14/05/2026

Ligação de Flávio Bolsonaro e Vorcaro abre crise na campanha bolsonarista

Ligação de Flávio Bolsonaro e Vorcaro abre crise na campanha bolsonarista

Foto Adriano Machado - Reuters

 

Por Rute Pina e Vitor Tavares

 

A revelação da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pode embaralhar a disputa presidencial de outubro, avaliam analistas políticos.

Nesta quarta-feira (13/5), o senador admitiu ter pedido a Vorcaro dinheiro para custear as gravações de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

Segundo reportagem do portal The Intercept Brasil, o valor negociado teria chegado a US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época.

 

Desse total, R$ 61 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025.

 

Diante dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens a Vorcaro cobrando a liberação dos recursos.

Advertisement

Vorcaro está preso sob acusação de comandar fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro. Ele negocia um acordo de delação premiada.

 

Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio admitiu a conversa com Vorcaro, mas afirmou que apenas buscava investidores privados para financiar um filme sobre o pai.

 

"Toda essa história que está sendo veiculada agora nada mais é do que um filho procurando investidores privados para fazer um filme privado sobre a história do seu próprio pai. Zero de dinheiro público, zero de Lei Rouanet", disse.

 

Ele também afirmou que conheceu Vorcaro apenas após o governo Bolsonaro, em dezembro de 2024, e que procurou outros investidores para concluir o projeto diante de atrasos nos pagamentos.

Crise pressiona pré-candidatura de Flávio

 

Mais cedo na segunda-feira, a pesquisa Genial/Quaest mostrou melhora na aprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passou de 43% para 46%.

 

O levantamento, feito antes das revelações do Intercept, apontou empate técnico entre Lula e Flávio em um eventual segundo turno, mas com vantagem numérica para o petista: 42% a 41%.

 

Para Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até agora Flávio Bolsonaro "jogava parado" na pré-campanha, apostando na transferência de votos do pai.

 

"A incógnita era se essa transferência de votos se manteria ao longo da campanha, quando ele deixasse de ser apenas o herdeiro dos votos de Jair Bolsonaro e passasse a ser uma pessoa com suas próprias idiossincrasias", afirma.

 

"Esses elementos podem conturbar aquilo que parecia ser o caminho que as coisas seguiriam."

 

O cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, também aposta que o episódio do pedido de dinheiro a Vorcaro tem potencial de interromper o crescimento de Flávio nas pesquisas, mas pondera que ainda é cedo para medir a dimensão do desgaste.

 

"Isso tende a produzir um certo estancamento na subida que ele vinha apresentando", afirma. Segundo ele, o senador pode sofrer alguma queda nas próximas pesquisas, ainda que a polarização limite perdas mais profundas no curto prazo.

 

Couto avalia que a gravidade do caso pode aumentar caso novas revelações sejam divulgadas nos próximos dias. "Se isso acontecer de novo, como ocorreu na Vaza Jato, pode ser que hoje tenha aparecido isso e amanhã apareça outra coisa. Aí o comprometimento é muito maior."

 

Para Yuri Sanches, diretor de risco político da Atlas/Intel, o principal desafio de Flávio era ampliar sua imagem para além do núcleo bolsonarista mais fiel.

 

"Flávio precisa desconstruir a rejeição dele atrelada ao sobrenome e aos casos de corrupção. Ao mesmo tempo, ele tenta construir uma imagem de gestor diferente do pai, de um Bolsonaro moderado, que tomou vacina e alguém experiente, ainda que não tenha experiência de gestão", afirma.

 

Segundo ele, as revelações sobre a relação com Vorcaro atingem diretamente essa estratégia de reposicionamento. "Esse caso vem como um balde de água fria nesse processo de desconstrução que estava sendo feito."

 

Caso Master deve pautar eleições

 

Sanches também avalia que a divulgação das mensagens de Flávio a Vorcaro pode dar contornos mais concretos a um escândalo que ainda parecia difuso para parte do eleitorado.

