07/01/2026

O preço da tua opinião: O plano para salvar o banco Master-Por Paula Sousa

O preço da tua opinião: O plano para salvar o banco Master-Por Paula Sousa

 A pirâmide do Banco Master. Imagem Reprodução Blog Revista Piauí

Se você sentiu um cheiro estranho vindo das redes sociais nos últimos dias, não foi o seu algoritmo que enlouqueceu. O que você sentiu foi o fedor de uma das campanhas de manipulação mais caras, cínicas e bem orquestradas que o Brasil já viu. Estamos falando do chamado "Projeto DV", uma operação de guerra narrativa desenhada para uma única missão: transformar o Banco Master, um gigante cercado de suspeitas, em uma "vítima" do sistema.

 

Este escândalo não nasceu nas sombras, não são vozes da minha cabeça, mas explodiu através da coragem de vozes que se recusaram a baixar a cabeça para o dinheiro fácil. O que você lerá a seguir é o resultado de uma teia de denúncias fundamentada por jornalistas da grande mídia como Malu Gaspar, Andréia Sadi, e trazida à tona por influenciadores e figuras públicas como o vereador Rony Gabriel, Juliana Moreira leite, entre outros. Eles deram o primeiro passo ao expor as entranhas de uma operação milionária que tentou sequestrar a verdade, servindo de base para este artigo sobre o Projeto DV.

 

Prepare-se, porque o que você vai ler agora é de embrulhar o estômago, um roteiro de como o dinheiro de um banqueiro tentou — e, em muitos casos, conseguiu — comprar a língua de quem você segue, o julgamento de tribunais e, por tabela, a sua indignação.

 

A liquidação que tirou o sono de Brasília

 

Para entender o escândalo, precisamos voltar ao ponto de partida. O Banco Central (BC), que é quem manda no parquinho do sistema financeiro, resolveu fazer o seu trabalho. Ao olhar para dentro do Banco Master e de seus negócios, o BC encontrou motivos suficientes para decretar a liquidação extrajudicial. Em bom português: "vamos fechar essa birosca antes que o estrago aumente".

 

A liquidação não acontece porque o BC acordou de mau humor. Ela acontece quando há indícios graves de que o dinheiro ali dentro está sumindo ou sendo mal usado. Mas, para o dono do banco, Daniel Vorcaro, e sua tropa de choque, a verdade era um detalhe irrelevante. O que importava era criar uma fumaça tão grande que ninguém conseguisse ver o buraco nas contas.

 

Dezembro de 2025: Começa o feirão da dignidade

 

A estratégia foi montada com a precisão de um relógio suíço, mas com a moralidade de um cassino clandestino. No dia 19 de dezembro, surge a primeira peça do quebra-cabeça: uma matéria no portal Metrópoles sobre um despacho do Tribunal de Contas da União (TCU). O texto falava que o TCU via "indícios de precipitação" na ação do Banco Central.

 

Essa palavra — "precipitação" — foi o ovo da serpente. Ela virou a palavra de ordem. Não importava se o banco estava quebrado ou se havia fraudes; o importante era martelar na cabeça do público que o Banco Central foi "apressadinho demais".

Mas como fazer essa ideia chegar ao povo? Simples: comprando os seus "ídolos" da internet.

 

No dia 20 de dezembro, agências de marketing de influência, como a UNLTD e o GrupoBR, iniciaram um verdadeiro "salvamento" de fim de ano. Começaram a caçar influenciadores, principalmente aqueles que arrotam independência e combate ao sistema, tanto na direita quanto na esquerda. A proposta era obscena: valores milionários para que eles postassem vídeos criticando o Banco Central.

 

O contrato do silêncio e a multa de R$ 800 Mil

 

Aqui o esquema atinge o nível máximo. Para participar do "Projeto DV", o influenciador não podia apenas aceitar o dinheiro e falar o que queria. Ele precisava assinar um contrato de confidencialidade (NDA). O objetivo era garantir que ninguém descobrisse que aquela "opinião sincera" sobre o mercado financeiro tinha sido paga com o dinheiro do próprio banco liquidado.

