Mansão do lobby: como a Fictor tentou fraudar depoimento na CPI do INSS
Paulo Pimenta, ex-ministro de Lula e deputado federal (PT-RS)Reprodução Estadão
Casa de 500 metros quadrados alugada por ex-sócio da Fictor no Lago Sul, em Brasília, foi palco de encontros com ministros do governo Lula e de montagem de dossiê fraudulento contra testemunha em CPI.
Investigada pela Polícia Federal e com dívidas de R$ 4 bilhões, a empresa de investimentos Fictor alugou uma mansão no Lago Sul, em Brasília, que foi usada para aproximação com o governo federal e abrigou pelo menos um evento com a presença de ministros do governo Lula. O local também foi palco de uma reunião para montar um dossiê contra uma testemunha da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e abastecer a bancada governista no colegiado.
A Fictor era uma relativamente desconhecida empresa do mercado financeiro que ganhou algum holofote por patrocinar o Palmeiras. Mas ficou famosa, mesmo, em novembro de 2025, quando anunciou um acordo para a compra do Master em consórcio com investidores dos Emirados Árabes - até hoje desconhecidos. No dia seguinte a esse anúncio, porém, o Master foi liquidado, o dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal e investigadores entraram no rastro da Fictor.
Antes disso tudo, a empresa vinha tentando se aproximar de políticos em Brasília para fazer negócios. Em um dos episódios descobertos pelo Estadão, um consultor da Fictor, Felipe Alcântara, reuniu o deputado federal Paulo Pimenta (PT), líder da bancada do PT na CPMI, e o ex-policial civil Rogério Giglio, que havia gravado o advogado Eli Cohen e o acusou, na CPMI, de cobrar dinheiro da bancada bolsonarista para prestar um depoimento, também na comissão, contra o governo federal.
Giglio se retratou posteriormente, em cartório, do depoimento sobre Cohen. Em entrevista ao Estadão, disse ter sido pago por representantes da Fictor para mentir sobre Cohen e gravá-lo para abastecer o PT na CPMI. Pimenta disse que não sabia que a casa era da Fictor e se disse desconfiado do depoimento do policial que incriminava Cohen (leia mais abaixo).

A Fictor pediu recuperação judicial. Foto Timon Adobe Stock
Em outra ocasião, o mesmo consultor da Fictor tentou aproximar a empresa de Itaipu, para gerir recursos da hidrelétrica - o que acabou não acontecendo. A casa chegou a ser emprestada a petistas para a realização de um evento. O diretor-geral de Itaipu, Ênio Verri, esteve presente ao lado de próceres do partido, como a então presidente da legenda, Gleisi Hoffmann, e o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha.
Gleisi disse ter participado do encontro, mas negou ter recebido proposta. Padilha negou ter ido a eventos nos quais recebesse propostas da Fictor. Procurado pela reportagem, Verri não quis se pronunciar.
A mansão
A casa de 497 metros quadrados fica na quadra 22 do Lago Sul, bairro de residências de alto padrão de Brasília. Ela foi alugada pelo ex-sócio da Fictor, Luis Phillippi Rubini, até dezembro de 2025. Hoje, Rubini é credor da Fictor em R$ 35 milhões em contratos de mútuo com a própria empresa. A casa era usada pela empresa e teve seu portão pintado de verde, cor usada pela Fictor em sua identidade visual. O próprio wi-fi, para quem adentrasse e quisesse usar internet, era batizado de “Piscina Fictor”.
Além dele, quem frequentava a mansão e tentou captar investidores para a empresa foi o consultor Felipe Alcântara. Ele afirmou ao Estadão que recebia um valor simbólico da empresa, de R$ 2,5 mil mensais, com a promessa de participação porcentual em contratos fechados.
Alcântara diz ter levado clientes privados à Fictor. Também afirma ter usado a casa para aproximação com políticos. “O Rubini me falou: Pô, olha, Você conhece bastante gente, pode trazer captação e você ganha aqui, acho que é 0,20% ou 0,30% sobre rendimento, pode ser uma boa para você. Ele me colocou lá”, disse Alcântara. Por meio de nota, Rubini respondeu que deixou a Fictor em dezembro de 2024 e negou “veementemente qualquer envolvimento com os fatos mencionados”.
