O conselho de Lula a Alexandre de Moraes no caso Master

"Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia", afirmou Lula, a Alexandre de Moraes. Foto Reprodução YouTube
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (8/4) que aconselhou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a não deixar que o caso do Banco Master manche sua reputação.
Para isso, segundo Lula, Moraes deveria se declarar suspeito de julgar o processo envolvendo o banco de Daniel Vorcaro.
"Você construiu uma biografia histórica neste país com o julgamento do 8 de janeiro. Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia", afirmou o presidente em entrevista ao portal ICL Notícias.
Lula seguiu, dizendo que Moraes não atua em seu escritório de advocacia há quase 15 anos, devido aos cargos públicos que vem ocupando. "Mas a sua mulher estava advogando", disse o presidente.
"Diga textualmente 'a minha mulher estava advogando, ela não precisa pedir licença para mim, mas na Suprema Corte, por causa da minha mulher, eu me sinto impedido de votar'. Alguma coisa que passe à sociedade alguma firmeza, porque ele tem."
A esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, prestou serviços jurídicos ao Banco Master por meio de seu escritório de advocacia, com quem manteve contrato milionário até a liquidação da instituição financeira, investigada por fraudes.
A suspeição sugerida por Lula é quando um juiz ou autoridade encarregada de determinado processo se afasta do caso por manter relações pessoais com qualquer uma das partes ou advogados, ou por outras questões que possam afetar sua imparcialidade.
No entanto, o caso está com a Segunda Turma do Supremo, da qual Moraes não faz parte. Não está previsto no regimento interno do STF pedido de suspeição em casos julgados em outra Turma.
Levantamento da BBC News Brasil identificou que os nomes de ao menos 12 parentes de oito ministros do Supremo — Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux, Edson Fachin, Flavio Dino, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes — aparecem como advogados em processos na Corte.
Em 2023, o próprio STF decidiu ser inconstitucional a regra que impediria que juízes atuassem em processos envolvendo clientes de escritórios de advocacia com parentes dos próprios magistrados em seus quadros.
O impedimento segue, no entanto, quando há atuação direta do familiar nos casos.
"Fora dessas hipóteses, faltam regras clara quanto à atuação dos escritórios de advocacia aos quais esses profissionais pertencem, bem como quanto à participação desses advogados em processos julgados por outros ministros da mesma corte", explicou a professora da FGV Direito SP, Luísa Moraes Abreu Ferreira, à BBC News Brasil em janeiro.
'Povo trata como uma coisa imoral'
O conselho de Lula a Moraes foi revelado depois que ele foi perguntado pelo jornalista Leandro Demori, do ICL, como ele via "a relação de voos, de jatinhos, de parcerias de escritórios de advocacia com o ministro".
"O senhor acha que prejudica a imagem de um Supremo que saiu muito fortalecido na defesa da democracia na questão do golpe de Estado, por exemplo?", perguntou Demori.
Lula respondeu que sim. "Prejudica a imagem, prejudica. Obviamente que o companheiro Alexandre de Moraes sabe que prejudica a imagem. Você pode ter uma coisa que é legal, mas, nas circunstâncias que acontecem aos olhos do povo, o povo trata como se fosse uma coisa imoral."
Na entrevista, Lula defendeu que a imagem da Corte não pode ser manchada pela eventual conduta de algum ministro.
"Se tem algum membro da Suprema Corte que cometeu algum desvio, esse cidadão que pague o preço do desvio, mas a Suprema Corte não pode pagar o preço. É o que eles estão tentando fazer. E eles estão tentando carimbar o Alexandre de Mores por causa do papel dele que foi muito digno no 8 de janeiro", afirmou.
Moraes é o relator do inquérito que apura os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, que enviou para a cadeia diversas pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que hoje cumpre prisão domiciliar.
Para o presidente, a escolha de virar ministro é sagrada. "A pessoa tem que fazer uma opção. Quando vai para a Suprema corte ele tem que ter um compromisso quase que religioso. Ele não está lá para ganhar dinheiro."
A BBC News Brasil perguntou à assessoria de imprensa do STF se Moraes confirma ter recebido o conselho de Lula, mas até o momento não há posicionamento do ministro.
Esteira de desgastes
Segundo reportagens recentes da Folha de S. Paulo, Moraes, Viviane Barci de Moraes e o ministro Dias Toffoli voaram em jatinhos particulares de empresas de Daniel Vorcaro ou ligadas e ele, entre 2025 e 2026.