 

Quem assinasse e desse com a língua nos dentes teria que pagar uma multa de R$ 800 mil. É fascinante, não é? O influenciador finge que está te informando, mas na verdade está lendo um roteiro escrito por uma agência de crise, protegido por um contrato que o proíbe de admitir que é um mercenário.

 

Alguns, como o vereador Rony Gabriel e a influenciadora Juliana Moreira Leite, tiveram a decência de recusar e, mais do que isso, de denunciar. Mas e o resto? Entre o Natal e o réveillon, o Instagram e o TikTok viraram um festival de "especialistas em economia" brotando do nada.

 

O efeito manada: "O Banco Central errou!"

 

No dia 28 de dezembro, a internet foi inundada. De repente, pessoas que mal sabem calcular o juro do próprio cartão de crédito estavam preocupadíssimas com a autonomia do Banco Central e com a "justiça" para com o Banco Master.

 

O roteiro era sempre o mesmo: citavam a matéria do Metrópoles, falavam do TCU e usavam aquele tom de "descobri uma conspiração". Diziam que o Master estava sendo perseguido porque "incomodava os grandes bancos". Uma narrativa linda, se não fosse comprada com o dinheiro que deveria estar garantindo a saúde financeira da instituição.

 

O "tapetão" no TCU: A política contra a técnica

 

Enquanto os influenciadores faziam o barulho na internet, o plano avançava no tapetão de Brasília. O Ministro Jonathan de Jesus, do TCU, ignorou os alertas da própria área técnica do Tribunal — que dizia que mexer na liquidação era um erro — e deu 72 horas para o Banco Central se explicar. Ele chegou a ameaçar suspender a liquidação com "máxima urgência".

 

Por que essa pressa toda para salvar um banco liquidado? A resposta é o medo. Daniel Vorcaro não é apenas um banqueiro; ele é um arquivo vivo. Se o banco cai e as investigações avançam, muitos nomes poderosos da política podem ser arrastados junto. O objetivo de suspender a liquidação não é salvar o banco, é parar as investigações. É garantir que os documentos e provas fiquem bem guardados antes que o BC coloque as mãos em tudo.

 

O prejuízo: Quem vai pagar a conta?

 

Aqui é onde a piada perde a graça. Você pode achar que isso é briga de gente rica e que não te afeta. Errado.

O Banco Master tem em suas mãos cerca de R$ 1,86 bilhão vindos de fundos de previdência de Estados e municípios (os chamados RPPS). Isso é dinheiro de aposentadoria. É o dinheiro que deveria pagar o sustento de milhares de servidores públicos que trabalharam a vida toda.

 

Detalhe crucial: esse tipo de investimento não é coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Se o banco quebra ou se o dinheiro some em manobras jurídicas, o prejuízo é direto no bolso do aposentado. Mas os influenciadores milionários não te contaram isso no vídeo de 60 segundos, não é? Eles estavam ocupados demais contando o dinheiro do "Projeto DV".

 

O colapso da confiança

 

Se o TCU realmente decidir, no dia 21 de janeiro, suspender a liquidação para beneficiar Vorcaro, o Brasil assina seu atestado de república de bananas. Quem vai ter coragem de investir em um País onde o órgão regulador (BC) é atropelado por uma decisão política para salvar um banqueiro amigo do poder?

 

Isso cria um risco sistêmico. Se a lei não vale para o Banco Master porque ele tem amigos influentes e dinheiro para comprar narrativas, ela não vale para ninguém. É o caos financeiro disfarçado de "preocupação técnica".

 

De quem é a voz que você ouve?