A testemunha da CPMI
Em um dos episódios apurados pelo Estadão, a casa foi usada para uma articulação relacionada à CPMI do INSS. O objetivo era fazer um dossiê contra o advogado Eli Cohen, que foi um dos denunciantes da atuação de associações ligadas a um mesmo empresário que foi preso pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes bilionárias no INSS.
Além de expor o caso específico do empresário preso pela PF, Cohen criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve altercações com petistas e foi tido por eles como uma testemunha alinhada a bolsonaristas na comissão. Passou, então, a ser duramente questionado por governistas, que acusaram-no de mentir à CPMI e pediram uma nova convocação ao colegiado.
A reunião com Pimenta
No dia 24 de setembro de 2025, Alcântara reuniu o deputado federal Paulo Pimenta com o ex-policial civil de São Paulo Rogério Giglio, que havia trabalhado para Eli Cohen no passado.
Àquela altura, Giglio havia gravado Eli Cohen sem sua autorização em uma conversa informal em seu escritório. Também produziu um vídeo no qual acusa o advogado de pedir R$ 5 milhões para a bancada da oposição para depor de maneira desfavorável ao governo Lula na CPMI. Hoje, Giglio afirma que suas declarações eram mentirosas, que nunca houve extorsão, e assume ter feito o material falso sob encomenda da Fictor.
No encontro, segundo Giglio e Alcântara, Paulo Pimenta afirmou que suas declarações eram fortes, mas que não tinham boa corroboração em provas. Isso não impediria, porém, que Pimenta usasse o áudio gravado por Giglio para pedir uma nova convocação de Eli Cohen no mês seguinte, em outubro de 2025. Outros petistas também torpedearam Cohen na CPMI com uso da gravação, que foi publicada em veículos de imprensa, e com o uso de um depoimento de Giglio em cartório.
Ao Estadão, Alcântara afirma que foi apresentado a Giglio por um advogado de Rubini, ex-sócio da Fictor, e que tentou usar a situação para oferecê-la aos petistas. “Cara, eu conheço todo mundo, não tenho amizade com todo mundo, mas consigo chegar.
Só que tinha que realmente comprovar irregularidade. Aí eu consegui através de relação que eu tinha, marquei esse encontro lá nessa casa mesmo e aí esse policial foi lá, chegou lá, ele relatou diversas coisas”, afirma Alcântara. Ele diz que Pimenta reclamou da falta de provas que confirmassem seu depoimento - o que o próprio petista confirmou em entrevista ao Estadão.
O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) afirmou ter participado do encontro, mas disse não ter sido informado que o imóvel era alugado por um executivo da Fictor. Ele afirma ao Estadão que foi levado à casa por um advogado de sua proximidade, que prometeu apresentá-lo a uma pessoa que “tinha interesse em apressar informações” que seriam relevantes sobre o depoimento que Cohen havia prestado à CPMI. Ele afirma preferir não expor o advogado que o levou à casa.
Também afirmou que Alcântara, o consultor, não se apresentou como representante do grupo. “Em nenhum momento esse senhor Felipe (Alcântara) se apresentou como sendo da Fictor. Estou sabendo agora dessa informação”, disse.
O parlamentar teria sido levado à reunião por um amigo com o objetivo de se reunir com Giglio. Na ocasião, pediu ao policial que oficializasse seu relato em depoimento à Polícia Federal e opinou que o vídeo da conversa com Cohen não tinha valor legal.
“Esse Rogério (Giglio) apresentou para mim um vídeo. Eu disse para ele que aquilo ali, sem um depoimento formal, não tinha qualquer valor. Um vídeo gravado com falas de uma pessoa não tem nenhum valor jurídico. Para nós, só teria interesse se houvesse uma formalização através de um depoimento na Polícia Federal”, disse.
Ao Estadão, Rogério Giglio afirmou que, no dia 4 de setembro de 2025, três dias após o depoimento de Cohen à CPMI, foi chamado pelo advogado Renato de Matteo Reginatto, a quem conhecia havia anos, ao seu escritório, no Itaim Bibi, em São Paulo. O advogado teria lhe oferecido um emprego para fazer trabalho de inteligência para a Fictor. Parte do trabalho seria de reunir informações sobre Cohen. Giglio afirma que receberia até R$ 30 mil mensais por um período de dois anos.
