Muito antes da internet, o cooperativismo paulista já sabia comunicar
Memórias do agro
Por Rodrigo Simões
Relatórios datilografados por Otacílio Tomanik revelam que, já quase nove décadas, o cooperativismo paulista já investia em comunicação institucional, relacionamento com a imprensa, publicações técnicas e planejamento estratégico para fortalecer um movimento que continua transformando o campo brasileiro.
Há documentos que registram acontecimentos. Outros, porém, conseguem antecipar o futuro. Entre as páginas amareladas do relatório “Serviços do Departamento de Assistência ao Cooperativismo em 1937”, elaborado pelo engenheiro Otacílio Tomanik, encontra-se uma surpreendente lição sobre comunicação que permanece atual quase nove décadas depois.
À primeira vista, trata-se de um relatório administrativo produzido pelo então Departamento de Assistência ao Cooperativismo (DAC), vinculado à Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Indústria e Comércio. Mas basta avançar pelas primeiras páginas para perceber que aquele documento ia muito além da simples prestação de contas. Ali estava registrada uma estratégia cuidadosamente planejada para aproximar o cooperativismo da sociedade.
Muito antes da internet, das redes sociais, dos aplicativos de mensagens e das plataformas digitais, Otacílio Tomanik compreendia que boas iniciativas precisavam ser conhecidas para produzir resultados. Em outras palavras, comunicar também era uma forma de fortalecer o cooperativismo.
O relatório dedica sua primeira seção ao tema “Propaganda e Orientação”, expressão utilizada em 1937 para definir aquilo que hoje conhecemos como comunicação institucional. O objetivo era claro: criar um ambiente favorável ao crescimento do sistema cooperativista em São Paulo por meio da informação, da orientação técnica e da divulgação permanente de suas ações.
Entre os registros que mais chamam a atenção está o relacionamento construído com a imprensa. O documento informa que, somente em 1937, o Departamento encaminhou 106 comunicados e notícias aos jornais. Segundo o próprio relatório, as publicações alcançavam uma tiragem estimada de aproximadamente 400 mil exemplares, sendo reproduzidas não apenas pelos principais periódicos da Capital, mas também por veículos de outros estados brasileiros.
É impossível não estabelecer um paralelo com os dias atuais. Hoje, cooperativas utilizam portais de notícias, redes sociais, vídeos, podcasts e transmissões ao vivo para dialogar com os cooperados e com a sociedade. Em 1937, os instrumentos eram diferentes, mas o princípio permanecia exatamente o mesmo: levar informação de qualidade ao maior número possível de pessoas.
Outro aspecto surpreendente é o cuidado com a distribuição das publicações editadas pelo Departamento. O relatório revela que o sistema de envio dos folhetos foi aperfeiçoado para atender exclusivamente aqueles que manifestavam interesse em recebê-los. Em linguagem contemporânea, era uma forma inteligente de organizar um cadastro de leitores, tornando a comunicação mais eficiente e direcionada.
Otacílio Tomanik também registrou a participação do cooperativismo paulista na Exposição e Feira de Amostras do Rio de Janeiro, onde o Estado apresentou quadros demonstrativos do movimento cooperativista e distribuiu uma publicação especialmente preparada para os visitantes. Guardadas as proporções históricas, a iniciativa lembra as modernas feiras agropecuárias, nas quais conhecimento, inovação e relacionamento caminham lado a lado para aproximar instituições, produtores e sociedade.
Talvez a maior demonstração de visão estratégica esteja reservada para a última página dessa seção. Nela, o relatório apresenta o Programa para 1938, estabelecendo objetivos claros para ampliar a comunicação, fortalecer o cooperativismo escolar, incentivar novas cooperativas de crédito, produzir materiais de linguagem acessível e expandir a orientação aos agricultores paulistas. Não era apenas um balanço do que havia sido realizado; era um planejamento consistente para o futuro.
Quase noventa anos depois, impressiona perceber que muitas das práticas consideradas modernas já estavam presentes na administração conduzida por Otacílio Tomanik. Mudaram as ferramentas, evoluíram os meios de comunicação e acelerou-se a velocidade da informação. Permaneceram, entretanto, os princípios fundamentais: informar com clareza, orientar com responsabilidade e construir com confiança por meio da comunicação.
Mais do que um relatório administrativo, essas páginas preservam uma lição que continua atual. Elas demonstram que o cooperativismo paulista compreendeu, muito cedo, que produzir e comunicar são atividades inseparáveis. Afinal, nenhuma ideia transforma a realidade se permanecer restrita ao papel. E talvez seja justamente essa a mensagem mais valiosa que Otacílio Tomanik decidiu eternizar, com rigor e sensibilidade, nas páginas datilografadas de 1937.
(Rodrigo Simões, Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público. Mtb 32.591/SP; 16/7/26)