 

Este escândalo é um divisor de águas. Ele mostra que a informação descentralizada, que deveria nos libertar da mídia tradicional, virou uma ferramenta de aluguel. O "Projeto DV" provou que é possível fabricar uma opinião pública em larga escala se você tiver alguns milhões de reais e um bando de gente sem escrúpulos disposta a ler um roteiro.

 

Agora, fica o desafio para você, leitor. Olhe para trás, veja os vídeos que você consumiu entre o final de dezembro e o início de janeiro. Veja quem foi que, do nada, começou a defender o Banco Master ou a atacar o Banco Central com palavras difíceis e ares de mistério.

 

A pergunta que fica não é se o banco vai sobreviver, mas sim: quanto custou o silêncio e a mentira do seu influenciador favorito? Porque, enquanto eles engordam as contas bancárias com o dinheiro da crise, o futuro da previdência de milhares de brasileiros está por um fio no plenário do TCU.

 

O teatro está montado. As máscaras estão caindo. Só não se deixe levar pelos aplausos pagos. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 7/1/2026)

 



Caso Master: influenciadores dizem que receberam propostas para criticar BC

Jussara Soares. Foto YouTube

 

Por Jussara Soares

 

Influenciadores dizem ter sido procurados por representantes de empresas que atuam com marketing digital no final de 2025 para fazerem publicações e divulgarem informações questionando a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central.

 

As denúncias foram feitas por Rony Gabriel, vereador de Erechim pelo PL, e pela jornalista Juliana Moreira Leite, ambos influenciadores de direita. Ele tem cerca de 1,7 milhão de seguidores no Instagram, enquanto ela é acompanhada por 1,4 milhão de pessoas na plataforma.

 

Em uma publicação nas redes sociais, Rony revelou ter sido procurado no dia 20 de dezembro por um representante de uma empresa para fazer o “gerenciamento de reputação e gestão de crise para um grande executivo”.

 

No contato, o representante da agência UNLTD Brasil dizia estar “contratando perfis que se posicionam para nos ajudar nessa disputa política em que estamos travando contra o sistema”. E reforça: “É um caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e centrão envolvidos”.

 

Ao fazer a proposta, o representante, em conversa com um assessor do vereador, disse que precisava assinar um contrato de confidencialidade para avançar nos detalhes. A multa por romper o sigilo é de R$ 800 mil.

 

No documento a que a CNN teve acesso, a proposta é denominada “Projeto DV”. Para o vereador, as iniciais correspondem ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

 

“Para mim, a proposta era para criar uma narrativa de que o Master é uma vítima do Banco Central e dizer que a liquidação foi feita de forma muito rápida. Se ninguém abrisse a boca, a investigação não iria avançar”, disse Rony à CNN. Segundo ele, a proposta era milionária, embora afirme não ter negociado valores.

 

A jornalista e influenciadora Juliana Moreira Leite também afirmou ter sido procurada pela empresa Portal Group BR com uma proposta similar. A CNN teve acesso a áudio e print da abordagem.

 

No áudio, o representante da agência dizia ter um cliente que precisa divulgar várias matérias “no âmbito político e financeiro”. Ele manda também um print de uma reportagem que diz que “o TCU vê indícios de precipitação em liquidação e dá 72 horas para o BC se explicar”. De acordo com o representante, o intuito seria o de propagar matérias como essa para alcançar mais pessoas.

 

“Eu não aceitei. Eu me senti enojada, mas depois vi muitas publicações nesse sentido fazendo esse trabalho. Não posso afirmar que receberam dinheiro”, disse à CNN.

 

Procurada, a UNLTD Brasil afirmou “não ter contrato com o Banco Master”. Já o Portal Group BR disse ser uma agência contratada por outra agência “apenas para a indicação de influenciadores”. E acrescentou que “que nenhum dos influenciadores por nós agenciados possui qualquer contrato, vínculo ou obrigação relacionada ao escopo mencionado na matéria”.