Essas notícias vieram em uma esteira de casos envolvendo os ministros e Viviane Barci.
Moraes e a esposa viraram alvos de críticas e questionamentos no fim do ano, quando o jornal O Globo revelou que o escritório Barci de Moraes teria um contrato com o Banco Master, prevendo pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos, no valor de R$ 129 milhões.
Posteriormente, o escritório da advogada enviou nota à imprensa admitindo ter mantido contrato com o Master entre 2024 e 2025.
A imagem do casal ficou ainda mais desgastada quando Vorcaro foi preso, em fevereiro, e vieram à tona supostos novos indícios de contato entre o ministro e o banqueiro, especialmente com as mensagens vazadas entre o banqueiro e sua então namorada.
O ministro Dias Toffoli, por sua vez, anunciou sua retirada da relatoria do caso Master em fevereiro, sendo substituído por André Mendonça.
Um mês depois, ele se declarou suspeito e deixou de participar de qualquer decisão envolvendo o banco liquidado de Daniel Vorcaro.
Em sua decisão, Toffoli disse que seu afastamento do caso ocorreu por motivos de "foro íntimo". Sua atuação no processo vinha sendo questionada devido a supostas relações que ele mantinha com pessoas ligadas ao Master, especialmente Vorcaro.
A Folha de S. Paulo revelou que uma empresa de Toffoli e seus irmãos, a Maridt Participações, recebeu pagamentos de um fundo ligado ao Banco Master pela venda de parte do resort Tayayá, no Paraná.
O ministro confirmou a existência da empresa familiar e sua participação no quadro societário, mas disse que "jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado, Fabiano Zettel", que também foi preso (BBC News Brasil, 8/4/26)
Pagamentos declarados pelo Master a escritório de mulher de Moraes somaram R$ 80 mi em dois anos
Por Thaísa Oliveira, Carolina Linhares e Mateus Vargas
· OUTRO LADO: Barci de Moraes diz que informações estão incorretas e foram vazadas ilicitamente; ministro não comentou
· Dados da Receita Federal indicam 11 pagamentos de R$ 3,6 mi ao longo de 2024, além de outros R$ 40,1 mi em 2025
Documentos da Receita Federal indicam que os pagamentos declarados pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro, ao escritório da mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, se estenderam por 2025 e chegaram a R$ 80,2 milhões em dois anos.
Dados enviados à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Senado que investiga o crime organizado mostram que o banco declarou 11 pagamentos de R$ 3.646.529,72 ao escritório ao longo de 2024, totalizando R$ 40.111.826,92, como revelou a Folha na terça-feira (7).
Em 2025, os registros não aparecem segregados por meses, e há a declaração de pagamento de R$ 40.111.826,92 naquele ano.
Procurado, o Barci de Moraes afirmou que "não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos". O escritório não quis informar, porém, qual seria o valor dos pagamentos. Moraes foi procurado por meio da assessoria de imprensa do (Supremo Tribunal Federal), mas não se manifestou até a publicação deste texto.
Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, é uma das sócias do escritório Barci de Moraes. No começo do mês passado, o escritório admitiu ter mantido um contrato com o Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, mês em que houve a liquidação do banco —o que equivale a 11 meses de serviços prestados em cada um dos anos.
Segundo informações divulgados pelo jornal O Globo, o contrato do Master com o escritório de advocacia previa o pagamento de R$ 129 milhões em três anos, R$ 3,6 milhões por mês.
De acordo com os dados da Receita Federal obtidos pela Folha, o Master informou ter recolhido R$ 2,4 milhões em impostos retidos na fonte sobre o pagamento feito ao Barci de Moraes em cada um dos anos —o que sugere o pagamento de R$ 37,6 milhões líquidos ao escritório por ano.
Na declaração de 2024, a cifra aparece fracionada em 11 meses —R$ 224 mil em impostos por mês, o que corresponde à tributação incidente sobre R$ 3,6 milhões mensais para o Barci de Moraes naquele ano.
A defesa de Vorcaro também foi procurada pela reportagem e respondeu que não se manifestaria.
Quando o contrato entre o Banco Master e o Barci de Moraes veio a público, a banca, que tem entre seus sócios também dois filhos do casal, ficou em silêncio. A primeira manifestação ocorreu no começo de março.
