18/02/2026

O jogo perigoso de Lula ao zombar da família conservadora

Foto Reprodução Blog GCMAIS

 

  • Provocação durante desfile no Rio é imprudência ou cálculo para consolidar candidatura de Flávio?
  • É possível sustentar que o PT continua sem entender o fenômeno evangélico?

 

Por Juliano Spyer

 

Um momento importante da eleição de 2018 ocorreu quando o então candidato Fernando Haddad chamou o bispo Edir Macedo de "charlatão". Isso aconteceu justamente quando mulheres da igreja batalhavam para que a Universal não declarasse apoio a Bolsonaro.

 

A consequência foi imediata. O restante da igreja passou a perguntar a essas mulheres: "Vocês querem mesmo eleger alguém que não gosta da gente?"

 

Talvez o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula possa ser comparado àquele episódio, agora na eleição de 2026. Evangélicos de direita poderão dizer —ou insinuar, em seus grupos: "Vocês vão votar nele, que não gosta da gente?"

 

É preciso fazer a arqueologia do simbolismo mobilizado nesse desfile.

 

No nível mais superficial, trata-se de um espetáculo que muitos evangélicos não aprovam, tanto pelo componente de sensualidade quanto pela associação com religiosidades de matriz afro.

 

Logo abaixo, há outro elemento: uma entidade —a escola de samba— que recebe dinheiro público homenageando um virtual candidato presidencial em ano eleitoral.

 

Há ainda um terceiro ponto. Parte do ensaio é dedicada a ridicularizar o candidato que obteve quase metade dos votos na última eleição. Isso no momento em que Flávio Bolsonaro, que hoje carrega o espólio político do pai, tende a ser o concorrente no segundo turno.

 

Mas existe uma camada mais profunda, ligada à sensibilidade evangélica. Fazer graça com a família conservadora de forma gratuita é oferecer munição para reproduzir o efeito Haddad —agora em escala maior. Não apenas entre fiéis da Universal, mas entre qualquer evangélico conservador nos costumes, que são quase todos.

 

Vale lembrar que Lula venceu Bolsonaro por uma fração de votos. E que uma parcela dos 30% de evangélicos que votaram em Lula em 2022 desafiou pastores e comunidades, enfrentando ambientes hostis.

 

Resta a dúvida: trata-se de arbitrariedade, de um tiro no pé, de uma imprudência, no momento que a internet e redes sociais são usadas para instigar ressentimentos? Ou de uma jogada calculada?

 

É possível sustentar que o PT continua sem entender o fenômeno evangélico? Que a equipe de conselheiros do presidente não antecipou riscos ao possivelmente ter acesso antecipado prévio ao conteúdo do desfile? Estamos falando nesse grau de amadorismo?

 

Ou pode-se dizer que o PT encontra oportunidades para demonstrar, quando as máscaras do Carnaval caem, seu desprezo pela "charlatanice" chamada protestantismo? E que Lula e seus assessores foram infelizes neste caso? Ou tudo foi calculado?

 

É possível que o grupo próximo a Lula esteja forçando a entrada de Flávio na disputa, chamando-o para o centro do ringue por considerá-lo o adversário a ser vencido? Seria uma provocação deliberada para lhe dar palco?

 

Se for esse o cálculo, trata-se de um jogo perigoso. Porque o desfile da Acadêmicos de Niterói conseguiu algo improvável antes do Carnaval: colocar Michelle Bolsonaro e Flávio do mesmo lado.

 

É um jogo arriscado —não necessariamente para o PT, mas para quem não deseja empurrar a direita inteira para o barco de Flávio (Folha, 17/2/26)