16/03/2026

Nove de Julho: de cartão-postal ao abandono – Por Rodrigo Simões

Nove de Julho: de cartão-postal ao abandono – Por Rodrigo Simões

Foto  Rodrigo Simões

Durante décadas, a Avenida Nove de Julho foi símbolo de elegância urbana, história e tradição em Ribeirão Preto. Uma avenida arborizada, charmosa, com comércio forte e identidade própria.

Hoje, infelizmente, o que se vê é um cenário muito distante daquele que marcou gerações de ribeirão-pretanos. Obras mal planejadas, falta de visão urbana e decisões administrativas questionáveis transformaram um dos mais belos corredores da cidade em um espaço que já não representa o que deveria representar.

Mais do que crítica, esta coluna traz reflexão — e também propostas que poderiam ter preservado e modernizado, ao mesmo tempo, uma das vias mais emblemáticas da cidade.

 

Uma avenida que faz parte da história

 

A Avenida Nove de Julho sempre foi mais do que uma via de circulação. Ela carrega história, arquitetura e memória afetiva.

Seu tradicional calçamento de paralelepípedos, as árvores que acompanham a extensão da avenida e o comércio vibrante transformaram o local em um verdadeiro cartão-postal urbano.

Por isso mesmo, qualquer intervenção ali deveria ter sido tratada com extremo cuidado, planejamento e visão de longo prazo.

 

Uma revitalização que não convenceu

 

Recentemente, a avenida passou por um longo processo de revitalização para implantação de um corredor de ônibus, preservando o antigo calçamento.

A intenção, em tese, era modernizar a mobilidade. Na prática, porém, muitos moradores, comerciantes e especialistas passaram a questionar o resultado.

A sensação que permanece é de uma obra cara, pouco eficiente e que não conseguiu devolver à avenida o protagonismo urbano que sempre teve.

 

Uma proposta que existiu

 

Quando exerci o mandato de vereador na Câmara Municipal de Ribeirão Preto, apresentei ao Executivo, ainda em 2018, uma proposta concreta para a modernização da avenida.

Uma proposta pensada com responsabilidade, respeito à história da via e foco na funcionalidade urbana.

Infelizmente, como acontece tantas vezes na administração pública, a solução apresentada acabou ignorada.

 

Uma solução técnica e moderna

 

A proposta era clara e objetiva:

  • retirada dos paralelepípedos existentes
    • instalação de toda a fiação elétrica de forma subterrânea
    • substituição da antiga tubulação de água e esgoto, hoje já deteriorada pelo tempo
    • implantação de pavimento rígido e moderno

Em vez do asfalto convencional, sugeri a adoção de bloquetes cimentícios de alta resistência, solução amplamente utilizada em cidades modernas.

Esse tipo de pavimento garante drenagem eficiente, instalação rápida, manutenção simples e excelente durabilidade.

Além disso, manteria a elegância urbana que sempre caracterizou a avenida.

 

Valorização do espaço urbano

 

A proposta também previa a revitalização completa da ilha central da avenida.

A ideia era preservar o formato histórico do canteiro, porém com novas pedras, paisagismo adequado e vegetação que valorizasse o verde existente.

Uma intervenção simples, mas capaz de devolver identidade visual e qualidade ambiental ao espaço.

 

Luz, segurança e vida urbana

 

Outro ponto essencial seria a substituição de toda a iluminação por tecnologia LED.

Mais segurança, mais visibilidade e mais vida noturna para uma das principais avenidas da cidade.

Iluminação pública de qualidade não é luxo — é elemento fundamental de revitalização urbana.

 

Arte para preservar a memória

 

Os paralelepípedos retirados da via não precisariam desaparecer.

A proposta incluía a criação de uma escultura urbana ou instalação artística, produzida por artistas plásticos locais, utilizando justamente essas pedras históricas.

Essa obra poderia ser instalada no cruzamento da Nove de Julho com a Rua Amador Bueno, transformando o espaço em um marco visual que lembraria permanentemente a história da avenida.

 

Um parque linear aos domingos

 

Com a avenida devidamente revitalizada, outra proposta seria transformar a Nove de Julho em um parque linear aos domingos.

Uma via reta, arborizada e central, perfeita para reunir famílias, jovens, artistas e pequenos comerciantes.

Um espaço de convivência urbana, cultura e lazer — algo que muitas cidades brasileiras já adotaram com enorme sucesso.

 

O impacto no comércio

 

A Nove de Julho sempre foi também um corredor comercial importante.

Obras mal conduzidas, sem diálogo e sem planejamento adequado, acabam atingindo diretamente quem empreende, gera emprego e movimenta a economia local.

Valorizar a avenida sempre significou, também, valorizar os comerciantes que construíram sua história ali.

 

Entre o tombamento e a solução

 

É verdade que a avenida possui proteção histórica.

Mas preservação não significa imobilismo. Pelo contrário: exige inteligência, diálogo e soluções técnicas que conciliem tradição e modernidade.

Executivo, Legislativo e órgãos de preservação poderiam ter construído juntos uma solução equilibrada.

Infelizmente, não foi o que aconteceu.

 

Quando a teimosia custa caro

 

Se propostas responsáveis tivessem sido consideradas no momento certo, hoje talvez estivéssemos falando de uma avenida ainda mais bonita, moderna e funcional.

Uma Nove de Julho preservada em sua tradição — e renovada em sua estrutura.

Infelizmente, a teimosia administrativa muitas vezes custa caro.

E quem paga a conta, como sempre, é a população (Rodrigo Simões. Jornalista • Administrador de Empresas, Pós-graduado em Gerente de Cidades – FAAP, 2× Vereador por Ribeirão Preto • Presidente da Câmara (2017), Ex-Presidente da FUNTEC, Colunista – BrasilAgro, Apresentador do Podcast Clube do Povo, 16/3/26)