Muita política, pouca diplomacia – Editorial O Estado de S.Paulo
Trump politizou as tarifas. Lula politizou a resposta. Nessa disputa, o Brasil apostou demais na força de seus argumentos e desperdiçou espaços de negociação que poderiam reduzir prejuízos.
O anúncio das tarifas americanas foi imediatamente absorvido pelo cenário eleitoral brasileiro. O presidente dos EUA, Donald Trump, e seu secretário de Estado, Marco Rubio, transformaram a política comercial em instrumento de coerção. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva converteu a agressão em discurso de soberania.
O senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidente, tenta conciliar sua proximidade com Washington com o custo político de uma medida prejudicial ao País. Cada um joga o jogo que lhe parece mais conveniente. Enquanto isso, a diplomacia econômica brasileira ficou em segundo plano.
O novo tarifaço não surgiu de improviso. Foi o desfecho de uma investigação iniciada há um ano, acompanhada de consultas públicas, manifestações empresariais, audiências e negociações. Houve tempo para construir uma estratégia. O governo concentrou esforços em contestar as acusações americanas. Em muitos casos, tinha razão.
Críticas ao Pix ou ao desmatamento são descabidas. Mas demonstrar que a outra parte está errada nunca foi suficiente para obter um acordo com Trump.
A Casa Branca utilizou a investigação comercial como instrumento de barganhas que pudesse anunciar como vitórias. Reino Unido, União Europeia, Japão, Índia e outros parceiros compreenderam essa lógica. Preservaram setores sensíveis, ofereceram contrapartidas selecionadas e conseguiram limitar os prejuízos.
O Brasil permaneceu na defensiva. Havia margem entre aceitar exigências inaceitáveis e esperar que os argumentos jurídicos prevalecessem. O etanol oferecia complementaridade entre as duas economias. A redução de certas tarifas e a modernização do sistema de patentes poderiam baratear tecnologia e insumos para as próprias empresas brasileiras. Nos minerais críticos, principal interesse estratégico de Washington diante da dependência da China, o governo poderia oferecer contrapropostas baseadas em investimento, processamento local, transferência tecnológica e contratos duradouros.
Nenhuma dessas conversas exigia abandonar o Pix, tolerar ingerência no Judiciário ou entregar o controle de recursos minerais. Muitas coincidem com reformas que favoreceriam a produtividade da própria economia brasileira.
Essa agenda praticamente não apareceu, por três razões: 1) o governo confiou demais na consistência jurídica de suas respostas; 2) evitou enfrentar setores protegidos por barreiras que inclusive encarecem a produção brasileira; e 3) descobriu que discursos inflamados sobre soberania rendem mais votos do que tratativas discretas. A política eleitoral não só acompanhou o contencioso como restringiu as opções dos negociadores.
O resultado final mostra que a decisão não estava inteiramente fechada. A lista de produtos isentos mudou ao longo do processo. Categorias como o ferro-gusa recuperaram a isenção depois que empresas e importadores americanos provaram a inexistência de fornecedores alternativos. A disputa ocorreu produto por produto, estudo por estudo, empresa por empresa. Era um trabalho paciente, técnico e pouco visível – justamente o tipo de esforço que produz poucas manchetes e bons resultados.
Agora, o governo fala em “reciprocidade”, apoio a setores atingidos e contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC). São respostas compreensíveis, mas que mal administram o dano já causado. Há poucas razões para acreditar que uma retaliação faça Trump recuar. Os subsídios transferem aos contribuintes parte da conta. A OMC oferece legitimidade jurídica, mas pouco alívio.
O protecionismo de Trump é economicamente equivocado e politicamente oportunista. Isso tornava ainda maior a obrigação de o Brasil agir com antecedência, flexibilidade e conhecimento dos interesses em jogo. Ainda há espaço para buscar novas exceções, mobilizar empresas americanas e construir acordos sobre etanol, patentes ou minerais críticos.
Mas essas oportunidades encolhem sempre que a política ocupa o espaço que deveria pertencer à negociação. Não basta defender boas razões. É preciso transformá-las em bons acordos. O governo já perdeu tempo demais. A eleição termina em outubro. O mercado americano, as necessidades brasileiras e as cadeias produtivas afetadas continuarão existindo muito depois dela (Estadão, 17/7/26)