 

A CNN Brasil procurou o Banco Central e o Banco Master para obter esclarecimentos, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

 

Em nota, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) afirmou que, no fim de dezembro, “foi identificado um volume atípico de menções à entidade e a seus representantes, associadas ao noticiário sobre a liquidação de uma instituição financeira”.

 

A federação informou que analisa se esse movimento pode caracterizar um eventual ataque coordenado e observa que, nos últimos dias, houve redução significativa desse volume.

 

A Febraban esclareceu ainda que não faz monitoramentos específicos sobre postagens envolvendo outras instituições ou autoridades, como o Banco Central e seus dirigentes. Os levantamentos realizados são “para consumo interno e não são divulgados” (CNN Brasil, 6/1/26)

 



Pelo menos 46 perfis da internet fazem ataques simultâneos a BC e investigadores do caso Master 

 

  • Banco Central virou alvo ao barrar compra do Master pelo BRB
  • Ataques aumentaram com início de guerra jurídica no STF e TCU

 

A prática já vinha sendo observada durante o processo de análise pelo órgão regulador da venda do banco para o BRB (Banco de Brasília), mas cresceu nos últimos dias em meio à guerra jurídica no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União) travada entre os investigadores e os advogados do Master.

 

Os influenciadores vêm publicando posts com informações enviesadas sobre os acontecimentos em torno da liquidação do Master, com críticas à atuação do BC e à liquidação do Master.

 

Procurados por meio de sua assessoria, o Banco Master e Vorcaro não se manifestaram.

 

Chama a atenção o fato de que boa parte dos perfis de influenciadores recrutados serem de fofoca, sem ligação com assuntos econômicos.

 

O ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, é um dos principais alvos. Foi a área dele que recomendou o veto à compra do BRB pelo Master e subsidiou os achados posteriormente relatados ao Ministério Público Federal.

 

A ofensiva digital também mira o presidente do BC, Gabriel Galípolo, seus familiares, o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino Santos, além de banqueiros e associações do setor financeiro que organizaram uma contra-ofensiva em defesa da autoridade monetária por meio de uma série de notas de apoio à decisão técnica de liquidar o Master em novembro.

 

Numa postagem de quatro dias atrás no Instagram, em 2 de janeiro, o perfil @divasdohumor relata que a gestão de Renato Gomes no BC deixou um cenário de instabilidade no mercado financeiro. "Mudanças regulatórias frequentes, interpretações voláteis das normas e ausência de sinalização clara ampliaram a insegurança jurídica", diz a postagem. Gomes deixou a diretoria do BC em 31 de dezembro.

 

"O papel do Banco Central é reduzir incertezas. Quando decisões são mal explicadas, o efeito se espalha por todo o sistema, atingindo grandes instituições e também o crédito na ponta", acrescenta a postagem. A publicação anterior do perfil trata de uma conversa entre Nicole Bahls e Gil do Vigor, e a seguinte, do papel das tias na educação de crianças.

 

Procurado, Gomes não quis comentar. A interlocutores, o ex-diretor tem dito que não tem como "dignificar as besteiras" que têm sido publicadas.

 

Antes da rejeição da compra do Master pelo BRB, uma foto do diretor foi exposta em outdoors espalhados pela cidade de Brasília como uma forma de pressão. A estratégia acabou ampliando o espírito de corpo no colegiado do BC, que, por unanimidade, acatou o parecer de Gomes e vetou o negócio em setembro.

 

O presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Isaac Sidney, também ficou na mira. A entidade fez um mapeamento sobre os ataques sofridos por ela e afirmou, em nota, que identificou volume atípico de postagens em dezembro que a mencionam. Disse, ainda, que está analisando se o caso poderia ser caracterizado como um ataque coordenado.