 

"O caso Master, diferente de outros casos de corrupção, estava um pouco difuso sobre quem ele implicava. Se o Supremo Tribunal Federal, o Congresso inteiro, mais recentemente o Ciro Nogueira", afirma. "Agora, com esse vínculo direto com o Flávio Bolsonaro, isso traz um elemento muito concreto para a opinião pública se pautar."

 

Ele pondera que a eleição tende a continuar polarizada, mas o eleitor decisivo costuma reagir fortemente a crises de imagem e corrupção.

 

"Temos dois blocos bastante sólidos no país, em termos de preferência ideológica e política", afirma o analista.

 

"Isso faz com que o eleitorado-chave que vai entregar a vitória a algum candidato seja bastante reduzido. Foi assim em 2022. Por isso que o Lula venceu por 1,8% de vantagem de diferença. Esse eleitorado é muito sensível à crise de imagem e corrupção."

 

Já o cientista político Hilton Fernandes, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), pode reduzir a capacidade do bolsonarismo de explorar denúncias de corrupção contra o PT.

 

"Isso irá diminuir o poder de associar casos de corrupção ao PT e pode afetar o engajamento de militantes. O caso do banco Master é muito grave e ainda deve atingir outros políticos, candidatos ou não, causando prejuízos nas campanhas eleitorais, em especial pelo afastamento de apoiadores que não querem ser vinculados ao escândalo", avalia.

 

"Como a rejeição dele e de Lula são altas, um desgaste deste tipo pode inviabilizar a vitória nas urnas, ainda que o candidato mantenha uma base fiel."

 

Disputa interna na direita se intensifica

 

Mayra Goulart argumenta, no entanto, que a principal consequência das revelações tende a ser o aprofundamento das disputas internas na direita. O episódio ocorre em meio a uma sequência de conflitos dentro do campo bolsonarista.

 

Nesta semana, o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) trocaram críticas públicas após a definição da chapa do PL ao Senado deixar Salles fora da disputa.

 

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também protagonizou atritos recentes com integrantes da família Bolsonaro.

 

No final de abril, Nikolas acusou "aliados de longa data" de promover perseguição a quem não divulga a candidatura de Flávio. Pouco depois, chamou Jair Renan Bolsonaro de "toupeira cega".

 

A fala foi interpretada como resposta indireta ao vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), que havia anunciado um "levantamento" de integrantes do PL que não promovem a candidatura do irmão.

 

Para Goulart, o episódio desta quarta pode reduzir a competitividade de Flávio e aumentar a fragmentação da direita. "Se essa candidatura chegar sem tração no segundo turno, existe uma possibilidade maior da vitória do candidato no campo progressista", diz.

 

Por outro lado, uma troca de candidato neste momento é arriscada para o PL, aposta Hilton Fernandes.

 

"O novo nome precisaria ser ungido pelo clã de forma coesa, o que também é difícil. Se surgirem novas denúncias que compliquem de vez a candidatura de Flávio, o PL pode ter que abrir mão de uma indicação na cabeça de chapa em troca da manutenção de seu poder nas casas legislativas", afirma.

 

"Neste cenário, é importante observar os próximos passos de Ronaldo Caiado e seu partido, o PSD."

 

Também pré-candidato à Presidência, Caiado adotou uma postura cautelosa. Em um vídeo publicado no X, o ex-governador de Goiás afirmou que Flávio Bolsonaro deveria se explicar, mas que ele não era um "homem oportunista" e que era importante trabalhar para que a "centro-direita brasileira não se divida, não rompa essa unidade para que possamos, aí sim, derrotar o PT e o Lula nas urnas".

 

Já o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), que vinha sendo cotado para ser candidato a vice em uma chapa com Flávio, criticou o aliado. Em um vídeo publicado nas redes sociais, ele disse que o áudio divulgado pelo Intercept é um "tapa na cara dos brasileiros de bem".

 

"Flavio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil", declarou.

