O crédito que começava a transformar o campo paulista – Por Rodrigo Simões
Nos registros preservados por Otacílio Tomanik, o cooperativismo paulista de quase 90 aos atrás revela uma preocupação surpreendentemente atual: aproximar o produtor do crédito, organizar informações econômicas, estruturar cooperativas e oferecer segurança jurídica para que o desenvolvimento do campo pudesse avançar sobre bases mais sólidas.
Entre as páginas datilografadas dos antigos relatórios do Departamento de Assistência ao Cooperativismo, preservados até hoje peça Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, há capítulos que impressionam não apenas pelo valor histórico, mas pela atualidade dos assuntos que registram.
Otacílio Tomanik, com o cuidado que caracteriza todo esse extraordinário acervo, dedicou parte de seu trabalho a questões que permanecem centrais para o desenvolvimento do agro: o acesso ao crédito, a organização econômica das cooperativas, a informação necessária à tomada de decisões e a assistência jurídica.
Os títulos registrados nos documentos já demonstram a abrangência daquele trabalho: “As Carteiras de Crédito Agrícola”, com referências ao Banco do Brasil, Banco do Estado e Caixa Econômica; “Ficha Econômica”; “Plano de Organização de Cooperativas de Crédito Agrícola e sua repercussão fora do Estado”; e “Assistência Jurídica”.
Lidos em conjunto, esses registros revelam algo maior. Em uma agricultura muito diferente da atual, sem a tecnologia, a estrutura financeira, os instrumentos de gestão e a velocidade de circulação das informações de hoje, já existia a compreensão de que produzir era apenas uma parte do desafio. Era preciso também oferecer instrumentos para que agricultores e cooperativas tivessem condições econômicas de desenvolver suas atividades.
É nesse contexto que o crédito agrícola ganha destaque nas páginas de Tomanik.
A preocupação com as carteiras mantidas por instituições financeiras demonstra que o financiamento do campo já ocupava espaço relevante nas discussões institucionais. O produtor precisava plantar, investir, custear sua atividade e atravessar o período existente entre o desembolso necessário para produzir e a receita obtida com a comercialização.
Quase 90 anos depois, a lógica essencial permanece reconhecível.
Naturalmente, o sistema de crédito rural brasileiro tornou-se incomparavelmente mais amplo e sofisticado. Surgiram novas instituições, linhas de financiamento, seguros, instrumentos privados, mecanismos de garantia e tecnologias capazes de tornar operações cada vez mais rápidas. Mas a pergunta que estava presente naqueles documentos continua atual: como fazer o recurso chegar ao produtor em condições que permitam transformar financiamento em produção, renda e desenvolvimento?
Há, entretanto, outro elemento especialmente interessante nos registros de Tomanik: a Ficha Econômica.
Sua presença entre os assuntos tratados demonstra uma preocupação que ultrapassava a simples concessão de recursos. Era necessário conhecer a realidade econômica, reunir informações, organizar dados e compreender as condições daqueles que participavam do sistema cooperativo.
Hoje, falar em informação para tomada de decisão parece natural. O agro trabalha com bancos de dados, indicadores de mercado, plataformas digitais, georreferenciamento, históricos produtivos e inúmeras ferramentas de gestão. Na década de 1930, porém, construir conhecimento econômico significava registrar informações manualmente, organizar fichas, comparar números e preservar documentos.
É justamente aí que o trabalho de Otacílio Tomanik ganha outra dimensão.
Cada folha datilografada, cada informação organizada e cada relatório cuidadosamente incorporado aos volumes que chegaram até nós constituíam, à sua maneira, uma tentativa de transformar fatos dispersos em conhecimento institucional. Muito antes das modernas bases de dados, alguém precisava registrar para que fosse possível compreender.
O Plano de Organização de Cooperativas de Crédito Agrícola amplia ainda mais essa perspectiva. O próprio fato de os documentos registrarem sua repercussão fora do Estado demonstra que a experiência paulista não estava sendo pensada de forma isolada. Havia uma preocupação em estruturar modelos de organização capazes de oferecer respostas às necessidades econômicas dos produtores e das sociedades cooperativas.
Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes desta edição de Memórias do Agro.
O crédito aparece não simplesmente como dinheiro emprestado, mas inserido em uma estrutura maior de cooperação, informação, organização e desenvolvimento econômico. O produtor organizado coletivamente poderia ampliar sua capacidade de negociação, estruturar melhor suas atividades e buscar soluções que individualmente seriam mais difíceis de alcançar.
É uma discussão que atravessou gerações.
O cooperativismo moderno transformou-se profundamente, profissionalizou sua gestão e passou a operar em uma realidade econômica muito mais complexa. Ainda assim, um de seus fundamentos permanece exatamente naquele princípio que aqueles documentos ajudavam a registrar: a união de produtores pode criar escala, reduzir dificuldades individuais e ampliar oportunidades coletivas.
E havia ainda outra preocupação essencial: a assistência jurídica.
Não bastava estimular a constituição de cooperativas. Era necessário ajudá-las a funcionar dentro das normas, compreender obrigações, estruturar documentos e enfrentar as questões jurídicas decorrentes de suas atividades. O apoio técnico e legal aparecia, portanto, como parte do próprio processo de fortalecimento institucional.
Novamente, o paralelo com o presente surge de maneira natural.
Quanto mais complexa se tornou a atividade agropecuária, maior passou a ser a necessidade de segurança jurídica. Contratos, crédito, relações comerciais, questões societárias, tributarias, ambientais, fundiárias e trabalhistas passaram a integrar o cotidiano de produtores e organizações. A realidade é infinitamente mais sofisticada, mas a preocupação fundamental já estava registrada: organizações fortes também precisam de bases jurídicas sólidas.
É justamente a reunião desses diferentes temas que torna este capítulo tão significativo.
Crédito agrícola. Informação econômica. Organização cooperativa. Assistência jurídica.
Não eram assuntos independentes. Juntos, formavam uma visão de desenvolvimento.
E novamente encontramos Otacílio Tomanik no centro dessa memória.
Com sua máquina de escrever e um rigor documental que atravessaria gerações, Tomanik registrava reuniões, iniciativas, propostas e resultados sem imaginar, provavelmente, que aquelas páginas seriam revisitadas quase nove décadas depois. Seus relatórios não preservaram apenas acontecimentos administrativos. Preservaram a maneira como uma geração pensava o desenvolvimento da agricultura paulista.
É por isso que esses livros têm valor muito maior do que o simples registro burocrático de uma época.
Eles mostram que muitos dos grandes debates do agro contemporâneo possuem raízes profundas. O acesso ao crédito continua determinante.
Informação continua sendo instrumento de gestão. Organização continua fortalecendo produtores. Segurança jurídica continua indispensável para investir.
As ferramentas mudaram. As instituições evoluíram. A agricultura paulista tornou-se tecnológica, profissional e conectada aos mercados nacionais e internacionais.
Mas alguns princípios permanecem.
Ao abrir esses antigos volumes preservados pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, descobrimos que parte das respostas que hoje consideramos modernas começou a ser construída muito antes de computadores, aplicativos e plataformas financeiras fazerem parte da rotina do campo.
E talvez seja justamente essa uma das maiores contribuições de Otacílio Tomanik para a memória do cooperativismo paulista: ter compreendido a importância de registrar o presente para que, no futuro, outras gerações pudessem conhecer os caminhos percorridos.
Quase 90 anos depois, aquelas páginas continuam cumprindo sua missão.
Elas não apenas contam como era o agro paulista. Ajudam a compreender como ele começou a construir as bases para chegar até aqui.
(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 27/8/26)

