O Brasil não precisa de mais terra. Precisa de mais inteligência
Em 2024, o Brasil tinha cerca de 97,3 milhões de hectares de lavouras e 10,52 milhões de hectares de florestas plantadas. Foto Tiago Queiroz/Estadão
Por Marcello Brito
Um país que pretende ser protagonista global não pode agir como se sua maior vantagem competitiva fosse derrubar mais mata do que os outros.
O desmatamento historicamente aumenta em ano eleitoral. O Brasil gosta de repetir para si mesmo uma fantasia confortável: a de que seu grande trunfo estratégico é a abundância de terra. É uma ideia sedutora. Temos cerca de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas, mais 78 milhões de hectares que, em tese, poderiam ser legalmente desmatados sob as regras do Código Florestal. Somados, são 118 milhões de hectares. Em certos círculos, esse número é tratado como uma espécie de bilhete premiado: uma reserva silenciosa de poder, riqueza e expansão futura.
Mas talvez seja justamente o contrário. Talvez os 118 milhões de hectares revelem não a força, mas a tentação mais perigosa do Brasil: a de confundir estoque territorial com projeto nacional.
Vamos supor que o País decidisse incorporar essa área ao longo de duas décadas, numa média de 5,9 milhões de hectares por ano, o efeito não seria o de uma marcha triunfal do progresso. Seria o de uma pressão contínua, pesada e cada vez mais difícil de remunerar. Mesmo retirando a pecuária da conta e imaginando que toda essa expansão fosse destinada à agricultura e às florestas plantadas, a escala continuaria brutal. Em 2024, o Brasil tinha cerca de 97,3 milhões de hectares de lavouras e 10,52 milhões de hectares de florestas plantadas; estaríamos falando, na prática, de mais do que dobrar esse sistema.
A pergunta correta, portanto, não é se o Brasil tem terra. Tem. A pergunta é: quem vai absorver essa oferta? Em que condições? A que preço? E com que custo político, climático e reputacional?
O mundo não cresce na velocidade da nossa imaginação territorial. A demanda global por alimentos, fibras, biomassa e energia renovável continuará avançando, sim, mas de forma orgânica, gradual, muito abaixo do ritmo de uma expansão dessa magnitude. O OECD-FAO Outlook 2025-2034 projeta crescimento da produção e do consumo globais, na ordem de 25-30%, muito abaixo dos 100% de aumento caso resolvamos ocupar esses 118 milhões de hectares. Quem aposta que basta abrir área para colher prosperidade está olhando o mapa, mas não está olhando o mercado.
O resultado mais provável de uma expansão horizontal dessa escala seria uma combinação indigesta de excesso de oferta, queda de preços relativos, compressão de margens e aumento da dependência de infraestrutura, crédito, armazenagem, portos, ferrovias e processamento industrial. Em outras palavras: deixaríamos de ter um problema de terra para ter um problema de mercado.
E mercado não se resolve com motosserra, decreto ou ufanismo.
Há um paradoxo que parte do debate brasileiro se recusa a enxergar. Quanto maior a oferta primária despejada no mundo, menor tende a ser o poder de precificação do próprio Brasil. Exportar mais tonelada não significa exportar mais valor. Ao contrário: em cadeias amplamente comoditizadas, o excesso de volume costuma beneficiar mais o comprador do que o vendedor. A abundância brasileira, mal planejada, pode virar o instrumento perfeito para o restante do mundo negociar descontos maiores.
É aqui que entra o erro estratégico central. O século 20 premiou quem tinha fronteira. O século 21 premia quem tem produtividade, rastreabilidade, processamento, segurança regulatória, baixo carbono e reputação confiável. Terra continua importante. Mas deixou de ser suficiente. Em alguns casos, deixou até de ser a variável decisiva.
No caso brasileiro, insistir na expansão baseada em conversão de vegetação nativa seria ainda mais irracional. Primeiro, porque colocaria no mercado um enorme estoque inicial de madeira, derrubando preços na origem e favorecendo ganhos oportunistas de curto prazo, não riqueza sustentada. Segundo, porque geraria uma emissão colossal de gases de efeito estufa justamente no momento em que os grandes mercados, o sistema financeiro e as cadeias globais caminham na direção oposta.
E o problema não para aí. Se parte importante dessa ocupação vier dos 78 milhões de hectares hoje legalmente desmatáveis, o País produzirá um choque duplo. No curto prazo, um grande estoque de madeira nativa pressionará preços e favorecerá ganhos oportunistas. No médio e longo prazo, virá a conta pesada: a conversão dessa área poderia lançar na atmosfera algo entre 11 e 60 gigatoneladas de CO2e, dependendo do bioma atingido - uma ordem de grandeza equivalente a muitos anos das emissões anuais brasileiras por desmatamento.
E não se trata apenas de carbono. À luz da ciência disponível, um desmatamento dessa escala também poderia comprometer a chuva que sustenta o próprio agronegócio nacional. Estudos mostram que a perda de vegetação nativa reduz a precipitação regional, enfraquece a reciclagem de umidade e já está associada a perdas relevantes de produtividade de grãos; trabalhos recentes atribuem ao desmatamento histórico entre 52% e 72% da redução observada de precipitação no sul da Amazônia. Em certo ponto, o que parece expansão vira autossabotagem: abre-se mais terra, mas enfraquece-se o regime pluviométrico que torna essa terra produtiva.
A Europa já transformou esse movimento em regra. A EUDR começa a ser aplicada às grandes e médias empresas em 30 de dezembro de 2026 e adota a lógica de produto livre de desmatamento, não a de “desmatamento legal”. A China, ainda que por outro caminho e com outra linguagem, também avança para cadeias mais verdes, rastreamento de carbono e maior exigência ambiental em seu 15.º Plano Quinquenal. O recado é simples: o mundo pode continuar comprando do Brasil, mas comprará cada vez mais com lupa, condição e desconto.
Eis a ironia: uma expansão territorial apresentada internamente como prova de força poderia, na prática, fragilizar o país. Fragilizaria nossa posição em negociações comerciais, elevaria o custo do capital, aumentaria a desconfiança de investidores, ampliaria o atrito com mercados premium e corroeria a narrativa de que o Brasil pode ser potência agroambiental, e não apenas potência extrativa.
A verdadeira reserva estratégica brasileira não está nos 78 milhões de hectares ainda legalmente desmatáveis. Está na capacidade de recuperar pastagens degradadas, intensificar a produção sem repetir velhos erros, agregar valor industrialmente, liderar bioenergia, floresta plantada, química verde, proteína processada e agricultura tropical de baixo carbono. Está em produzir mais sem precisar provar, ao mundo, que continuamos presos a uma mentalidade de ocupação territorial do século passado.
Isso não significa defender imobilismo. Significa reconhecer a ordem correta das escolhas. Se o Brasil ainda dispõe de dezenas de milhões de hectares degradados a recuperar, espaço para elevar produtividade, integrar sistemas e expandir florestas plantadas, então apostar no desmatamento como motor de crescimento não é eficiência. É má alocação de capital. É escolher a alternativa de maior passivo e menor inteligência.
Um país que pretende ser protagonista global não pode agir como se sua maior vantagem competitiva fosse derrubar mais mata do que os outros. Isso não é estratégia. É miopia em escala continental.
O Brasil não precisa de mais terra. Precisa, com urgência, de mais inteligência (Marcello Brito é engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental; Estadão, 11/4/26)

