Memórias do Agro:A união que fortaleceu a produção de mandioca em São Paulo
Por Rodrigo Simões
Ao registrar com precisão o nascimento da Federação Paulista das Cooperativas de Mandioca, Otacílio Tomanik preservou um dos capítulos mais importantes da organização do cooperativismo agrícola paulista. Quase nove décadas depois, suas páginas revelam que integração, industrialização e cooperação já eram vistas como caminhos para fortalecer os produtores rurais e desenvolver o campo paulista.
Os relatórios elaborados por Otacílio Tomanik, no antigo Departamento de Assistência ao Cooperativismo da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, são verdadeiros retratos de uma época. Mais do que reunir números e informações oficiais, eles registraram o nascimento de instituições, documentaram ideais inovadoras e preservaram parte da memória do cooperativismo paulista.
Entre esses registros está um acontecimento que o próprio Tomanik classificou como altamente significativo: a criação, em 19 de junho de 1937, da Federação Paulista das Cooperativas de Mandioca. Ao descrever sua constituição, seus objetivos e sua importância, o autor deixa para as futuras gerações um testemunho precioso sobre um momento decisivo da organização dos produtores rurais paulistas.
Segundo relata o documento, a Federação foi criada para estabelecer relações morais e econômicas entre as cooperativas filiadas, promovendo o beneficiamento, a industrialização e a comercialização conjunta da produção de mandioca. Em outras palavras, buscava unir produtores em torno de um propósito comum: fortalecer economicamente uma cultura agrícola que já ocupava posição relevante no Estado de São Paulo.
Lendo essas páginas quase noventa anos depois, chama a atenção a atualidade desse pensamento. A integração entre cooperativas, a agregação de valor à produção, a industrialização e a comercialização organizada continuam sendo pilares do cooperativismo moderno. Mudaram as tecnologias, ampliaram-se os mercados e surgiram novos desafios, mas os princípios permanecem praticamente os mesmos.
Com o cuidado que caracteriza toda sua obra, Tomanik também registrou a existência de novas organizações cooperativas ligadas à cultura da mandioca. Entre eles figuram a Cooperativa dos Produtores de Mandioca de Araras, além das cooperativas de Socorro, Lins, Araraquara e Marília. Mais do que citar seus nomes, ele descreveu suas atividades e acompanhou as medidas adotadas pelo poder público para estimular seu desenvolvimento, demonstrando uma preocupação permanente em documentar a evolução do cooperativismo paulista.
Hoje, a mandioca continua ocupando posição estratégica na agricultura do Estado. O Médio Paranapanema consolidou-se como a principal região produtora paulista, reunindo municípios como Assis, Ourinhos, Presidente Prudente, Tupã e Dracena, importantes polos da mandioca destinada à produção de fécula (amido puro retirado da raiz da mandioca, também conhecida popularmente como polvilho doce) e farinha. Já a mandioca de mesa mantém forte presença em regiões como Capela do Alto, Sarapuí, Engenho Coelho e municípios no entorno de Mogi Mirim, demonstrando a diversidade e a força dessa cadeia produtiva.
Também evoluiu o ambiente institucional que apoia os produtores rurais. Se na década de 1930 o Departamento de Assistência ao Cooperativismo buscava orientar juridicamente as cooperativas e acompanhar sua organização, atualmente diversas políticas públicas fortalecem a agricultura familiar e o cooperativismo paulista.
Nesse contexto, merece destaque a atuação do ITESP (Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo), responsável por ações de regularização fundiária e titulação de terras em assentamentos produtivos. Ao proporcionar segurança jurídica aos agricultores, amplia-se o acesso ao crédito rural, favorecem-se investimentos em infraestrutura, irrigação e tecnologia, criando condições para que milhares de famílias permaneçam produzindo e cooperando.
É justamente essa ponte entre passado e presente que torna o trabalho de Otacílio Tomanik tão valioso. Seus relatórios demonstram que muitas das estratégias consideradas modernas já eram discutidas há quase nove décadas. Ao registrar com rigor técnico e sensibilidade histórica a criação da Federação Paulista das Cooperativas de Mandioca, ele preservou não apenas um acontecimento administrativo, mas um capítulo fundamental da construção do cooperativismo paulista.
Hoje, graças ao cuidado de quem compreendeu a importância de registrar seu tempo, podemos olhar para essas páginas e reconhecer que o desenvolvimento da agricultura paulista sempre foi resultado da organização coletiva, da cooperação entre produtores e da convicção de que trabalhar juntos continua sendo o caminho mais sólido para construir o futuro.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 31/7/26)

