Moraes virou cadáver político que contamina todo o sistema brasileiro
Na disputa pela reeleição, presidente tenta se descolar de Moraes após escândalo envolvendo Vorcaro. Crédito: Vera Rosa
Por Fabiano Lana
Na política, um protagonista ressuscitar não é algo incomum. Tome-se o caso do presidente Lula, que, de encarcerado por corrupção numa dependência da Polícia Federal em 2018, tornou-se, pela terceira vez, presidente da República em 2022. O “morto da vez” é o ainda contraditoriamente superpoderoso ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Mas há uma diferença em relação ao petista. O cadáver insepulto de Alexandre é radioativo e contamina todo o sistema de poder do País, visto com crescente desconfiança pela sociedade.
O que resta aos que ainda o defendem? Argumentos formais. Como não há muitas saídas em dizer que o ministro não tinha relações promíscuas e financeiramente milionárias com o ex-banqueiro Vorcaro, apostam suas fichas em algum vício no processo conduzido pelo ministro André Mendonça. Comparam com os abusos da operação Lava Jato. Temem ainda que Moraes seja apenas o primeiro de uma fila do cadafalso que poderia atingir, eleitoralmente, até mesmo Lula. Mas esse tipo de argumentação mantém o cadáver insepulto.
O primeiro círculo do inferno a ser atingido pelo martírio (merecido?) de Moraes é o próprio Supremo Tribunal Federal. Pairará sobre a principal corte jurídica do País a penumbra do acobertamento de crimes de um colega, que podem ir da relativamente mais branda advocacia administrativa à mais bruta corrupção.
Outra instituição atingida, e no coração, é a Procuradoria Geral da República. O procurador Paulo Gonet se revelou um coadjuvante expressivo dessa história bastante brasileira, cujo roteiro é bem mais sofisticado do que a maioria das séries de streaming. O personagem Gonet tem se destacado na trama por meio de detalhes sutis. Seja nos silêncios, quando é para proteger aliados, ou na rapidez em que pediu o arquivamento da investigação conduzida por Mendonça.
E, principalmente, quando chama Vorcaro de “máquina” e pede ao então influente banqueiro a inclusão do filho numa deslumbrante viagem a Londres — uísque Macallan e charutos incluídos no pacote.
A enxurrada, que lembra até a tragédia do Nepal, chega também à parte da esquerda brasileira, que, embebecida com o papel que Alexandre de Moraes exerceu ao condenar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, em 2025, não percebeu que o médico também poderia ser um monstro. Custou a largar a sua mão (ainda não largaram completamente), contaminando-se.
Ontem, petistas estrelados buscaram se afastar de Moraes, entre eles a ex-presidente do PT, Gleisi Hoffmann. É preciso lembrar que Moraes segue conduzindo o inquérito da Fake News; ainda é um xerife com enorme capacidade ofensiva para atingir antagonistas.
A classe política, por sua vez, estava caminhando em direção a um perdão branco a Alexandre. As primeiras denúncias contra o ministro apareceram no final do ano passado. O problema é que o escândalo Vorcaro é multiideológico (passam vexame os que fazem contabilidade para dizer se o caso atinge mais a direita ou a esquerda). Um acordão seria melhor para quase todos, discutia-se à boca pequena.
Passada a Copa de futebol, o togado já estava conduzindo conciliações políticas, como a que ocorreu entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, após a crise envolvendo a recusa da ida de Jorge Messias para uma vaga no Supremo.
Quem ganha com essa história toda? A pressa nos induz a dizer que seria o candidato Flávio Bolsonaro (PL). Talvez seja uma conclusão ainda precipitada. O senador não está imune à lama de Vorcaro. Segue mal explicado o financiamento ao filme Dark House, hagiografia de Jair Bolsonaro, que o senador do Rio chamou de “obra-prima” em entrevista à Rede Globo.
A sombra de degradação se estabelece por todo o chamado sistema, que inclui governo, oposição, judiciário, órgãos de controle, Ministério Público e muito mais do que a vista alcança. Abre-se a possibilidade, mais uma vez, na nossa história quase tão cíclica quanto a trama de “Cem anos de solidão”, para a ascensão de alguém que tente se apresentar como um novo, fora de tudo isso que está aí (Estadão, 3/9/26)