 

Claudio Couto avalia que o episódio dificulta uma eventual substituição de Flávio Bolsonaro dentro do próprio grupo político. "Agora os ataques podem começar com tudo, porque você tem um telhado de vidro", afirma.

 

Segundo ele, uma troca de candidatura neste momento seria politicamente delicada para o PL. A alternativa mais óbvia seria Michelle Bolsonaro, mas o cientista político avalia que o episódio também atinge diretamente a imagem da família Bolsonaro como um todo.

 

"Como ele mesmo disse, é o filho querendo financiar um filme sobre o pai. Como é que fica a esposa nisso? Não me parece que a situação seja muito confortável." (BBC News Brasil, 13/5/26)

 



Flávio Bolsonaro admite que pediu milhões a Vorcaro para filme do pai: o que se sabe

Flávio Bolsonaro negou qualquer ilegalidade no financiamento do filme sobre seu pai. Foto Getty Images

 

Por Mariana Schreiber

 

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu ter negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, investimentos para custear as gravações de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

De acordo com uma reportagem do portal The Intercept Brasil, o repasse total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025.

Diante dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens para Vorcaro cobrando a liberação.

 

Em uma das mensagens divulgadas pelo Intercept, e que teria sido enviada um dia antes da primeira prisão do banqueiro, Flávio trata Vorcaro com aparente proximidade, o chamando de "irmão" e dizendo: "Estou e estarei contigo sempre".

 

Daniel Vorcaro está preso, acusado de ter comandado fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro. No momento, ele negocia um acordo de delação premiada.

 

Ainda, segundo o Intercept, as conversas obtidas indicam que a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para viabilizar a produção do filme contou com a intermediação do publicitário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal LeoDias.

 

Ao jornal O Globo, Miranda confirmou ter intermediado negociações com Vorcaro que teriam resultado em repasses de R$ 62 milhões para a realização da produção cinematográfica.

 

De acordo com ele, o valor previsto seria maior, mas os repasses foram suspensos com a crise na instituição financeira.

 

Segundo O Globo, em 2025, o Banco Master transferiu R$ 2,329 milhões diretamente à Entre Investimentos — empresa que teria sido utilizada para repasses de dinheiro entre Vorcaro e a produção do filme —, com base em informações obtidas a partir das declarações de Imposto de Renda do banco.

 

Na manhã desta quarta-feira (13/5), Flávio Bolsonaro foi questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao filme Dark Horse (Azarão, em tradução livre), e respondeu: "De onde você tirou essa informação? É mentira".

 

No entanto, após a publicação da reportagem, o senador admitiu a negociação, negando qualquer ilegalidade no financiamento do filme. Ele cobrou a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as suspeitas envolvendo Vorcaro.

 

"Mais do que nunca, é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet", disse Flávio, por meio de nota.

 

"Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme", continuou.

 

O senador diz que não ofereceu nada em troca do financiamento.

 

"Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do Master Já", disse ainda.

 

A declaração, contudo, contradiz falas recentes do próprio Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro.

 

Em março, após a revelação de que Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, havia doado R$ 3 milhões para a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio afirmou que a contribuição ocorreu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive".

 

Em outra ocasião, ao ser questionado pela Folha de S.Paulo sobre o fato de seu número constar na agenda telefônica de Vorcaro — informação revelada pela CPI do INSS —, o senador disse que seu telefone "não é propriamente um segredo" e sugeriu que terceiros poderiam ter repassado o contato.

 

Apesar da admissão de Flávio Bolsonaro sobre o financiamento, a Go Up Entertainment, produtora do Dark Horse, negou o recebimento de repasses de verba de Daniel Vorcaro para o projeto.

 

À Folha de S. Paulo, Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, disse que a produtora só tem investimentos estrangeiros, sem ligação com o banqueiro.

 

As gravações foram encerradas em dezembro, em São Paulo, e o longa entrou em fase de edição, nos Estados Unidos.