 

Outro perfil que participa da ofensiva contra o BC é o @Festadafirma. Em 31 de dezembro, ele postou um conteúdo sobre o caso na sua página do Instagram sobre os depoimentos prestados naquele dia por Vorcaro e pelo presidente do BRB à PF (Policia Federal). A página é administrada pela Banca Digital, agência de marketing na internet.

 

A Banca Digital informou que foi procurada para divulgar conteúdo sobre o Banco Master, mas que declinou o convite na hora. A empresa afirmou que a postagem do perfil @Festadafirma "foi um post orgânico sobre um tema pertinente aos tratados na página. Não houve nenhum tipo de negociação ou remuneração para que esse conteúdo fosse publicado".

 

"O @festadafirma também, no último 18 de novembro, repercutiu reportagem sobre a liquidação do mesmo banco, publicada pelo 'Valor Econômico'", acrescentou. O perfil @Festadafirma, prosseguiu, tem um contrato de representação prioritária com a Banca Digital, na qual ela representa comercialmente o perfil, "que também pode fechar parcerias e trabalhos por conta própria".

 

A publicação reproduz um texto do site Notjournal, que mimetiza um site jornalístico, dizendo que na acareação entre os dois, ocorrida após os depoimentos, não houve bala de prata. Ele usa o ocorrido para criticar a atuação do Banco Central, afirmando que se houvesse uma fraude escandalosa ela teria sido exposta na acareação.

 

A postagem é semelhante à outra feita no mesmo dia pela página Futrikei, que tem mais de 25 milhões de seguidores. "A tão aguardada acareação no caso do Banco Master terminou sem o impacto que muitos esperavam. O confronto entre o banqueiro Daniel Vorcaro e testemunhas durou cerca de 40 minutos e não apresentou provas contundentes nem revelou novos fatos decisivos", diz o texto.

 

A página é agenciada por uma outra empresa semelhante à Banca Digital, o Grupo Farol. Outro portal do grupo, o Alfinetada, postou conteúdo contra o ex-diretor do BC Renato Gomes em 30 de dezembro, dizendo existirem especulações de que ele poderia ir para o BTG.

 

Outra agência com páginas participando da ofensiva é a Deubuzz. A reportagem encontrou quatro perfis de fofoca administrados pela empresa que postaram conteúdo contra Gomes no mesmo dia 2 de janeiro. Procuradas, Deubuzz, Grupo Farol e Banca Digital não responderam aos questionamentos da reportagem até o momento.

 

Empresas como as três administram diversos perfis em redes sociais, alguns próprios, outros de terceiros. Eles vendem espaços nesses perfis para postagens coordenadas, criando campanhas massivas na internet.

 

O jornal O Globo revelou que influenciadores tinham sido procurados para postar conteúdo a favor do Banco Master e rejeitaram a proposta. Nos dois casos apontados pelo jornal, o conteúdo a ser postado faria parte de um projeto chamado DV, as iniciais do dono do banco Master, Daniel Vorcaro.

 

A reportagem cita o vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL), que disse ter sido procurado em 20 de dezembro com uma proposta para participar da campanha. "Estamos fazendo um trabalho de gerenciamento de crise para um executivo grande. E temos contratado perfis que se posicionam para nos ajudar nessa disputa política que estamos travando contra o sistema", dizia a mensagem enviada para o vereador. O trabalho teria remuneração milionária (Folha, 7/1/26)

 



Quem está por trás do Alfinetei, que participou de ataques nas redes contra o BC no caso Master 

 

Página tem sócios ligados a ao menos cinco empresas registradas e a uma rede de perfis que somam quase 40 milhões de seguidores no Instagram; Procurados, os sócios não retornaram

 

STF e TCU tomam decisões que podem levar a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro a reverter o caso na Justiça. 

 

A página Alfinetei, que reúne 25,3 milhões de seguidores no Instagram, integra um grupo de perfis de entretenimento e “fofoca” que participou da ofensiva coordenada nas redes sociais contra o Banco Central (BC) no fim de dezembro, em meio à repercussão da liquidação do Banco Master. Por trás da página estão três sócios, ligados a ao menos cinco empresas registradas formalmente e a uma rede de perfis que somam quase 40 milhões de seguidores.