Gigilio relata que foi pressionado para prestar um depoimento mentiroso. “Foi totalmente direcionado. Eu assinei um depoimento com a versão que eles queriam. Ditaram, falaram para eu dizer que o Eli pediu dinheiro. Ele nunca pediu”, disse. Ele disse ter recebido de Alcântara a passagem para se encontrar com Pimenta em Brasília.
Reginatto, o advogado citado como contratante, nega a história. Diz que é advogado de Luiz Philippe Rubini, ex-sócio da Fictor, e também do próprio Giglio. Afirmou que não pode falar sobre o caso porque envolve clientes e qualquer declaração implicaria em ferir seu sigilo profissional, mas rechaçou que tenha oferecido emprego a Giglio. Ele afirma que “não tem interesse em Eli Cohen e suas disputas com Rogério Giglio Gomes”.
Por meio de nota, o ex-sócio da Fictor Luiz Philippe Rubini afirmou nunca ter conhecido Giglio e, quanto a Reginatto, seu advogado, disse que ele “prestou apenas serviços de consultoria a uma das empresas investidas da Fictor, sem qualquer relação com agendas políticas”.
Foi o consultor da Fictor, Felipe Alcântara, quem disse ao Estadão ter falado em cifras com o ex-policial. “Eu sabia que ele não tinha provas. E aí eu blefei, falei: ‘Olha, me entrega todos os fatos realmente que o Eli é um cara que tá em conluio com a direita, falsificando informação, que eu te garanto R$ 50 mil por mês. Se você fizer isso, tá garantido’. Essa foi a minha fala, entendeu?”, relatou.
Reginatto tem uma história antiga com Cohen. Ele foi alvo da Operação Encilhamento, da Polícia Federal, que investigou desvios em fundos de pensão municipais. Cohen era denunciante. A Justiça, em 2019, chegou a expedir mandado de prisão contra Reginatto, que acabou absolvido em novembro de 2025, por falta de provas.
Evento com petistas e Itaipu
Foi Alcântara que consultou a Usina Hidrelétrica de Itaipu sobre a possibilidade de a Fictor indicar uma gestora para gerir um fundo de reserva da empresa binacional. Pessoas que conhecem a negociação afirmam ao Estadão, em condição de anonimato, que a ideia seria a Fictor gerir até R$ 1 bilhão de Itaipu e partiu de Rubini.
A empreitada não andou porque havia impedimentos legais. Itaipu alegou que somente poderia aplicar esses recursos em bancos públicos, como a Caixa e o Banco do Brasil. “Foi feito um agendamento técnico. Tem e-mail trocado sobre isso. Foi tratado com o jurídico de Itaipu”, disse Alcântara.
O ex-deputado pelo PT e hoje dirigente de Itaipu indicado pelo governo federal, Ênio Verri, esteve presente mais de uma vez na mansão. Em uma delas, foi em um evento recheado de correligionários. Entre eles, o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e a então deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hoffmann - hoje, sucessora de Padilha na pasta.
Alcântara relatou ao Estadão que petistas ficaram desconfortáveis, depois, com o uso da casa da Fictor, e cortaram relações.
O presidente de Itaipu não quis se manifestar. Pessoas próximas afirmaram ao Estadão que ele de fato esteve na casa. A ministra Gleisi Hoffmann afirmou que “se recorda de ter sido convidada para um encontro com pessoas do Fictor, juntamente com outros parlamentares, durante o qual não ouviu, não discutiu nem encaminhou qualquer proposta de interesse do grupo”.
Alexandre Padilha afirma que “nunca participou de reuniões ou encontros em que este tema foi tratado, incluindo o período em que foi ministro de Relações Institucionais”.
Eli Cohen afirmou ao Estadão que “se forem confirmadas essas narrativas, os fatos revelam um quadro de extrema gravidade institucional, envolvendo fabricação de versões e provas, indevida provocação da Polícia Federal contra um advogado no exercício regular da advocacia, coação de depoentes, obstrução da Justiça e uso de estruturas políticas e econômicas para promover o linchamento reputacional de quem teve a coragem de denunciar o esquema de fraude contra os aposentados”.
“Devemos exigir a apuração rigorosa e a responsabilização de todos os envolvidos”, diz (Estadão, 11/2/26)