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro ainda não se manifestou.

 

A aproximação entre Flávio e Vorcaro

 

A primeira aproximação entre Flávio e o banqueiro, segundo o material analisado pelo Intercept, teria ocorrido em 8 de dezembro de 2024, quando o publicitário Thiago Miranda organizou um encontro entre os dois em Brasília.

 

Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao banqueiro que o senador queria tratar do "filme do presidente", acrescentando que "Flavio está ciente de tudo".

 

"Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília. Ok?", pergunta Miranda.

Vorcaro respondeu dando ok.

 

Ainda, segundo o Intercept, pouco menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, às 18h24, o deputado federal Mario Frias (PL-SP) enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto.

 

Frias teria dito que o filme "vai mexer com o coração de muita gente" e seria importante para o país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.

 

Nos meses seguintes, segundo o Intercept, as mensagens obtidas indicam avanço das negociações e um cronograma de pagamentos acompanhado diretamente por Vorcaro e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela Polícia Federal como seu principal operador financeiro. Zettel também está preso, negociando acordo de delação premiada.

 

"No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2 milhões de dólares", diz um trecho da reportagem do site.

 

Em entrevista ao Globo, Miranda disse que o projeto do filme foi apresentado a ele pelo deputado federal Mario Frias, que o procurou para pedir ajuda por estar com dificuldade de financiamento.

 

"Eu tive uma reunião com o Mario Frias, que me apresentou o projeto. Conversei com vários empresários e mostrei pro Daniel [Vorcaro]. O Daniel falou: 'Cara, eu tenho interesse, sim, em patrocinar'. Na verdade, não é patrocinar, é ser investidor", afirmou Miranda ao jornal.

 

"Levei pro Mario Frias, falei: 'Olha, o Daniel vai entrar'. O contrato foi assinado", disse ainda.

 

Miranda afirmou ao O Globo que a ligação de Vorcaro com o filme não apareceria publicamente.

 

Em nota divulgada na noite desta quarta-feira, Mario Frias contradiz Flávio Bolsonaro e nega qualquer participação financeira do empresário Daniel Vorcaro na produção.

 

"Como já esclareceu a produtora GOUP Entertainment, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse. E, ainda que houvesse, não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada, entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido. E, na época, não havia qualquer suspeita a ele e seu banco", diz um trecho do comunicado divulgado em seu perfil no X.

 

"Há uma tentativa permanente de descredibilizar a obra perante a opinião pública, investidores e parceiros do setor audiovisual, muitas vezes por motivações claramente políticas e ideológicas."

 

O relacionamento que antes era intermediado por Miranda, evoluiu em 2025 para uma interlocução direta entre Flávio e Vorcaro, segundo o Intercept.

 

O site teve acesso a mensagens trocadas pelo senador com o banqueiro, incluindo um aúdio enviado pelo senador pedindo a liberação de valores pendentes.

 

Segundo a reportagem, Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões de dólares para a produção cinematográfica, que seria equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na época.

 

"Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro", diz o portal.

 

Diante do atraso na liberação dos valores restantes, Flávio Bolsonaro teria feito contatos com Vorcaro cobrando os valores, com um áudio enviado em 8 de setembro, dias antes da condenação de Jair Bolsonaro pelo STF.

 

"Irmão, preferi te mandar um áudio para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida. Não sei como isso vai acabar, mas tá na mão de Deus aí", teria dito Flávio no aúdio divulgado pelo Intercept.

 

"Mesmo você tendo dando liberdade de te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim... É porque está num momento muito decisivo aqui no filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme, né?", continua a gravação.

 

"Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel ou num Cyrus [Nowrasteh], os caras renomadíssimos lá no cinema americano mundial, podia ser algo muito ruim. Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme, pode ter efeito elevado a menos 1", diz Flávio no áudio, citando o ator que interpreta Bolsonaro na produção e o diretor da obra.

