Lula tenta se descolar de Moraes após escândalo envolvendo Vorcaro
Lula e Moraes- aliança com potencial de desgaste eleitoral. Foto Wilton Junior Estadão
Por Vera Rosa
Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos diz que quem comete crimes deve ser investigado porque ninguém está acima da lei: “Vale para o STF o que vale para todos”
Os diálogos que vieram à tona entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro,
Desta vez, a gravidade do relatório da Polícia Federal detalhando mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro é tanta que o comitê de Lula ainda está à procura de uma estratégia para se afastar da crise. Agora, a guerra fratricida nas fileiras do STF ameaça explodir em várias direções da Praça dos Três Poderes e até paralisar votações de interesse do governo no Congresso.
Dizer que quem tem de prestar contas sobre a relação com Vorcaro é o candidato do PL, Flávio Bolsonaro – uma vez que até hoje não se sabe onde foi parar o dinheiro enviado pelo banqueiro para financiar o filme Dark Horse –, não é suficiente. Muito menos observar que o ministro do STF André Mendonça – antagonista de Moraes, o Xandão – atua com dois pesos e duas medidas por ter sido indicado para a Corte pelo então presidente Jair Bolsonaro.
A partir de agora, Moraes e o Supremo viraram o principal assunto da disputa eleitoral. Aliás, nada mais conveniente para Flávio do que o surgimento dessa troca de mensagens às vésperas do ato convocado por ele para 7 de setembro, na Avenida Paulista.
Embora o escândalo não se refira a Lula, o episódio serve de munição para Flávio e fortalece a defesa do impeachment de ministros do STF. O afastamento de magistrados precisa passar pelo crivo do Senado e candidatos a uma cadeira na Casa de Salão Azul que já adotam essa bandeira vão ampliar a ofensiva.
Mas como a campanha de Lula vai reagir ao ataque frontal a Moraes, o relator das investigações que resultaram na condenação de Jair Bolsonaro pelos atos golpistas do 8 de Janeiro?
“Vale para o STF o que vale para todos. Se cometeu um crime, tem que ser investigado e tem que ser punido. Ninguém está acima da lei”, disse o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
Na prática, Boulos adotou o mesmo discurso que Lula tem empregado em relação a seu próprio filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, investigado em três inquéritos por suspeita de tráfico de influência no governo. Não quis, porém, jogar Moraes na fogueira.
“Eu não sou investigador da Polícia Federal, nem procurador de Justiça. Cabe (a nós) ver a investigação acontecer”, disse ele. “Acho que ninguém, em sã consciência, acha bom a imagem do Supremo ser vilipendiada”.
Lula chegou a se distanciar de Moraes, seu antigo aliado, após saber que o ministro atuou para barrar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma cadeira no STF. Antes mesmo desse episódio, o presidente já havia dito ao ministro que ele deveria explicar o contrato milionário firmado pelo escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci, com Vorcaro.
Tudo voltou a ser só sorrisos, porém, quando Moraes foi anfitrião de um jantar em sua casa, no início de agosto, para reaproximar Lula do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A crise atual tem como agravante uma queda de braço entre Mendonça, o algoz de Moraes, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Resta saber o potencial de destruição dessa guerra (Estadão, 2/9/26)

