Lulinha na Suíça enquanto o povo paga a conta – Por Paula Sousa
O pacote de café já passou dos R$ 40 no mercado de bairro. O trabalhador brasileiro sente cada centavo no bolso. E enquanto isso, o que a Polícia Federal encontrou no celular dos amigos do filho do presidente? Conversas sobre abrir empresa em Liechtenstein, mala com meio milhão de reais e um grupo de WhatsApp batizado de "Musaranhos" projetando faturar R$ 100 milhões num único ano. Cabe perguntar: é assim que se defende o povo contra os ricos? Contra o tal “fascismo” imaginário que Lula vive vociferando em comícios? Esfolando o povo com impostos para bancar o luxo do filho?
A revista Veja, em reportagem assinada por Laryssa Borges e Ricardo Chapola e confirmada por CNN, Estadão e Metrópoles, vem publicando semana após semana trechos de mensagens obtidas pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto. No centro da história está Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, hoje alvo de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeita de tráfico de influência, corrupção e organização criminosa. Ao lado dele, a lobista Roberta Luchsinger, neta de um ex-acionista do Credit Suisse, e o empresário Fernando Bittar, velho conhecido da família — o mesmo sítio de Atibaia da era Lava Jato.
Segundo a Veja, mensagens de fevereiro de 2024 mostram Roberta orientando um interlocutor a abrir empresa no principado de Liechtenstein, historicamente um dos paraísos fiscais mais discretos da Europa. Em outro diálogo revelado pela revista, ela é ainda mais direta com o próprio Lulinha: "nosso futuro é Suíça". Fica a pergunta que qualquer cidadão de bem faria: por que buscar sigilo bancário na Suíça e blindagem patrimonial em Liechtenstein quem, segundo o discurso oficial, vive "de forma digna, exclusiva e modesta com o resultado do seu próprio trabalho", como definiu a defesa de Fábio? Dinheiro lícito não precisa de esconderijo. Ninguém corre para o Alpes suíços para guardar o salário do mês.
E tem mais. A reportagem mostra que Roberta chegou a instruir a entrega de R$ 193 mil em espécie a Fernando Bittar. Meses depois, pediu a um motorista que fosse buscar um depósito guardado numa caixa atrás de uma bolsa de grife, com "bolinhos" de dinheiro de R$ 10 mil cada. Dinheiro vivo, escondido no armário, sem nota fiscal, sem Pix, sem rastro. Por que tanto cuidado para não deixar rastro bancário, se está tudo dentro da lei?
O nome que amarra o escândalo ao coração do INSS é o de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado pela Polícia Federal como um dos principais articuladores do desvio de bilhões de reais das aposentadorias de idosos brasileiros. Segundo a Veja, ele fez cinco pagamentos de R$ 300 mil cada — quase R$ 1,5 milhão ao todo — para uma empresa de Roberta Luchsinger.
E cobrava resultado: em mensagem a um sócio, avisou que a lobista "estava na folha" dele, ou seja, cobrava entrega como quem cobra empregado. O mesmo Careca do INSS ainda fez transferências que, segundo a PF, seriam destinadas ao "filho do rapaz" — expressão que os investigadores associam a Lulinha. Se o dinheiro do desvio do INSS realmente circulou até o entorno do filho do presidente, quantos aposentados brasileiros financiaram, sem saber, o padrão de vida desse grupo?
A lista de nomes cresce. Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, foi chefe de Gabinete Pessoal do próprio Lula até julho deste ano. Segundo a Veja, ele recebeu repasses de Roberta Luchsinger na casa das dezenas de milhares de reais. Procurado, disse que era "empréstimo". Coincidência ou não, o pagamento só veio à tona depois que ele deixou o cargo. Um homem que despachava diariamente com o presidente da República recebendo dinheiro de uma lobista hoje investigada por tráfico de influência — isso é normal num governo que se apresenta como o escudo dos trabalhadores contra a elite?
E qual elite, afinal? Nas mensagens reveladas pela Veja, a própria Roberta resume o tamanho da ambição: "eu quero 100 milhões esse ano". Perguntada se estava desanimada, respondeu, debochada: "sou modesta". Enquanto isso, ainda de acordo com a reportagem, o trio planejava viagens à África e a Paris, com orçamento de US$ 20 mil por pessoa — cerca de US$ 100 mil por família. Isso é vida modesta? Isso é o padrão de quem trabalha, ou o padrão de quem mora nas franjas do poder?
Hoje Lulinha vive em Madri. A Veja mostrou mensagens em que Roberta sugere bancar a mudança dele para a Espanha logo após o início das investigações. O próprio presidente Lula, segundo o Estadão, já cobrou do advogado da família que o filho volte ao Brasil para responder pelas investigações em solo nacional. Ele volta, ou prefere seguir a rotina de quem tem defesa contratada fora do país enquanto o processo tramita aqui?
Vale lembrar: este não é o primeiro escândalo de corrupção envolvendo o entorno do presidente Lula. Ele próprio foi condenado na Lava Jato, ainda que as sentenças tenham sido anuladas anos depois pelo STF por uma questão processual, a da competência do juízo. Passado um governo, dois, três — quantas vezes mais o povo brasileiro vai ouvir a mesma cantilena contra "os ricos" enquanto os filhos, os amigos e os assessores do poder acumulam malas de dinheiro, contas no exterior e viagens de luxo?
O trabalhador que paga R$ 40 no pacote de café não tem Liechtenstein, não tem Suíça, não tem "bolinho" escondido atrás de bolsa de grife. Tem boleto, tem fila de banco, tem imposto na folha. A pergunta que fica não é se há corrupção — a Polícia Federal já reuniu as mensagens, os valores, os nomes. A pergunta é: quantos escândalos mais serão necessários para que o povo brasileiro, de fato, acorde?
Sobre a autora:
Paula Sousa é historiadora, professora com 8 anos de docência nas áreas de Humanas e pós-graduada em Gestão Pública. Com especializações que vão do Processo Legislativo e Finanças à Inteligência Artificial Generativa, é articulista e roteirista focada em geopolítica, história e socioeconomia — com produções para veículos como o Visão Libertária. É também palestrante e membro do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil (24/8/2026)

