Nove de Julho: de cartão-postal ao abandono – Por Rodrigo Simões
Foto Rodrigo Simões
Durante décadas, a Avenida Nove de Julho foi símbolo de elegância urbana, história e tradição em Ribeirão Preto. Uma avenida arborizada, charmosa, com comércio forte e identidade própria.
Hoje, infelizmente, o que se vê é um cenário muito distante daquele que marcou gerações de ribeirão-pretanos. Obras mal planejadas, falta de visão urbana e decisões administrativas questionáveis transformaram um dos mais belos corredores da cidade em um espaço que já não representa o que deveria representar.
Mais do que crítica, esta coluna traz reflexão — e também propostas que poderiam ter preservado e modernizado, ao mesmo tempo, uma das vias mais emblemáticas da cidade.
Uma avenida que faz parte da história
A Avenida Nove de Julho sempre foi mais do que uma via de circulação. Ela carrega história, arquitetura e memória afetiva.
Seu tradicional calçamento de paralelepípedos, as árvores que acompanham a extensão da avenida e o comércio vibrante transformaram o local em um verdadeiro cartão-postal urbano.
Por isso mesmo, qualquer intervenção ali deveria ter sido tratada com extremo cuidado, planejamento e visão de longo prazo.
Uma revitalização que não convenceu
Recentemente, a avenida passou por um longo processo de revitalização para implantação de um corredor de ônibus, preservando o antigo calçamento.
A intenção, em tese, era modernizar a mobilidade. Na prática, porém, muitos moradores, comerciantes e especialistas passaram a questionar o resultado.
A sensação que permanece é de uma obra cara, pouco eficiente e que não conseguiu devolver à avenida o protagonismo urbano que sempre teve.
Uma proposta que existiu
Quando exerci o mandato de vereador na Câmara Municipal de Ribeirão Preto, apresentei ao Executivo, ainda em 2018, uma proposta concreta para a modernização da avenida.
Uma proposta pensada com responsabilidade, respeito à história da via e foco na funcionalidade urbana.
Infelizmente, como acontece tantas vezes na administração pública, a solução apresentada acabou ignorada.
Uma solução técnica e moderna
A proposta era clara e objetiva:
- retirada dos paralelepípedos existentes
• instalação de toda a fiação elétrica de forma subterrânea
• substituição da antiga tubulação de água e esgoto, hoje já deteriorada pelo tempo
• implantação de pavimento rígido e moderno
Em vez do asfalto convencional, sugeri a adoção de bloquetes cimentícios de alta resistência, solução amplamente utilizada em cidades modernas.
Esse tipo de pavimento garante drenagem eficiente, instalação rápida, manutenção simples e excelente durabilidade.
Além disso, manteria a elegância urbana que sempre caracterizou a avenida.
Valorização do espaço urbano
A proposta também previa a revitalização completa da ilha central da avenida.
A ideia era preservar o formato histórico do canteiro, porém com novas pedras, paisagismo adequado e vegetação que valorizasse o verde existente.
Uma intervenção simples, mas capaz de devolver identidade visual e qualidade ambiental ao espaço.
Luz, segurança e vida urbana
Outro ponto essencial seria a substituição de toda a iluminação por tecnologia LED.
Mais segurança, mais visibilidade e mais vida noturna para uma das principais avenidas da cidade.
Iluminação pública de qualidade não é luxo — é elemento fundamental de revitalização urbana.
Arte para preservar a memória
Os paralelepípedos retirados da via não precisariam desaparecer.
A proposta incluía a criação de uma escultura urbana ou instalação artística, produzida por artistas plásticos locais, utilizando justamente essas pedras históricas.
Essa obra poderia ser instalada no cruzamento da Nove de Julho com a Rua Amador Bueno, transformando o espaço em um marco visual que lembraria permanentemente a história da avenida.
Um parque linear aos domingos
Com a avenida devidamente revitalizada, outra proposta seria transformar a Nove de Julho em um parque linear aos domingos.
Uma via reta, arborizada e central, perfeita para reunir famílias, jovens, artistas e pequenos comerciantes.
Um espaço de convivência urbana, cultura e lazer — algo que muitas cidades brasileiras já adotaram com enorme sucesso.
O impacto no comércio
A Nove de Julho sempre foi também um corredor comercial importante.
Obras mal conduzidas, sem diálogo e sem planejamento adequado, acabam atingindo diretamente quem empreende, gera emprego e movimenta a economia local.
Valorizar a avenida sempre significou, também, valorizar os comerciantes que construíram sua história ali.
Entre o tombamento e a solução
É verdade que a avenida possui proteção histórica.
Mas preservação não significa imobilismo. Pelo contrário: exige inteligência, diálogo e soluções técnicas que conciliem tradição e modernidade.
Executivo, Legislativo e órgãos de preservação poderiam ter construído juntos uma solução equilibrada.
Infelizmente, não foi o que aconteceu.
Quando a teimosia custa caro
Se propostas responsáveis tivessem sido consideradas no momento certo, hoje talvez estivéssemos falando de uma avenida ainda mais bonita, moderna e funcional.
Uma Nove de Julho preservada em sua tradição — e renovada em sua estrutura.
Infelizmente, a teimosia administrativa muitas vezes custa caro.
E quem paga a conta, como sempre, é a população (Rodrigo Simões. Jornalista • Administrador de Empresas, Pós-graduado em Gerente de Cidades – FAAP, 2× Vereador por Ribeirão Preto • Presidente da Câmara (2017), Ex-Presidente da FUNTEC, Colunista – BrasilAgro, Apresentador do Podcast Clube do Povo, 16/3/26)

