Lulinha "sofre" em Madri com aluguel de R$ 35 mil – Por Paula Sousa
Imagine reclamar de "vida precária" morando ao lado de Vinícius Júnior. Foi essa a aula de sobrevivência que o vice-presidente do PT, Washington Quaquá, tentou dar ao Brasil.
Segundo ele, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, vivia em "condições precárias" na Espanha. Precária, é? Vamos aos números, porque números não militam.
O Poder360 foi até La Moraleja, bairro badalado de Madri, e encontrou o tal sofrimento: um apartamento de 250 metros quadrados, três quartos, dentro do condomínio fechado El Jardín de La Moraleja. O aluguel, com taxas, fica em 5.800 euros por mês. Em reais, cerca de R$ 35 mil. Só de aluguel, sem contar comida, luz e a consultoria de vida boa.
E não é qualquer aluguel. Na Espanha, para fechar contrato, o inquilino precisa comprovar renda três vezes maior que o valor cobrado. Ou seja, Lulinha precisou mostrar que fatura pelo menos 17.400 euros por mês, quase R$ 104 mil. Isso é "condição precária" para quem, exatamente? Pergunte para o brasileiro que ganha um salário mínimo e ainda ouve que precisa apertar o cinto.
Os vizinhos ajudam a entender o bairro. Rodrygo, do Real Madrid, mora no condomínio ao lado. Vinícius Júnior também vive na região. E o ator americano Richard Gere tem casa por ali. Gente simples, como se vê, tudo dentro do espírito operário que o PT tanto celebra em discurso.
Depois que a reportagem saiu, o próprio Quaquá não recuou. No dia 22 de agosto, em entrevista ao Metrópoles, ele chamou a vida de Lulinha de "bem modesta" e comparou o gasto a um aluguel de classe média europeia. Classe média que paga R$ 35 mil por mês de aluguel. Deve ser uma classe média que só existe no dicionário do PT.
Enquanto isso, a família de Lulinha andou circulando bastante, só que sem ele. Segundo reportagem da CNN Brasil, assinada por Clarissa Oliveira, a esposa Renata e os dois filhos vieram ao Brasil em julho, aproveitando as férias escolares. Lulinha ficou em Madri. A justificativa dada a pessoas próximas foi trabalho: ele estaria ocupado com uma empresa de consultoria.
Consultoria essa registrada, segundo apurou a coluna de Cláudio Humberto, no Paseo de la Castellana, um dos endereços comerciais mais caros de Madri, o coração financeiro da cidade, onde ficam sedes de multinacionais. Precário mesmo.
E olha que o próprio pai também quer o filho de volta, só que por outro motivo. A CNN Brasil revelou que Lula defende publicamente que Lulinha venha ao Brasil prestar esclarecimentos à Polícia Federal. O caso é sério: Lulinha está sob investigação por suspeita de corrupção e tráfico de influência, ligada ao escândalo de fraudes no INSS.
A CPMI que apurou o caso já autorizou a quebra do sigilo bancário e fiscal dele. Mesmo assim, quem veio ao Brasil foi a família. Ele ficou na Espanha, cuidando da tal consultoria.
Até aqui, dá para resumir a história numa frase: um dirigente do PT chamou de "precário" um padrão de vida que a maioria dos brasileiros nunca vai alcançar. Quando foi desmentido com dados, dobrou a aposta e chamou de "modesto". Isso não é ingenuidade. É o manual clássico da esquerda: pobreza é discurso, luxo é prática. Socialismo para você pagar a conta, capitalismo para minha família em casa.
Porque enquanto Lulinha decide se vai ou não decidir se apresentar à Polícia Federal, o brasileiro comum enfrenta outra realidade, bem menos glamorosa. O IPCA, que mede a inflação, acumulou alta de 4,44% em doze meses até julho, com pressão forte em cima dos alimentos. Quem faz a compra do mês sabe: não precisa de índice para sentir o arroz, o feijão e o óleo pesando mais no bolso.
E não para por aí. Segundo levantamento do Sebrae, o primeiro trimestre de 2026 registrou 874,9 mil fechamentos de pequenos negócios no Brasil, o maior número desde 2023, um salto de 33,6% em relação ao trimestre anterior. Mais de seis em cada dez fechamentos vieram do setor de serviços, motor de empregos do país. São padarias, salões, oficinas, lojas de bairro, gente que trabalhou a vida inteira e viu o negócio quebrar com juro alto e crédito curto.
E não é só o pequeno empreendedor sentindo o aperto. Em agosto, a Casas Bahia fechou 298 lojas de uma vez, quase 30% da própria rede, e demitiu perto de 2 mil funcionários, segundo reportagens do Poder360 e da Gazeta do Povo. A Braskem, gigante da petroquímica, acaba de anunciar pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar uma dívida bilionária de R$ 56,2 bilhões. E as inúmeras empresas que foram embora para o Paraguai?
Negócio pequeno fechando, empresa grande em apuros: o sinal é o mesmo em qualquer tamanho.
É esse Brasil que sustenta o discurso do PT contra o "andar de cima". É esse Brasil que ouve falar em taxar o rico enquanto o filho do presidente aluga apartamento de R$ 35 mil ao lado de jogador de futebol milionário. É esse Brasil que vê Quaquá chamar R$ 35 mil de aluguel de vida modesta, no mesmo país em que o salário mínimo mal passa de R$ 1.500 por mês.
Porque o problema nunca foi o luxo em si. Todo mundo tem direito de morar bem se pagar por isso com dinheiro limpo. O problema é a hipocrisia de quem cobra sacrifício do povo todos os dias e vive de outro jeito. É prometer austeridade para o cidadão comum e chamar apartamento de R$ 35 mil de "precariedade" quando é a própria família que está no centro da história.
No fim, a régua é sempre a mesma: discurso pobre, vida rica. E quem sustenta essa régua, mês após mês, pagando imposto e vendo o preço do feijão subir, é o mesmo brasileiro que assiste, de fora, a essa novela em espanhol.
Vale lembrar o tamanho da distância. Para pagar só o aluguel de Lulinha, um trabalhador que ganha salário mínimo precisaria de mais de vinte salários inteiros, sem gastar um centavo com comida, transporte ou aluguel próprio. E ainda assim, quem fala de sacrifício no discurso oficial não é o trabalhador. É o partido que mora em La Moraleja e chama isso de vida simples. A conta não fecha, mas o discurso, esse, segue fechado bem fechadinho, protegido atrás do portão do condomínio.
Sobre a autora
Paula Sousa é historiadora, professora com 8 anos de docência nas áreas de Humanas e pós-graduada em Gestão Pública. Com especializações que vão do Processo Legislativo e Finanças à Inteligência Artificial Generativa, é articulista e roteirista focada em geopolítica, história e socioeconomia — com produções para veículos como o Visão Libertária. É também palestrante e membro do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil (25/8/2026)