Em nota, o escritório afirmou ter prestado serviços de consultoria e atuação jurídica ao Master. Entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, o Barci de Moraes diz que realizou 94 reuniões de trabalho, sendo 79 delas presenciais, na sede do Master.
Para isso, afirma, mobilizou uma equipe de 15 advogados e contratou outros três escritórios especializados em consultoria que trabalharam sob sua coordenação.
"O escritório esclarece ainda que nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF (Supremo Tribunal Federal)", informou na nota de março, em que detalhou quais foram os serviços prestados.
"O Barci de Moraes Sociedade de Advogados tem uma trajetória de quase duas décadas prestando serviços altamente qualificados para grandes clientes, unindo visão jurídica e abordagem estratégica", completou (Folha.com, 8/4/26)
Master declarou pagamentos a Temer, Rueda, Mantega, Lewandowski e ACM Neto

Daniel Vorcaro. Foto Reprodução Crusoé
Por Thaísa Oliveira, Mateus Vargas, Carolina Linhares e João Gabriel
· Lista inclui ainda desembolsos a Wajngarten, ex-chefe da Secom de Bolsonaro, e à nora de Jaques Wagner, líder do governo Lula
· Políticos afirmam que receberam valores por serviços prestados em contratos assinados com banco de Vorcaro
Documentos enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado apontam repasses milionários do Banco Master, de Daniel Vorcaro, a escritórios de advocacia e empresas ligadas a Michel Temer (MDB), Antônio Rueda (União Brasil), ACM Neto (União Brasil), Marconi Perillo (PSDB), Guido Mantega, Fabio Wajngarten, Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski.
Os dados obtidos pela Folha indicam que, de 2024 a 2025, o Master pagou R$ 18,5 milhões a Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos primeiros mandatos de Lula (PT) e ex-titular da Fazenda de Temer, e R$ 14 milhões à Pollaris Consultoria, empresa de Guido Mantega, ex-ministro na pasta econômica em gestões petistas.
O banco também informou pagamento de R$ 10 milhões ao escritório de advocacia de Temer em 2025 e R$ 6,4 milhões, desde 2023, a dois escritórios de Rueda, presidente nacional do União Brasil.
A empresa MV Projetos e Consultoria, de Marconi Perillo, ex-governador de Goiás e ex-presidente do PSDB, recebeu pagamentos de R$ 14,5 milhões entre 2022 e 2025. Perillo presidiu o PSDB de novembro de 2023 a novembro de 2025. Ele diz ter atuado de forma lícita como consultor de algumas empresas.
Duas empresas do Grupo Massa, da família do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), também aparecem nos dados. A Massa Intermediação, do pai do governador, o apresentador Ratinho, recebeu R$ 21 milhões de 2022 até 2025. O apresentador era um dos garotos propaganda do cartão de consignado do banco, o CredCesta. Já a Gralha Azul Empreendimentos e Participações, que pertence ao Grupo Massa, recebeu R$ 3 milhões em 2022, segundo o Master.
Em nota, a assessoria de imprensa do Grupo Massa afirmou que "construiu uma trajetória pautada por práticas amplamente reconhecidas pelo mercado com rendimentos declarados à Receita Federal, incluindo campanhas publicitárias e parcerias com diversas marcas e empresas". A assessoria do Grupo Massa afirma que Ratinho Junior não é sócio do grupo. O governador não quis se manifestar a respeito do pagamento de R$ 21 milhões.
Já Meirelles afirmou que prestou consultoria ao Master e encerrou seu contrato em julho de 2025. Temer afirmou ter recebido uma quantia menor por serviços prestados.
Mantega, por sua vez, disse que foi contratado como consultor econômico financeiro para o banco entre 2024 e 2025, mas que, à época, "não tinha conhecimento de irregularidades eventualmente cometidas por essa instituição financeira".
Rueda afirma que não confirma "informações baseadas em dados fiscais supostamente vazados de forma ilícita" e que o serviço prestado teve caráter estritamente técnico. "Todos os serviços prestados pelos escritórios são legais, contratados regularmente e com plena conformidade tributária", declarou em nota.
