Lula e Vorcaro: Amizade, poder e corrupção – Por Paula Sousa

Enquanto a narrativa oficial tenta pintar o escândalo do Banco Master como um fenômeno isolado da Faria Lima ou uma conspiração da direita, os fatos insistem em aparecer na agenda do Palácio do Planalto. Segundo revela o jornalista Cláudio Dantas, o buraco não é apenas mais embaixo; ele é bem mais à esquerda.
Para quem ainda acredita na fábula do presidente como um observador distante, a coluna de Dantas oferece um choque de realidade: Daniel Vorcaro, o rosto por trás do Master, não era um simples conhecido, mas um verdadeiro "freguês" dos tapetes vermelhos de Brasília. Entre 2023 e 2024, ele cruzou as portas do Planalto pelo menos quatro vezes — uma frequência seletiva, digna de quem desfruta de uma intimidade com que poucos mortais ousam sonhar. É bem provável que o Wi-Fi do palácio conectasse automaticamente no celular de Vorcaro antes mesmo de ele se acomodar no sofá para o cafezinho.
Amigos de peso e negócios de luxo
A conexão não para na recepção do palácio. O esquema de "quem indica" no governo atual funciona com nomes de peso. Vorcaro circulava muito bem acompanhado por figuras como Guido Mantega, o eterno conselheiro econômico das eras petistas, e Augusto Lima. Esse último, inclusive, é a peça-chave. Foi Augusto Lima quem transformou o que era um banco pequeno em um gigante do crédito consignado, trazendo para a mesa a expertise de "falar a língua dos políticos".
E como o governo retribui tamanha amizade? Lula não apenas recebeu o dono do banco em reuniões secretas e fora da agenda, como também viajou até Minas Gerais para inaugurar a Biomm , a fábrica de insulina de Vorcaro. Ao lado de Walfrido dos Mares Guia — outro velho conhecido das páginas policiais e amigo pessoal do presidente —, o petista celebrou o sucesso do empresário que, meses depois, veria seu castelo de cartas começar a balançar.
A estratégia do "cai fora antes"
A grande pergunta que fica no ar, e sobre a qual o texto de Dantas nos faz refletir, é: se eles eram tão próximos, por que deixaram o banco quebrar? Aqui entramos no terreno das hipóteses.
A primeira possibilidade é a da traição estratégica. Imagine que o governo percebeu que o Master estava com o destino selado. O que um "bom companheiro" faz? Avisa os seus. Coincidentemente, em 2024, Augusto Lima pegou suas coisas, o lucrativo Credcesta e o Banco Pleno (ex-Voitter) e pulou do barco do Master. O movimento parece cirúrgico: "Augusto, sai daí antes que a bomba exploda, porque queremos usar essa quebra para atingir o pessoal do Centrão". O plano seria quebrar o banco para fragilizar os adversários políticos, achando que o lado petista estaria blindado e a salvo em outra instituição.
A segunda hipótese é a da incompetência. O governo teria tentado salvar o Master nos bastidores, talvez empurrando a "bomba" para o BRB (Banco de Brasília). Seria o crime perfeito: o contribuinte brasiliense pagaria a conta, o banco seria absorvido e o escândalo morreria num porão burocrático. O problema é que, quando o Banco Central e os auditores abriram o cofre, o cheiro de mofo era forte demais. O rombo não era um buraco; era um abismo que poderia engolir o BRB e o Distrito Federal inteiro junto. Sem saída e com medo do efeito dominó, o jeito foi puxar a tomada.
Títulos podres e o cheiro de queimado
Enquanto a militância jura que Lula é um "inocente" que nem sabia o que era o Banco Master, a Caixa Econômica — sob controle direto do governo — tentava comprar R$ 500 milhões em títulos podres da instituição de Vorcaro. Isso mesmo, meio bilhão de reais do seu dinheiro para tentar dar um fôlego a um banco que já estava na UTI. Uma tentativa de resgate com dinheiro público é tratada como "gestão técnica".
O resultado de tudo isso é o que vemos agora: o mercado em pânico e a confiança derretendo. O Banco Pleno, aquele que deveria ser o porto seguro do grupo petista, agora oferece taxas desesperadas de 170% do CDI. No mundo financeiro, isso não é investimento; é um pedido de socorro. Instituições como XP e BTG já retiraram os títulos das prateleiras, e o "plenamente petista" Augusto Lima agora busca um comprador que não existe.
Onde há fumaça, há um companheiro
A narrativa de que "Lula não sabia" já não convence quem tem mais de dois neurônios. Como alguém recebe um banqueiro quatro vezes, inaugura sua fábrica, tem seus principais ex-ministros trabalhando nos bastidores e, no fim, é pego de surpresa? A verdade é que o modelo de negócios do Master foi construído sobre a base da influência política. O mantra era claro: "Compre influência em Brasília e, se der errado, o governo edita uma medida provisória ou faz um banco público te salvar". É o método JBS aplicado ao setor bancário.
O escândalo do Master prova que, no Brasil, o capitalismo de laços é o único que prospera — até que os laços fiquem apertados demais no pescoço. Lula está atolado nesse buraco até o pescoço. Não adianta tentar jogar o problema para o colo do STF ou de ministros amigos; as impressões digitais do Planalto estão espalhadas por cada CDB podre e cada reunião secreta.
A tentativa de separar o "joio petista" do "trigo do Centrão" falhou miseravelmente. No fim das contas, a polícia chegou em todo mundo. O Banco Master não é apenas uma falha de mercado; é o retrato de um governo que nunca aprendeu a separar o público do privado, especialmente quando o privado tem um jatinho e uma fábrica em Minas para inaugurar.
O povo brasileiro, como sempre, ocupa o lugar de "contribuinte otário". Enquanto eles brindam em palácios e discutem como salvar seus aliados, você fica com a conta da inflação, do rombo fiscal e da eterna sensação de que, onde quer que o poder se concentre, haverá sempre um "companheiro" pronto para levar uma vantagem. Se o Master quebrou, foi porque a ganância foi maior que a capacidade do governo de esconder a sujeira embaixo do tapete vermelho. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 29/1/2026)

