17/08/2026

O complô do centrão: Como Kassab, Caiado e o Missão trabalham para Lula

“Direita do pau oco”. Imagem Reprodução Instagram

  

Por Lucia Festuccia

 

Em 2022, recém-saído da prisão, Lula reuniu esquerda e Centrão em torno de uma chamada “frente ampla”, cujo objetivo político era impedir a reeleição de Jair Bolsonaro. A estratégia funcionou e levou Lula novamente ao poder. Em 2026, a mesma composição não conseguiu se repetir integralmente. A estratégia, porém, parece ter mudado de formato: em vez de reunir todos no mesmo palanque, divide-se o campo adversário.

 

A antiga “terceira via” reaparece agora com a etiqueta de “centro-direita”. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos disputam parcelas do eleitorado que também poderiam votar em Flávio Bolsonaro. O ponto central desta análise é justamente esse: mesmo sem uma aliança formal com Lula, candidaturas que retiram votos do principal adversário do presidente podem produzir, na prática, um resultado extremamente conveniente para o governo.

 

É nesse cenário que a posição de Gilberto Kassab ganha enorme relevância. Presidente nacional do PSD e candidato a vice de Ronaldo Caiado, Kassab declarou que os partidos do Centrão estão com Lula e afirmou que Flávio Bolsonaro teria “chance zero” de vencer. Não é uma declaração de neutralidade. É uma manifestação política explícita de quem comanda uma das maiores estruturas partidárias do país (UOL Notícias).

 

Kassab foi além. Disse que Flávio, atualmente “preservado”, sofreria forte desgaste quando a campanha começasse e que, quando o PT mostrasse “quem é Flávio”, sua candidatura iria “desabar”. Ao mesmo tempo, comemorou o aumento do tempo de televisão de Caiado, resultado da ausência de candidaturas próprias de partidos do Centrão. O recado é cristalino: enquanto Caiado ganha espaço, Flávio é tratado como o adversário a ser destruído.

 

E aqui aparece a matemática eleitoral que o discurso político tenta esconder. Caiado não precisa necessariamente vencer para influenciar o resultado. Basta conquistar uma parcela dos votos que poderiam ir para Flávio. Se a oposição se divide em várias candidaturas, Lula enfrenta adversários separados, enquanto seus concorrentes disputam entre si o mesmo eleitorado.

 

O mesmo raciocínio vale para Renan Santos e o Missão. A candidatura pode ser apresentada como uma alternativa independente, mas, eleitoralmente, também disputa o espaço da direita. Quanto mais candidatos ocuparem esse território, maior será a fragmentação. E quanto maior a fragmentação, maior a possibilidade de o candidato governista chegar ao segundo turno em posição privilegiada.

 

O caso do Missão acrescentou ainda mais combustível à disputa. Uma filiação de Flávio Bolsonaro ao partido, que não correspondia à sua legenda, interferiu temporariamente no processo de registro de sua candidatura. O episódio foi posteriormente revertido, mas levantou questionamentos sobre como a alteração ocorreu e quem teve acesso ao sistema partidário. O Missão nega ter articulado qualquer fraude e afirma ter sido vítima do episódio.

 

O histórico do MBL também ajuda a explicar a desconfiança. O movimento ganhou projeção nacional nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e posteriormente passou por divisões e transformações. Em 2022, setores ligados ao movimento defenderam o voto nulo. Agora, parte dessa estrutura transformou-se em partido e apresenta Renan Santos como candidato à Presidência. Quem é esse?

 

A pergunta inevitável é: quem ganha quando vários candidatos disputam o mesmo eleitorado? Não é preciso imaginar uma reunião secreta para perceber o efeito político. Se Caiado (direita do pau oco) tira votos de Flávio, se Renan Santos também tira votos e se o Centrão permanece afastado de sua candidatura, o resultado pode favorecer justamente quem está no governo.

 

Há ainda a denúncia da tal pressão do Judiciário sobre lideranças do Centrão para impedir uma aproximação com Flávio Bolsonaro. A alegação, atribuída ao jornalista Caio Junqueira, menciona inclusive partidos envolvidos em investigações. O que sem dúvida é de extrema gravidade institucional. Enfim!

 

O ponto mais contundente, entretanto, está na própria declaração de Kassab. Quando o presidente do PSD afirma que “o Centrão está com Lula”, a suposta neutralidade perde completamente o sentido. E quando esse mesmo dirigente é vice na chapa de Caiado (o direita do pau oco), a pergunta passa a ser inevitável: qual é exatamente a função dessa candidatura no tabuleiro eleitoral?

 

Caiado se apresenta como alternativa à polarização. Mas seu partido, comandado por Kassab, declara que o Centrão está com Lula. Ao mesmo tempo, sua candidatura disputa votos da direita. Muito doido. É uma combinação politicamente conveniente: apresenta-se uma alternativa ao governo enquanto se enfraquece o adversário que pretende enfrentá-lo diretamente.

 

É o velho método de Brasília: ninguém precisa declarar apoio explícito a Lula para produzir um resultado favorável ao presidente. Basta dividir o adversário, preservar alianças e esperar a hora certa para decidir de que lado ficará. O Centrão raramente trabalha com paixão ideológica. Trabalha com poder, espaço e sobrevivência política, eterna diga-se.

 

Por isso, a questão não é simplesmente saber se existe um “complô” formal. O que importa é observar a convergência dos movimentos. Kassab apoia Caiado e declara que o Centrão está com Lula. Caiado disputa o eleitorado da direita. Renan Santos também ocupa esse espaço. E Flávio Bolsonaro passa a enfrentar adversários não apenas no campo governista, mas dentro do próprio eleitorado que poderia levá-lo ao segundo turno.

 

A política brasileira já ensinou que alianças podem ser muito diferentes dos discursos utilizados para justificá-las. O eleitor precisa olhar para os atos, não apenas para os rótulos. Quem se apresenta como centro-direita precisa explicar se pretende realmente derrotar Lula ou apenas disputar os votos daqueles que desejam fazê-lo.

 

No fim, a pergunta é simples e incômoda: quem se beneficia com a divisão da direita? Se Caiado não chegar ao segundo turno, mas retirar votos suficientes de Flávio, sua candidatura terá produzido um efeito decisivo. Se Renan Santos fizer o mesmo, o efeito será semelhante. E se o Centrão continuar afastado de Flávio enquanto declara proximidade com Lula, a conta política começa a ficar ainda mais evidente.

 

O eleitor não precisa aceitar a tese de um complô. Precisa apenas observar os movimentos. Kassab já falou. Disse que o Centrão está com Lula e que Flávio não teria chance. Agora cabe ao eleitor decidir se essas candidaturas representam uma verdadeira alternativa ao governo ou se, conscientemente ou não, estão apenas ajudando a manter o atual grupo no poder.

 

Porque, na política, nem sempre é necessário apoiar diretamente um candidato para ajudá-lo a vencer. Às vezes, basta trabalhar para que seu principal adversário nunca chegue ao lugar onde poderia derrotá-lo.

 

Sobre a autora

 

Lucia Festuccia, advogada em Ribeirão Preto. Articulista do portal BrasilAgro. Consultora jurídica e voluntária do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil. luciafestuccia@hotmail.com; 17/6/26