Constam ainda nos documentos da Receita pagamentos de 2022 a 2025 no valor de R$ 12 milhões à BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora do líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
O senador também aparece na lista com o pagamento de uma quantia menor, de R$ 289 mil, como pessoa física. Wagner afirma que o valor é referente a rendimento de aplicação em conta de pessoa física, que não possui CNPJ e que nunca recebeu qualquer pagamento do Master. A BN Financeira diz que prestou serviços ao Master mediante emissão de nota fiscal, entre 2022 e 2025.
Os dados da Receita mostram valores pagos pelo Master desde 2022, sem correção pela inflação, incluindo cerca de R$ 80 milhões em 2024 e 2025 para o escritório da mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, como revelou a Folha. Parte dos valores repassados pelo Master às empresas e políticos ficou retido por cobrança de impostos retidos na fonte.
A defesa de Vorcaro foi procurada, mas afirmou que não iria se manifestar.
A Lewandowski Advocacia recebeu ao menos R$ 6,1 milhões em pagamentos, que começaram em novembro de 2023. O escritório tem como sócios um filho e a mulher de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo e da Justiça do governo Lula. Ele deixou a sociedade em janeiro de 2024, dias antes de entrar no governo. O ex-ministro diz que o escritório prestou serviços de consultoria jurídica ao Master.
O banco de Vorcaro pagou ainda R$ 5,45 milhões para a A&M Consultoria Ltda, empresa do ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao Governo da Bahia ACM Neto, de 2023 até o último ano. A consultoria afirma que os serviços foram devidamente prestados e que não pode validar os valores mencionados.
Vorcaro relatou um encontro com ACM ao empresário e ex-ministro Fábio Faria. Na troca de mensagens, de 22 de maio de 2024, Vorcaro afirma: "Mas está tudo certo. Estou indo para Brasília. Amanhã acho que assina Augusto [Lima]. ACM foi lá em casa".
Foi na Bahia, estado de ACM e Jaques Wagner, que tiveram origem as carteiras falsas de crédito consignado repassadas pelo Master ao BRB, segundo investigadores do caso Master.
A WF Comunicação, que pertence ao ex-secretário de Comunicação Social do governo de Jair Bolsonaro (PL), Fabio Wajngarten, recebeu ao menos R$ 3,8 milhões do banco de Vorcaro em 2025. Ele também é considerado por Aldo Rebelo (DC) como possível vice em uma chapa à Presidência. Wajngarten diz que integra a equipe de defesa de Vorcaro e que presta serviços para o ex-banqueiro.
A Folha procurou todos os nomes citados na reportagem como beneficiários de pagamentos declarados pelo Master. Temer afirmou que prestou serviços de mediação ao ser contratado pelo banco e que recebeu dois pagamentos, de R$ 5 milhões e de R$ 2,5 milhões.
Os controladores do Banco Master e do BRB (Banco de Brasília) procuraram Temer para tentar destravar o negócio entre as duas empresas, barrado pelo Banco Central, como mostrou a Folha.
Segundo pessoas que acompanham o assunto, o ex-presidente foi procurado inicialmente pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e por dirigentes do BRB. Daniel Vorcaro também participou das discussões.
A assessoria de Rueda afirmou, por meio de nota, que os serviços jurídicos prestados são "atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia no país, sem qualquer interferência da atuação pública de Antônio Rueda em relações privadas de natureza jurídica".
Em nota, Perillo afirma que atua na iniciativa privada "de forma lícita, transparente e com dignidade como consultor de algumas empresas". Em relação a o Master, diz que o contrato se encerrou em julho de 2025 e que prestou serviços de análises de cenários "a uma empresa idônea à época da contratação, sem qualquer vínculo pessoal com os seus dirigentes ou participação em sua gestão".
Meirelles afirmou que seu contrato tinha o objetivo de prestar consultoria em assuntos de macroeconomia e de mercado financeiro. "Eu não tinha o menor conhecimento das operações do banco, fiquei sabendo pelos jornais. No começo, eles demandavam mais meus serviços, depois passaram a demandar pouco e eu rescindi o contrato em julho de 2025", disse.
Em nota, a assessoria do ex-ministro Lewandowski diz que ele retornou à advocacia após deixar o STF, em abril de 2023, e se retirou do escritório ao assumir o Ministério da Justiça no ano seguinte. O escritório passou a ser controlado por sua família e manteve contrato com o Master.
"Além de vários outros clientes, prestava serviços de consultoria jurídica ao Banco Master. Ao ser convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o Ministério da Justiça de Segurança Pública, em janeiro de 2024, Lewandowski retirou-se de seu escritório de advocacia e suspendeu o seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil, como determina a legislação vigente", afirma.