 

"Se você puder me dar um toque, uma posição aí Daniel, porque a gente precisa saber o que faz da vida. Porque tem muita conta para pagar esse mês e mês seguinte também. E agora na reta final, a gente não pode não honrar com os compromissos."

Na resposta, segundo o Intercept, Vorcaro pediu desculpas e afirmou que resolveria a situação no dia seguinte. Na mesma noite, os dois teriam feito uma ligação telefônica de cerca de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos.

 

O senador e o banqueiro teriam mantido contato frequente desde então. Segundo o Intercept, ainda em setembro, eles teriam realizado quatro ligações e marcado encontros presenciais em São Paulo.

 

A reportagem cita ainda outras interações, como registros de ligações de áudio cujo teor não foi revelado e conversas marcando um jantar na casa de Vorcaro para que o banqueiro conhecesse os artistas envolvidos no filme — não há confirmação se o jantar de fato ocorreu.

 

Dois meses depois, no dia 07 de novembro, Flávio Bolsonaro teria enviado um vídeo de visualização única para Vorcaro dizendo: "Tá perdendo, irmão. Tudo isso só está sendo possível por causa de você!", diz trecho publicado pelo Intercept.

 

O banqueiro então respondeu: "Que demais. Ficou perfeito".

 

Na semana seguinte, já nas vésperas da primeira prisão de Vorcaro, Flávio Bolsonaro teria feito outro contato em mensagem de texto com o banqueiro, usando palavras que novamente demonstram grande proximidade entre os dois.

 

"Fala mermão. Pode atender?", perguntou Flávio em mensagem enviada no dia 15 de novembro, às 15h47, e publicada pelo Intercept.

 

Vorcaro respondeu no dia seguinte, às 10h37: "Fala irmaozão [sic] na igreja. Terminando te chamo."

 

Durante a tarde, Flávio teria enviado duas imagens de visualização única e em seguida elogiado Vorcaro.

 

"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!".

 

As reações da direita

 

Na sequência da divulgação dos áudios, personalidades do campo conservador começaram a questionar a viabilidade da candidatura presidencial de Flávio, atual pré-candidato do PL.

 

"Eu realmente espero que esse áudio seja falso. Se for verdade, acabou", escreveu o economista e comentarista Rodrigo Constantino na rede social X.

 

Constantino afirmou que "não dava para passar pano na situação" e criticou a postura de políticos que estavam tratando o episódio como algo normal.

 

"Agora vai ser a hora de separar o joio do trigo. Só imaginem se fosse o Zema, ou então o Lula com essas ligações e esses acordos com Vorcaro. Qual seria a reação dessa mesma turma? Só imaginem...".

 

Assim como o comentarista, políticos da direita, entre eles o senador Ricardo Salles (Novo-SP) — que foi ministro do governo Bolsonaro e nesta semana trocou críticas públicas com Eduardo Bolsonaro (PL) —, passaram a manifestar apoio a Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência.

 

"Bora Zema! Sempre contra a esquerda!!", compartilhou Salles a mensagem publicada por um outro perfil. "Parece que Romeu Zema é a única solução".

 

Zema, que vinha sendo cotado para ser candidato a vice em uma chapa com Flávio, também criticou o aliado.

 

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o ex-governador de Minas Gerais disse que o áudio divulgado pelo Intercept é um "tapa na cara dos brasileiros de bem".

 

"Flavio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil.", declarou.

 

O também pré-candidato à Presidência, Ronaldo Caiado (PSD), adotou uma postura diferente.

 

Em um vídeo publicado no X, Caiado afirmou que Flávio Bolsonaro deveria se explicar, mas que ele não era um "homem oportunista" e que era importante trabalhar para que a "centro-direita brasileira não se divida, não rompa essa unidade para que possamos derrotar o PT e o Lula nas urnas".

 

Já a direita aliada do clã Bolsonaro adotou o discurso de que Flávio buscou dinheiro privado para um projeto privado, sem desvio de dinheiro público, junto com um ataque à Lei Rouanet.

