Messias revela o surfista mágico da onda levantada do impeachment supremo
O não a Jorge Messias funcionou como uma espécie de pré-impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal Foto: Wilton Junior/Estadão
Por Carlos Andreazza
Presidente do Senado mostra habilidade ímpar para descer o vagalhão gerado pelo encontro entre ano eleitoral, caso Master e as ameaças de ministros do STF contra congressistas
Alcolumbre dá recado a Lula com derrota de Messias: ‘Você precisa mais de mim do que eu de você’
A maioria das reações de perplexidade – ante a rejeição a Jorge Messias – derivou da quebra de expectativa sobre o que deveria ser processo de aprovação automático, como se o poder de indicar fosse absoluto, como se o exercício da democracia estivesse contido exclusivamente na plenitude daquele teatro de beija-mãos a que a história de nossa República nos rebaixou-habituou.
Trata-se de disfunção – sobre a essência do processo republicano – considerar perigoso que o Senado exerça uma prerrogativa; deturpação que turva a capacidade de análise sobre o que terá se passado.
É controverso que Messias tenha notório saber jurídico para ser juiz na Suprema Corte; incontroverso sendo que fora indicado em função do histórico leal de serviços prestados a um partido político e para compor-ampliar a já constituída e atuante bancada governista no Supremo, pervertido o tribunal constitucional em terceira Casa legislativa.
Deveria ser natural que indicações dessa natureza fossem rechaçadas. Terá demorado a ocorrer, ocorrência impulsionada pela combinação tsunâmica entre ano eleitoral e fator Master; e pela articulação entre Flávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre.
O revés do governo Lula – objetivo do presidente do Congresso – foi instrumento para a derrota-mensagem que o Senado quis infligir ao STF, meta do bolsonarismo. O não a Messias como espécie de pré-impeachment de ministro do Supremo; manifestação-reação-juramento de um Poder contra aquele percebido como agente-interferente na atividade política, que ergueu bloco legitimador-explorador do inquérito xandônico como ferramenta de controle intimidatório.
(O cronista expressa dificuldade em compreender a versão de que Alexandre de Moraes teria trabalhado contra Messias – o que seria trabalhar contra si. Não faz sentido que tivesse se mobilizado – ainda que a matar CPI do Master – pelo que afinal seria a construção de novo patamar para a bancada do impeachment no Senado.)
Alcolumbre venceu. Imposto o comunicado de que não aceita que governo tente negociar codevasfs à margem de seu império; de que investigar a gestão do fundo de pensão dos servidores do Amapá tem consequências.
A leitura mais relevante sendo a de que não teria alterado o padrão alcolúmbrico se acreditasse no favoritismo de Lula em outubro; se acreditasse que, mesmo reeleito, o presidente lhe pudesse prescindir. Aposta que o Planalto não pode retaliá-lo; que precisa mais de Alcolumbre do que Alcolumbre, do Planalto.
Venceu. Não venceria sem a sociedade com o bolsonarismo. Foi sobretudo operador da onda, hábil surfista da chance levantada pelo encontro entre ano eleitoral, caso Master e as ações-ameaças de ministros do STF contra a atividade parlamentar – contra parlamentares.
Mais que hábil, um surfista mágico, beneficiando-se de espírito do tempo em cujo cerne está a revolta contra o que ele, Alcolumbre, representa, também ele – dos mais interessados em enterrar o affair Master – agente blindador contra apurações legislativas sobre a teia vorcária e suas relações (Estadão, 2/5/26)