 

O principal nome do grupo é João Guilherme Chagas Gabriel, apontado como sócio-administrador das cinco empresas citadas. No perfil pessoal do Instagram — privado, com cerca de 254 mil seguidores — ele publica fotos de viagens e da vida pessoal, e se apresenta como CEO de seis páginas, embora nos registros formais constem cinco. A sexta, chamada “Notícias”, se define como “portal de notícias e mídia sobre Brasil e Mundo”, mas não aparece entre as empresas registradas em seu nome. Procurados, os sócios não retornaram.

 

A Alfinetei é a maior vitrine do grupo. O perfil publica conteúdos de grande alcance que misturam política, temas institucionais e fofocas sobre celebridades, frequentemente acompanhados por selo de divulgação de uma casa de apostas, apontada na bio como embaixadora da página.

 

“Somos um grupo de criadores, redatores e curiosos da cultura pop brasileira e internacional dispostos a compartilhar as últimas novidades através das redes sociais. Nos caracterizamos por levar as últimas notícias de um jeito descontraído, destacando sempre as alfinetadas dos famosos. Aqui você encontra conteúdo para esquecer do dia a dia e para mostrar que suas celebridades favoritas são tão humanos como a gente”, diz a descrição do site.

 

Foi a Alfinetei uma das contas que publicaram ataques à atuação do BC na liquidação do Master. O tipo de conteúdo em sites voltados a celebridades trouxe desconfiança até de alguns internautas, que fizeram questionamentos no campo de comentários.

 

Outro sócio é Marcos Almeida de Lima, sócio-administrador das empresas ligadas às páginas Alfinetei e Babadeira. Ambas estão sediadas em Uberlândia (MG). A Babadeira se descreve como um espaço de notícias sobre famosos e entretenimento. Marcos Almeida tem 179 mil seguidores no Instagram e publica registros de viagens à Europa e fotos ao lado de artistas.

 

Um terceiro sócio é Marcos Vinicios Fernandes da Silva, conhecido nas redes como Vinicios Milhomem, que soma 848 mil seguidores no Instagram. Seu conteúdo costuma trazer vídeos em que aparece ingerindo bebidas enquanto lança perguntas aos seguidores — de situações cotidianas a temas políticos — para estimular comentários e engajamento. Ele figura como sócio de três empresas: Seu Filme Favorito Ltda., Seu Dorama Favorito Ltda. e Histórias Chocantes Ltda.

 

As duas primeiras mantêm perfis no Instagram voltados à curadoria de trechos de filmes, séries e doramas, com descrições genéricas. As três empresas estão sediadas no mesmo endereço, em São Paulo, e têm como sócio-administrador João Guilherme. Apesar do nome, não há um perfil identificado no Instagram com a marca “Histórias Chocantes”.

 

BC foi alvo de ataques coordenados

 

Um levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), obtido pelo Estadão/Broadcast, apontou um pico de 4.560 publicações em 27 de dezembro, dentro de uma ofensiva concentrada em 36 horas contra instituições envolvidas na liquidação do Banco Master — operação decretada pelo BC em novembro e sob análise do Tribunal de Contas da União (TCU).

 

A maior parte dos disparos ocorreu no Instagram, além de X (antigo Twitter), Facebook e YouTube, com indícios de impulsionamento por robôs. Alguns influenciadores foram às redes dizer que foram procurados para criticar a atuação da autoridade monetária no caso.

 

Um dos posts que viralizaram foi da própria Alfinetei, com montagem e título que ironizavam a rapidez da liquidação.

É difícil identificar claramente quem está por trás desses disparos, que buscavam viralização, já que eram feitos em perfis com milhões de seguidores (Estadão, 7/1/26)