A assessoria da empresa de ACM Neto, a A&M Consultoria, afirma que "os serviços mencionados pelo jornal foram contratados de maneira lícita, transparente, e devidamente prestados" e que não pode confirmar os valores "supostamente declarados à Receita Federal por não ter tido acesso a esses dados".
A nota afirma ainda que o contrato foi firmado quando os sócios da A&M não ocupavam cargos públicos. "Foi apresentada petição à PGR (Procuradoria-Geral da República) e ao STF na qual a A&M se coloca à disposição para prestar eventuais esclarecimentos e detalhes dos serviços prestados, assim como requereu que se apurasse o vazamento de dados fiscais sigilosos", diz.
Wajngarten afirmou à Folha que foi apresentado a Vorcaro no primeiro semestre de 2025 por meio dos advogados do ex-banqueiro dele e passou a integrar a equipe de defesa, da qual faz parte até o momento. O contrato tem cláusula de confidencialidade e, por isso, não foi tornado público.
A empresa de Bonnie Bonilha, BN Financeira, afirma que os serviços ao Master "tiveram por objetivo a prospecção e indicação de operações e convênios de crédito público e privado", mediante prestação de nota, e que os dois únicos sócios são Moisés Dantas e Bonnie Bonilha.
"Não existe qualquer investigação ou apuração policial quanto ao tema, pois não existe qualquer irregularidade. Todos os recursos recebidos se deram de forma oficial, contabilizada e mediante emissão de nota fiscal, distribuídos formalmente aos sócios e declarados à Receita", afirma.
Vorcaro foi preso pela segunda vez no começo de março pela Polícia Federal sob suspeita de comandar um esquema de fraude e ameaças. Ele negocia um acordo de delação premiada.
O ex-banqueiro é conhecido na Faria Lima há anos por seu estilo expansivo de fazer negócios e patrocínios milionários a eventos. Ainda se aproximou de autoridades da cúpula dos três Poderes e adotou postura agressiva contra adversários (Folha, 9/4/26)
Vorcaro bancou modelos com jatinhos e hotéis de luxo para cortejar elite política

Montagem mostra Daniel Vorcaro durante festa em Trancoso, na Bahia, em outubro de 2022; modelos estrangeiras passaram por São Paulo e Rio de Janeiro, onde se hospedaram em endereços luxuosos e usaram jatinhos Foto reprodução UOL
· Especialistas afirmam que oferta de companhia feminina equivale a propina
· Defesa do ex-banqueiro não quis se manifestar; locais que receberam convidadas dizem que não falam sobre clientes
Por Alexa Salomão, Joana Cunha e Dani Braga
Não é lenda urbana. Uma parte importante do negócio de Daniel Vorcaro, quando dono do Banco Master, foi investir em eventos para autoridades da República com muitas mulheres —e é fato que havia moças de Rússia, Ucrânia, Lituânia, Holanda, México e Venezuela, para citar exemplos de nacionalidades.
Cruzando entrevistas, postagens em redes sociais e documentos da PF (Polícia Federal), a Folha identificou 20 dessas mulheres que participaram de festas, 14 com perfis públicos no Instagram. Procuradas pela reportagem, elas não comentaram sobre os eventos nem sobre Vorcaro.
Havia também brasileiras. Entre elas, algumas deixaram estados como o Rio Grande do Sul e Santa Catarina em busca de oportunidades e contatos para ascender profissionalmente e acabaram aceitando a oferta de apoio financeiro da equipe de Vorcaro para ficar à disposição dos eventos.
A importância desses encontros para Vorcaro e a razão da presença dessas mulheres foram definidas por ele à então noiva, Martha Graeff, durante uma discussão. Graeff estava indignada porque ele mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava "putas".
"Fazia parte do meu 'business'. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo", escreveu Vorcaro, em uma troca de mensagens datada de 18 de agosto de 2025, levantada pelas investigações em um dos celulares do ex-banqueiro.
Segundo entrevistas feitas pela reportagem com 17 executivos que foram a algum desses eventos ou ouviram relatos de quem frequentou, o mencionado "business" foi bem estruturado.
