27/04/2026

O grande churrasco do poder – Por Paula Sousa

O grande churrasco do poder – Por Paula Sousa

Fragmentadora de papel-Reprodução X

Imagine, por um momento, os corredores mais reservados do Planalto. O clima é de fim de expediente de um escritório que sabe que a empresa vai fechar as portas amanhã. Mas, em vez de apenas guardarem os grampeadores e desligarem os computadores, os funcionários recebem uma ordem inusitada: o estoque de materiais de escritório acaba de ganhar um reforço curioso. Estamos falando de 94 fragmentadoras de papel — máquinas potentes o suficiente para transformar qualquer dossiê em confete de carnaval — e um legítimo forno de pizza industrial.

 

Tudo começou com uma licitação. Sim, aquelas listas de compras do governo que, normalmente, ninguém lê. Mas, segundo a análise dessa teoria, este não é um pedido de compras comum. O valor, na casa dos 290 mil reais, foi tratado como "dinheiro de troco", quase nada de orçamento para a máquina pública, mas o conteúdo da lista? Ah, esse sim deu o que falar.

 

Quem trouxe a notícia à tona, atuando como o grande "mensageiro" dos bastidores, foi o colunista Lauro Jardim. No mundo da política, o Lauro é aquele que solta a dica, e os entendidos já sabem: quando ele fala, o recado chegou.

 

Se você acha que isso soa como o início de um filme de suspense político, você não está sozinho. O cenário montado na imaginação dos críticos é quase épico: enquanto o País discute o futuro, nos porões do poder, o som predominante é o ruído constante das lâminas triturando documentos. É o som do fim da linha, da tentativa desesperada de apagar rastros antes que o "próximo síndico" assuma o condomínio.

 

O forno de pizza? Ah, esse é o detalhe que eleva a trama. Não há nada mais discreto para destruir provas sensíveis do que um forno em alta temperatura. É a "pizza da corrupção" sendo assada em fogo alto, garantindo que o cheiro de queimado que circula pelos corredores não seja de massa com manjericão, mas de registros que, por algum motivo, não podem chegar à luz do dia.

 

É uma metáfora deliciosa, não acha? O governo que começou querendo mudar o mundo parece estar terminando focado em garantir que ninguém saiba exatamente o que foi feito nos últimos anos.

 

Mas a conversa ganha contornos ainda mais dramáticos quando entramos no território das alianças internacionais. O governo atual nunca escondeu sua torcida pelo retorno de Nicolás Maduro ao poder na Venezuela. E é aqui que a trama engrossa e a narrativa se torna uma espécie de "jogo proibido". Existe uma preocupação palpável — quase uma profecia — de que, quando as eleições de 2026 baterem à porta, o simples ato de mencionar essa proximidade ideológica e esse apoio explícito será tratado como uma heresia.

 

A aposta é que o tribunal eleitoral, com sua régua sempre pronta para medir o que é ou não "fake news", decretará que falar sobre o apoio a Maduro é proibido. É a censura preventiva: o eleitor poderá ver as fotos, os abraços e os discursos, mas será instruído a acreditar que tudo não passa de uma ilusão de ótica.

 

A tática parece ser transformar o passado recente em uma zona morta da memória. Se você falar sobre a economia que patina, sobre o aumento da dívida ou sobre a pressa em gastar dinheiro público como se não houvesse amanhã, cuidado: pode ser visto como um pecado capital contra a estabilidade do "sistema".

 

O governo está operando em um ritmo acelerado justamente porque sabe que a casa vai cair. É o clássico "chutar o balde" antes da mudança. Gastar, gastar e gastar, sem se preocupar com a conta, porque, no fundo, a convicção de que o tempo acabou é total.

 

A comparação com a gestão Dilma é quase obrigatória. O Estadão diz o governo atual é o "Dilma ao quadrado", uma versão piorada, onde a ineficiência estatal não é apenas um efeito colateral, mas uma política de governo. O Estado brasileiro é um gigante que não produz nada, apenas atrapalha quem quer trabalhar.

 

O clima de "guerra" é constante. O governo Lula está acuado, tentando desesperadamente montar uma linha de defesa. A chegada de uma nova gestão, que viria com a missão de fazer uma auditoria profunda — aquela "limpa" tão temida pelos ocupantes atuais dos cargos —, faz com que a compra das fragmentadoras pareça um ato de sobrevivência. É o medo do tribunal, da investigação, do escrutínio público que virá com a mudança de guarda.

 

E o que resta para o cidadão comum nesse teatro todo? Resta observar a cena. De um lado, um governo está se preparando para o inevitável, destruindo papéis e escondendo evidências. Do outro, a certeza de que 2026 será um campo minado, onde verdades desconfortáveis serão silenciadas sob o pretexto de combater a desinformação. O debate político, que deveria ser sobre ideias, projetos e o futuro da nação, transforma-se em uma briga de trituradores e fornos, onde o objetivo não é mais convencer, mas apagar.

 

No fim das contas, essa história das 94 fragmentadoras e do forno de pizza tornou-se o símbolo perfeito do nosso momento político: uma mistura de burocracia, medo, especulação e uma dose cavalar de desconfiança. Se as máquinas serão usadas para proteger segredos de Estado ou apenas para triturar notas fiscais de serviços que nunca foram prestados, talvez nunca saibamos.

 

Mas a imagem do poder, nesse final de ciclo, é a de alguém correndo contra o relógio, tentando comer sua última pizza antes que a luz do corredor seja acesa e o próximo inquilino resolva abrir todas as gavetas. O espetáculo, como sempre, continua sendo um tanto tragicômico.

 

A única certeza é que, em 2026, quem tiver uma boa memória e coragem para falar o que viu, talvez precise de algo muito mais potente que uma fragmentadora para esconder as evidências do que está acontecendo agora. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 27/4/2026)