 

O ex-vereador Fernando Holiday (PL-SP), por exemplo, minimizou as revelações contra Flávio Bolsonaro.

 

"Eu não estou entendendo essa zona toda. Qual o problema de buscar financiamento privado para um filme? A outra opção é financiamento público. E, por acaso, para pedir investimento privado, tem que prever os crimes do sujeito? Consultar a Mãe Dinah?", escreveu no X.

 

O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), também seguiu pelo mesmo caminho e disse que "as explicações apresentadas pelo senador Flávio Bolsonaro são claras, coerentes e objetivas".

 

"Os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos. Não aceitaremos tentativas de transformar uma iniciativa privada em narrativa política artificial para atingir adversários", afirmou.

 

Também colocando panos quentes na situação, o ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social do governo Bolsonaro, Fabio Wajngarten, se manifestou.

 

"Todo frenesi durará poucos minutos. Se acalmem", declarou.

 

Por sua vez, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) disse que não acredita "em condenações precipitadas", questionou uma suposta falta de repercussão em escândalos ligados à esquerda e defendeu a instalação da CPMI do Banco Master.

 

"Não acredito em condenações precipitadas, assim como também acredito que transparência é sempre o melhor caminho. Flávio deu sua versão dos fatos e afirmou não haver qualquer ilegalidade em sua conduta", afirmou na rede social X.

 

"Só há uma forma de elucidar todos os fatos envolvendo o Banco Master e as ações do Vorcaro: a instalação da CPMI. Quem agora silenciar, estará acusando o seu medo e, consequentemente, sua culpa."

 

Aliados de Lula ironizam conversas

 

A divulgação do caso provocou reação imediata de políticos da esquerda. Minutos após a publicação da reportagem, perfis de partidos da base governista passaram a compartilhar o áudio divulgado pelo Intercept.

 

Aliados do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defenderam a investigação do caso e chegaram a pedir a prisão de Flávio Bolsonaro.

 

O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou uma notícia-crime ao ministro do STF André Mendonça, à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República pedindo a prisão preventiva do senador.

 

Já o ministro Guilherme Boulos afirmou nas redes sociais: "Uma semana após Flávio dizer que Banco Master está ligado ao PT, vaza áudio dele cobrando R$ 134 milhões de Vorcaro. A terra plana não gira, capota".

 

Durante um evento em São Paulo durante a noite, o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), ironizou as conversas reveladas pelo Intercept.

 

"O cara pede uma contribuição de R$ 134 milhões para a família dele e o pessoal está apavorado com isso. Normal. O Brasil virou essa cleptocracia porque as pessoas perderam a noção do ridículo. Ele pediu isso para fazer um documentário sobre o pai dele. Até eu faço", declarou.

 

Candidatura em crise?

 

Especialistas entrevistados pela BBC News Brasil avaliam que as revelações tendem a aprofundar disputas internas na direita, além de reduzir a competitividade de Flávio.

 

Segundo a cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até agora Flávio Bolsonaro "jogava parado" na pré-campanha, apostando na transferência de votos do pai.

 

"Esses elementos podem conturbar aquilo que parecia ser o caminho que as coisas seguiriam."

 

O cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, também aposta que o episódio tem potencial de interromper o crescimento do senador nas pesquisas, e avalia que a gravidade do caso pode aumentar caso novas revelações sejam divulgadas nos próximos dias.

 

"Se isso acontecer de novo, como ocorreu na Vaza Jato, pode ser que hoje tenha aparecido isso e amanhã apareça outra coisa. Aí o comprometimento é muito maior."

 

Já Yuri Sanches, diretor de risco político da Atlas/Intel, afirma que ainda é cedo para medir o tamanho do impacto eleitoral do episódio, mas que o desgaste pode ser relevante.

 

"Um caso como esse tem potencial de impactar negativamente o Flávio de uma maneira que a gente ainda vai precisar medir a magnitude." (BBC News Brasil, 13/5/26)