Como a Folha mostrou, Vorcaro organizou infraestrutura, equipe e logística para que seus encontros pudessem ocorrer em dias úteis à margem de eventos oficiais no Brasil e no exterior, já que seu público-alvo eram políticos e outras autoridades que precisavam retornar às suas bases e famílias nos finais de semana.
Procurada, a defesa de Vorcaro informou que não se manifestaria sobre o tema.
Muitas das modelos mantêm contato com o promotor de eventos Diogo Batista e a influencer Karolina Trainotti. Batista era visto com frequência nos hotéis de luxo Unique e Rosewood, em São Paulo.
Reportagem da Folha mostrou que Batista fazia a ponte com as modelos e participava da organização dos eventos até 2024, quando teve um desentendimento com Vorcaro. Parte do trabalho, então, foi transferida para Trainotti — a mesma que recebeu um apartamento de quase R$ 4,4 milhões, em São Paulo, da Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro e investigada pela PF.
Ambos foram procurados pela reportagem e não se manifestaram.
NOITE INDÍGENA EM TRANCOSO
As primeiras notícias sobre as festas de Vorcaro citavam eventos em Trancoso, na Bahia. Detalhes de um deles foram parar em um processo judicial sobre questões imobiliárias. Vorcaro queria discrição e alugou a casa em nome de um terceiro. A festa, porém, ficou famosa por causa do excesso de gente, barulho e avarias, que ele precisou pagar. Os convidados quebraram copos, taças, a luminária de uma das suítes e até uma cobra de madeira maciça, usada na decoração.
A Folha localizou imagens dessa festa, que ocorreu em outubro de 2022, às vésperas do aniversário do ex-banqueiro. Modelos ficaram alguns dias na casa, mas a comemoração ocorreu na terça e na quarta-feira, dias 4 e 5.
A reportagem apurou que estrangeiras vieram ao Brasil em voos de primeira classe, passaram aproximadamente um mês no país, hospedadas em endereços caros, como o hotel Rosewood, e uma casa em Joá, no Rio de Janeiro —tudo pago pelo ex-banqueiro, como mostram os orçamentos coletados pelas investigações da PF. Depois de chegar ao Brasil, elas usaram como transporte aeronaves de Vorcaro. Em Trancoso, foi utilizado o aeródromo privado Terravista. Os aviões foram fotografados e filmados por essas convidadas.
Houve dança e performance com tochas, DJ e banda de MPB e pagode com apresentação da cantora e atriz Emanuelle Araújo, que agora está no ar na novela "A Nobreza do Amor", na Globo. Procurada, a assessoria de imprensa da cantora diz que faz muito tempo, e ela não se recorda da festa. A decoração foi inspirada na Amazônia. Os convidados receberam cocares de índio para entrarem no clima. Há uma cena em que Vorcaro aparece dançando com um desses adereços.
O promotor de eventos Diogo Batista foi vestido de índio dos Estados Unidos e passou o mês acompanhando as convidadas.
BELDADES NO HALLOWEEN E NA F1
O número de mulheres foi especialmente elevado na semana que antecedeu o GP de Fórmula 1 no Brasil, em 2023, segundo relatos feitos à Folha. O Master foi um dos patrocinadores da equipe Aston Martin Aramco, por isso, tinha acesso a áreas VIP e à estrutura da equipe para receber convidados durante as corridas.
Recentemente, uma das mulheres que participaram dos eventos ganhou projeção nas redes sociais do Brasil: a russa que aparece nos contatos da agenda de Vorcaro como "My Future Wife" (minha futura esposa). Diante da repercussão na internet, ela fez uma postagem que viralizou, agradecendo o carinho do Brasil. A Folha fez contato com ela pelo Instagram, mas não obteve resposta.
A corrida ocorreu no domingo, 5 de novembro, e foi antecedida por uma festa de Halloween, na virada de terça, 31 de outubro, para quarta, 1º de novembro, que também serviu como comemoração tardia de aniversário de Vorcaro. O detalhado orçamento do evento foi de US$ 4,5 milhões, ou R$ 22,5 milhões na cotação da época, apontam os documentos da PF.
A complexa logística para trazer ao Brasil modelos e DJs famosos incluiu transfers em Verona, na Itália, Barcelona, na Espanha, e Santa Bárbara, nos EUA. Além dos voos, havia registro de uma passagem de ônibus de Kiev, capital da Ucrânia, para Varsóvia, na Polônia, indicando que entre os participantes estava alguém que atravessou a guerra na Europa.
