Na ONU, Lula escolhe seus inimigos – Editorial O Estado de S.Paulo
O petista vincula Flávio a Trump, acusa os EUA de interferirem na eleição brasileira e diz, mais uma vez, que a manutenção da democracia no País depende de sua vitória em outubro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como já se tornou um lamentável hábito, transformou o púlpito da ONU em palanque para um comício eleitoral. Fosse apenas isso, no entanto, seu discurso na abertura da Assembleia-Geral da ONU não mereceria mais do que algumas linhas de repúdio. Mas o palavrório de Lula teve ao menos a serventia de expor, quase sem meias palavras, qual será sua estratégia na reta final da campanha pela reeleição: caracterizar o principal adversário, o candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, como um agente a serviço de interesses estrangeiros e antidemocráticos no Brasil.
Depois de enfileirar uma série de críticas às grandes potências mundiais, que em sua opinião enfraqueceram a ONU e outras entidades multilaterais, comprometendo sua capacidade de “proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais”, Lula centrou fogo nos americanos e em seu presidente, Donald Trump, sem nomeá-los – sutileza que, de resto, era ociosa.
É um terreno em que Lula e o PT se sentem muito à vontade. Como se estivesse numa assembleia estudantil, o presidente disse que “a maior potência militar do mundo”, isto é, os EUA, quer interferir em países da América Latina para alinhar a região a seus interesses. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou Lula, para em seguida dizer que “a democracia está novamente em xeque” e que “voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais” na região.
Não é preciso ser versado no dialeto lulopetista para traduzir esse discurso: segundo Lula, os EUA pretendem causar confusão na eleição brasileira com o objetivo de favorecer Flávio Bolsonaro, a quem o petista acusa de entreguismo.
Lula tratou da coisa em termos explícitos. Primeiro, disse que “alguns” candidatos se associaram a “interesses estrangeiros contrários ao País”. Em seguida, desafiou o adversário e seu padrinho americano: “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, pois “a democracia pertence aos brasileiros”.
Fazendo-se confundir com o Estado brasileiro, Lula tratou sua eleição como se dela dependesse a independência do Brasil diante dos EUA. Em outras palavras, deu a entender, de maneira suficientemente clara, que o Brasil só continuará a ser soberano se ele, Lula, derrotar Flávio.
Desse modo, Lula tratou de reduzir Flávio à condição de mero fantoche de Trump e daqueles que pretendem apequenar o Brasil. Tudo isso, sugeriu o petista, está vinculado ao que de pior o populismo reacionário produziu nos últimos anos, como o negacionismo científico que, conforme seu discurso, prejudica o enfrentamento das mudanças climáticas e a erradicação de doenças para as quais há vacinas disponíveis.
Nessa toada, Lula estabeleceu o que ele vê como dilema existencial do Brasil: “No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo”.
Mais uma vez, Lula se coloca como o campeão da democracia contra a besta bolsonarista. Foi com base nessa fraude que o petista se elegeu em 2022, liderando uma assim chamada “frente democrática” contra o pai de Flávio, o então presidente Jair Bolsonaro.
Agora, sem ter o que mostrar depois de tantos anos de governos petistas medíocres, que entregaram um país com Estado balofo e endividamento explosivo, juros na estratosfera e renda comprimida, baixo crescimento e investimento pífio, Lula recorre mais uma vez ao espantalho da ameaça à democracia, cuja sobrevivência dependeria de sua vitória contra Flávio Bolsonaro.
Sejamos claros: a democracia brasileira não depende de Lula. Se por acaso o petista vier a perder a eleição, terá sido porque a maioria dos que se dispuseram a ir às urnas se cansaram de suas mistificações, de seu discurso anacrônico e de sua incapacidade de oferecer uma visão de futuro. Simples assim (Estadão, 23/9/26)

