Jhonatan foi eleito deputado federal aos 28 anos e ganhou a vaga no TCU no início do quarto mandato, para o qual teve 19.881 votos. Tal pai, tal filho. Seu pai, o ex-senador Mecias de Jesus (a família capricha na grafia do nome das crianças), também foi agraciado com uma vaga do TCE de Roraima.
Quem indicou Jhonatan para o tribunal? O então presidente da Câmara, Arthur Lira, o que bastou para que ele tivesse a grande maioria dos votos dos colegas, da maioria dos partidos, e virasse ministro sem problemas. O passado? O currículo? A experiência com gestão e contas? Nada disso. Valeu a força de Lira, do seu partido, o Republicanos, e do Centrão.
E o que é o TCU? Ao contrário do que se pensa, não é um dos cinco tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE, STM), mas sim o braço do Legislativo para fiscalizar as contas do Executivo. Logo, um órgão fiscalizador, que exige, principalmente, a famosa e tão desprezada “reputação ilibada”.
Jhonatan, porém, não é uma exclusividade e nem ele nem seu pai caíram de paraquedas em tribunais de contas. Eles foram apenas beneficiados por um sistema de escolha que mistura interesses políticos, pessoais e até familiares.
Pelo menos oito governadores ou ex-governadores emplacaram suas próprias mulheres nos tribunais de contas de seus estados: Waldez Goes (AP), Renan Filho (AL), Wellington Dias (PI), Wilson Martins (PI), Rui Costa (BA), Helder Barbalho (PA), Antonio Denarium (RR) e Camilo Santana (CE).
Coincidências: Denarium é de Roraima, estado da família Jesus, cinco deles foram ministros do governo Lula e todos os oito são das regiões Norte e Nordeste. Dúvidas: Jhonatan de Jesus tinha perfil para ser ministro do TCU? E mulher de governador e ex-governador é adequada para fiscalizar as contas do governo estadual?
Coisas do Brasil, onde, aliás, ministros do Supremo se colocam e são colocados acima da Constituição, não precisam dar explicações, de um lado, e as investigações sobre eles andam a passos lentos, de outro. Mas os penduricalhos do sistema estão garantidos! (Estadão, 5/7/26)