O buffet da festa de Halloween para 190 convidados abarcou refeições internacionais e comida japonesa, das 22h às 6h. Um lote de 180 garrafas contava com champagne Dom Pérignon, além de tequila, gin e vodca premium.
Nos documentos, há também a descrição de despesa para um grupo VIP, com três concierges, dois mordomos e dois seguranças exclusivos. O gasto ainda incluiu a locação de carros blindados com motoristas por cinco dias, sinalizando que seriam utilizados para além da data da festa.
HOTÉIS DE LUXO E BARES FECHADOS
Além de eventos esporádicos, houve pontos de encontro mais usuais. Foram montados bares exclusivos na sede do Master, no Itaim Bibi, e no escritório da Titan, holding do grupo, que ficava no Edifício Birmann 32, mais conhecido como prédio da Baleia, na avenida Faria Lima, por causa da escultura do mamífero na entrada.
Hotéis de alto padrão também foram utilizados. No Fasano do Itaim Bibi, em São Paulo, que chegou a pertencer ao grupo Master, havia uma área exclusiva para receber convidados com mais discrição e quartos para quem quisesse relaxar. Pessoas próximas ao Master afirmam que Vorcaro também custeou quartos para políticos.
Muitas dessas mulheres passaram pelos hotéis Unique e Rosewood —o mais utilizado para recepcionar modelos internacionais.
As assessorias de imprensa do Hotel Fasano, do Itaim Bibi, Rosewood São Paulo e Unique não comentam sobre hóspedes.
OFERTA DE SEXO PAGO É PROPINA
Após três fases das Operações Compliance Zero, não se tem confirmação oficial de quais autoridades frequentaram eventos com mulheres, nem se de fato foram gravadas, apesar dos comentários de que há imagens de mulheres sem roupa nos equipamentos apreendidos. Também não há evidências sobre a conduta que elas tiveram nas festas, nem se houve sexo.
Um executivo com trânsito em Brasília afirmou à Folha que um grupo de investigadores até defende que as cenas são irrelevantes para um caso que trata de uma bilionária fraude financeira, mas especialistas discordam.
O senso comum espalhou a ideia de que sexo é uma questão de foro íntimo. Se os envolvidos são dos setores público e empresarial, a esfera da discussão é outra.
As leis anticorrupção dos Estados Unidos, do Reino Unido e também do Brasil não tratam do tema especificamente. No entanto, já se convencionou que oferta de serviço sexual pago a autoridade é propina. A prática equivale a pagamento em dinheiro.
"Antigamente, se considerava que corrupção envolvia pagamento de valor financeiro ou entrega de bem material, mas a legislação evoluiu e adotou a interpretação de 'vantagem indevida', bem mais abrangente —e oferta de sexo nesse tipo de festa com certeza se enquadra nisso", diz o advogado Guilherme Fance, gerente de Pesquisa e Advocacy da Transparência Internacional no Brasil.
Em paralelo, a despesa com sexo tende a ser tipificada como fraude contábil, já que não é registrada oficialmente nas contas de uma empresa.
Quem acompanha temas como exploração sexual reforça que é importante saber a condição das mulheres que participaram dessas festas.
"Mulheres adultas podem escolher como fazer sexo, e prostituição não é crime. Mas nesse caso é importante saber se houve ou não a participação de menores de idade, pois sexo com menor de 14 anos é estupro, com meninas de 14 a 18, exploração sexual", diz a advogada Luciana Temer, professora da Faculdade de Direito da PUC-SP e presidente do Instituto Liberta.
Se for comprovado oficialmente que houve uso de prostituição para Vorcaro se aproximar de autoridades e se beneficiar disso, configura-se outro crime, rufianismo, ou cafetinagem: explorar a prostituição alheia, lucrando diretamente com ela ou sustentando-se, no todo ou em parte, à custa de quem a exerce.
Os especialistas alertam ainda que, se as festas de Vorcaro de fato atraíram tantos homens que estão em cargos públicos importantes, elas sinalizam um retrocesso cultural. Segundo eles, em muitos círculos, o entretenimento sexual com luxo é usado como um mecanismo de networking masculino, com o objetivo de estreitar laços de lealdade. Quando esse tipo de moeda de troca é utilizado por autoridades de Estado, contribui para reduzir o peso das mulheres nos espaços de poder (Folha, 9/4/26)

