01/09/2026

O mal-estar e o campo político-democrático

O mal-estar e o campo político-democrático

Imagem ChatGPT

Por Paulo Hartung e José Antonio Martinuzzo

 

As disputas eleitorais entram em fase decisiva e com elas se pode perceber claramente uma questão contundente da atualidade: a centralidade da ambiência digital na experiência humana, agora turbinada pela inteligência artificial (IA) e seus deepfakes.

 

Nos últimos tempos, constituímos uma dimensão suplementar, digital, para o exercício de nossas faculdades intelectuais e afetivas, ou seja, para o próprio viver. Passamos, assim, a coabitar as dimensões presencial e informacional. Ocorre que a vivência digital vem aumentando seu protagonismo no nosso dia a dia, o que impõe desafios tão inéditos quanto complexos, repercutindo, inclusive, no campo político-democrático.

 

Um primeiro ponto a se observar é que a digitalidade opera de forma radical na lógica da economia da atenção – o que a informação consome é atenção, e quanto mais informação consumimos, mais pobres ficamos de atenção, recurso escasso e limitado. Assim, mover-se de modo “relevante” pelos “ciberterritórios” é entrar numa disputa acirradíssima pelo olhar alheio – e essa batalha tem escalado a práticas antidemocráticas, antirrepublicanas e anti-humanísticas, num vale-tudo sem precedentes.

 

É incessante a busca por contundência midiática, no espírito do que Christoph Türcke definiu como “sociedade excitada”. De sensação em sensação, a existência corre num sem-tempo para pensar, só para sentir.

 

Além de inóspita à política, porque baseada mais em emoção do que em racionalidade, essa digitalidade excitada ainda lhe impõe outros dois desafios. Trata-se do instantaneísmo, temporalidade reduzida ao presente fatiado em múltiplos “agoras”, e do neofilismo, que faz da novidade e da atualização um verdadeiro fetiche da experiência digital.

 

Em recente artigo, Fareed Zakaria aponta que os “governos estão fracassando em atender às expectativas modernas”, salientando que “a democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade”.

 

Ainda que vivamos numa “sociedade excitada”, não devemos esperar que a política seja fonte de sensações em interminável sucessão de cortes na internet. O que se requer são lideranças e atitudes consequentes, capazes de pautar debates, promover convergências e efetivar decisões. Ou seja, a política não deveria prometer a entrega de excitação em tempo real. Mas o que é trágico pode piorar. Mudanças tecnológicas disruptivas costumam despertar sensações que vão além do encantamento.

 

O contexto de mutação sociotécnica, quando se liquefaz o que era “sólido” e as incertezas desfocam a nitidez do horizonte, pode incrementar ainda mais a sensação de desamparo – estrutural do humano, como já diagnosticou Freud. Revoluções tecnológicas “sempre geram profunda ansiedade e medo”, pontua Zakaria.

 

Agora, some-se a esse fenômeno um cenário de incertezas, marcado por guerras, protecionismos, catástrofes climáticas – e, no caso do Brasil, piorado pelo apego à repetição de erros e insistência em radicalização político-ideológica.

 

O que temos é um cenário de desalento e desesperança, em que muitas vezes se buscam panaceias existenciais exatamente no mundo excitante das redes, num círculo vicioso profundamente hostil à política consequente. Cobrados a se aclimatar, políticos mergulham de cabeça numa lógica que não lhes pertence, colocando-se, inclusive, como redentores do desamparo extremado. Mas nem eles, na radicalidade de proposições e performances, conseguem entregar os governos que prometem nas redes.

 

Ao contrário, produzem desapontamento e rejeição, atiçando, conforme Zakaria, uma “fúria dos eleitores ao redor do mundo”. E, para compensar tamanha “frustração”, mais do mesmo populismo digital e suas promessas inexequíveis.

 

Apontando uma “ruptura da relação institucional entre governantes e governados”, Manuel Castells afirma que, “na prática, só existe a política que se manifesta no mundo midiático multimodal”. E alerta que a democracia liberal está deixando de existir “no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos”.

 

Inegavelmente, a política de base democrática precisa se atualizar, mas isso deve ser feito criando-se uma sinergia entre capacidades técnicas e práticas políticas republicanas. O que precisamos é um combo de ampla alfabetização digital e urgente letramento político.

 

Isso equivale a dizer que o investimento no revigoramento da política passa, sim, pela reconstrução dos laços de interação e diálogo com os cidadãos e pela atualização das instituições, mas também depende fundamentalmente do investimento na educação para a vida política e seus valores civilizatórios fundamentais. Inexiste receita pronta e acabada para seguir nesse caminho, porém não há outro rumo a se tomar.

 

Nesse contexto, sob uma complexa economia da atenção e num tempo de mal-estar difuso, o desafio é que o debate eleitoral não desperdice a oportunidade de discutir sobre oportunidades e desafios da digitalidade para o campo político-democrático de base republicana. Em ambiente tão novo quanto árido, que sejamos capazes de fazê-lo progredir entre nós.

 

(Paulo Hartung é economista, presidente-executivo da Ibá, membro do Conselho Consultivo do RenovaBR, foi governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018); José Antonio Martinuzzo é professor titular na Universidade Federal do Espírito Santo, pós-doutor em Psicanálise (UERJ), é doutor em Comunicação (UFF); Estadão, 1/9/26)