20/01/2026

O sacrifício do amigo: Toffoli é a bola da vez no STF – Por Paula Sousa

O sacrifício do amigo: Toffoli é a bola da vez no STF – Por Paula Sousa

Ministro Dias Toffoli  e presidente Lula da Silva. Fotos STF/Divulgação e Nelson Almeida/AFP

 

A política em Brasília não é para qualquer um, mas o que estamos assistindo agora é um espetáculo de traição que faria qualquer vilão de novela corar. O "sistema", aquele grupo seleto que habita os palácios e tribunais, acaba de provar que a lealdade ali tem a validade de um iogurte esquecido no sol. A vítima do momento? O ministro Dias Toffoli.

 

A reunião do "basta"

 

Dizem que as paredes do Palácio do Planalto falam, e o que elas sussurraram após a última reunião de cúpula entre Lula, Alexandre de Moraes e a Polícia Federal foi um veredito claro: o estoque de "panos" para as polêmicas de Toffoli acabou. O consenso é que o ministro se tornou um peso morto que ameaça arrastar toda a instituição para o abismo.

 

O plano é simples e cruel: jogar toda a carga negativa nas costas de Toffoli para limpar a barra dos outros. É o famoso "sacrifício tático". Para salvar a pele do projeto de poder de Lula e a imagem de "xerife da democracia" de Alexandre de Moraes, decidiram que Toffoli será o boi de piranha.

 

Até a mídia mudou o disco

 

O mais impressionante — ou melhor, o mais cômico — é observar a ginástica mental da imprensa brasileira. Aquela mesma mídia que, até ontem, tratava qualquer crítica a um ministro do STF como um "ataque antidemocrático", agora parece ter recebido o sinal verde para o abate.

 

Míriam Leitão, no jornal O Globo, subitamente descobriu que as decisões de Toffoli são "inusitadas" e prejudiciais. O Estadão não ficou atrás, publicando que o ministro "não cansa de tomar decisões heterodoxas" e que ele pode levar o STF para o buraco. Já no jornal A Folha de S. Paulo, as matérias escancaram as ligações perigosas entre um resort da família do ministro e os fundos do Banco Master.

 

Até pouco tempo, apontar o dedo para um ministro era crime de "lesa-pátria". Agora, o colunista Lauro Jardim fala abertamente em um "consenso em Brasília" para que Toffoli deixe a relatoria do caso Master. O que mudou? Simples: ele não é mais útil. Pelo contrário, virou um estorvo.

 

O caso Master e o "batom na cueca"

 

Toffoli, em uma série de manobras “criativas”, tentou peitar a Polícia Federal e intimidar o Banco Central. Mas o tiro saiu pela culatra. A lama respingou tão forte que o cheiro chegou ao Gilmar Mendes, que, percebendo que a água bateu no pescoço, tratou de tirar o seu da reta.

 

A verdade é que ninguém mais quer ser visto ao lado dele. As suspeitas de que o ministro estaria "vendido" — seja por dinheiro, seja pelo medo de ter seus segredos expostos — tornaram-se o assunto principal nos corredores do poder. Quando a imprensa começa a citar "conflito de interesse" e ligações com resorts e fundos fraudulentos, você sabe que o destino do sujeito já foi traçado naquelas jantas regadas a vinho caro em Brasília.

 

Dois pesos, duas medidas

 

O mais engraçado é quando comparamos a situação de Toffoli com a de Alexandre de Moraes. Moraes inventou um monte de "inovações" jurídicas para perseguir bolsonaristas, ignorou suspeições óbvias e agiu como vítima, acusador e juiz. Mas, na época, a patota batia palma. "Vai lá, Xandão!", gritavam.

 

Agora, quando Toffoli usa as mesmas táticas — a tal "jurisprudência Moraes" de bater no peito e dizer "quem manda aqui sou eu" — para favorecer o Banco Master, aí não pode. A diferença é que as lambanças de Toffoli não servem mais para proteger o sistema, elas apenas o expõem. Me parece que a ordem é queimar o Toffoli para salvar o Moraes e o Lula.

 

A ilusão da lealdade

 

Para quem ainda acredita em amizade no topo da cadeia alimentar de Brasília, a realidade é um balde de água gelada. No sistema, a única regra é a sobrevivência. Se for necessário entregar a cabeça de um aliado de longa data para acalmar os ânimos da opinião pública e garantir que as investigações não cheguem aos "peixes maiores", eles o farão sem piscar.

 

A estratégia agora é empurrar Toffoli para uma "saída honrosa", provavelmente alegando problemas de saúde, para que ele largue a relatoria do caso Master. Se ele não aceitar, o próximo passo será a humilhação pública no plenário do STF, com seus próprios colegas votando contra ele para mostrar que o tribunal "preza pela ética". É de uma hipocrisia de dar náuseas.

 

O fim da linha

 

A tentativa de destruir a Lava-Jato para salvar a pele de gente como o "amigo do amigo do meu pai" parecia ter funcionado. Eles acharam que, com o Lula de volta e o controle das instituições, a festa seria eterna. Mas a corrupção é estrutural, e o governo está caindo de podre tão rápido que nem o "Inquérito do Fim do Mundo" consegue segurar todas as pontas.

 

Lula pode até ter se livrado da cadeia pelos crimes do passado, mas o escândalo do INSS e as digitais no caso Master mostram que o crime não descansa. Toffoli achou que estava protegido pelo manto da impunidade, mas esqueceu que, no jogo do poder, você é apenas uma peça descartável.

 

No fim das contas, a queda de Toffoli — seja por renúncia ou impeachment — não é uma vitória da justiça, mas uma prova de que o sistema está em canibalismo. Eles estão se devorando para que a estrutura permaneça de pé. Para nós, resta apenas assistir de camarote a essa novela, esperando que, no processo de fritura do Toffoli, o fogo acabe se espalhando para o resto da cozinha (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 20/1/2026)