Mesmo com safra recorde, valor da produção agropecuária cai
VPB-imagem IA Capilot
- Após alta de 13% em 2025, receitas do setor deverão recuar para R$ 1,38 trilhão
- Principais itens das lavoras somam R$ 890 bilhões, e os da pecuária, R$ 495 bi
O Brasil deverá ter safra recorde de grãos. pelo menos é o que indicam até agora os números da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar disso, as receitas obtidas no campo serão inferiores às do ano passado, conforme o Ministério da Agricultura.
Crescente nos últimos anos, a produção de grãos brasileira pode chegar a 356 milhões de toneladas, segundo a Conab, e a 348 milhões, nos números do IBGE. Já o VBP (Valor Bruto de Produção) recuará para 1,38 trilhão, após ter atingido R$ 1,44 trilhão em 2025, segundo dados referentes a março.
Se confirmados esses valores, após alta de 13% em 2025, as receitas deste ano caem 4%. O VBP é o resultado financeiro do setor dentro da porteira e leva em consideração cálculo de 17 dos principais produtos no setor de lavouras e de 5 no da pecuária. Os valores se referem ao volume produzido, multiplicado pelo valor de venda.
Essa circulação menor de dinheiro é um mau sinal para a agropecuária. Os custos, que já estavam elevados, subiram ainda mais com a guerra no Oriente Médio. O diesel subiu e o fornecimento de fertilizantes foi interrompido na região. Custo maior e renda menor não casam com o momento de insolvência em boa parte do setor. Além disso, os juros elevados, que afetam toda a economia brasileira, também são sintomas de pressão na agropecuária.
Tanto lavouras como pecuária perdem força neste ano. Os produtos agrícolas, após alta de 11% em 2025, terão receitas 5% menores, somando R$ 890 bilhões. Além da oferta maior, devido à safra recorde, os preços continuam deprimidos no mercado externo. Poucos produtos terão aumento do VBP em 2026, e a soja, líder nacional em receitas, será um deles. Mesmo com o crescimento da safra para 179 milhões de toneladas, o aumento do valor de produção será de apenas 0,5% e virá do volume. Preços externos acomodados e dólar menos pressionado seguram receitas internas.
Além da soja, outros alimentos básicos como feijão, mandioca e banana também terão aumento. O feijão, importante no dia a dia da alimentação, terá queda de 6% no volume a ser produzido e, consequentemente, aumento de preço na roça. O VBP dessa leguminosa sobe 14% neste ano.
Entre as quedas no valor de produção estão café e cacau, produtos que subiram muito no ano passado e que têm preços menos pressionados agora. A safra brasileira de café deverá ser recorde, estimada pelo IBGE em 65 milhões de sacas, o que ajuda a repor os estoques mundiais. O VBP do produto, após alta de 46% no ano passado, recua 3% neste ano.
Na pecuária, o aumento de preços do boi e a maior oferta de carne bovina elevam o valor total de produção para R$ 237 bilhões, 2% a mais do que no ano anterior. Os demais itens do setor —frango, suínos, leite e ovos— perdem receitas em relação às do ano passado.
As estimativas do VBP feitas pelo Ministério da Agricultura deverão apresentar fortes variações até o final do ano. A previsão atual foi feita com base nos preços de janeiro a março, mas essa média vai mudar ao longo do ano. O arroz, por exemplo, começou 2026 com queda nos preços, mas está subindo, devido à menor produção. Já o café, com a confirmação da safra recorde brasileira, auxiliará em uma reposição maior dos estoques mundiais e queda nos preços (Folha, 21/4/26)

