06/03/2026

O Senado de joelhos: O escudo de Alcolumbre - Por Paula Sousa

O Senado de joelhos: O escudo de Alcolumbre - Por Paula Sousa

Senador Davi Alcolumbre (União/AP). Foto Reprodução Fábio Rodrigues Pozzebon Agência Brasil

 

Esqueça o que está acontecendo no Oriente Médio. Enquanto o mundo observa as tensões entre EUA, Israel e Irã, o Brasil vive um conflito muito mais insidioso, doméstico e, francamente, mais podre. Em questão de dois dias, fomos atropelados por uma avalanche de mensagens, sigilos quebrados e nomes que fazem a espinha dorsal de qualquer cidadão honesto gelar. O caso do Banco Master, de Vorcaro, e as revelações sobre a cúpula do Judiciário e do governo federal não são apenas um "escândalo"; são o diagnóstico de uma metástase institucional.

 

E no centro desse furacão, tentando manter a tampa da panela de pressão fechada com as próprias mãos, está Davi Alcolumbre.

 

O "partido" STF e a justiça de balcão

 

Vamos ser diretos: o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de ser uma corte de justiça há tempos. Para o observador atento, está claro que se tornou um partido político. Um partido que não concorre às eleições, mas que, na prática, dita as regras do jogo, persegue adversários e, acima de tudo, blinda seus próprios membros.

 

O blog de Claudio Dantas tem trazido à luz um cenário aterrador. Esqueça o "crime de hermenêutica"—aquela desculpa esfarrapada de que um juiz não pode ser punido por sua interpretação da lei, por mais bizarra que seja. O que estamos vendo agora é sobre dinheiro. É sobre contas bancárias, contratos milionários e o uso do poder estatal para salvar amigos da falência.

 

O caso de Alexandre de Moraes e o Banco Master é o exemplo perfeito. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram uma proximidade que deveria, no mínimo, causar a suspeição imediata do magistrado. Informações vazadas indicam que o grupo sabia da liquidação do banco e da prisão de seus envolvidos antes mesmo de acontecerem. E, pasmem, houve um esforço coordenado para "bloquear a parada". Quando a política encontra o direito de forma tão promíscua, a Constituição deixa de ser a carta magna e vira papel higiênico.

 

A omissão como política de estado

 

É aqui que entra o papel de Davi Alcolumbre. O senador, que deveria ser o guardião das prerrogativas do Senado, transformou a presidência da casa em um bunker para proteger o STF e o governo Lula. A estratégia é simples, porém grotesca: engavetamento.

 

Segundo o blog de Claudio Dantas, Alcolumbre está sendo levado ao Conselho de Ética pelo senador Eduardo Girão (Partido Novo). O motivo? Omissão institucional e abuso de poder. Girão não está pedindo pouco; ele está pedindo a destituição de Alcolumbre da presidência do Senado. E por que isso é necessário?

 

Impeachments ignorados: Existem mais de 40 pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes engavetados na presidência. Alguns, tecnicamente robustos, são solenemente ignorados pelo amapaense.

 

Blindagem de CPIs: A CPI do Banco Master já possui assinaturas de sobra para ser instalada, e a CPMI do INSS foi, na prática, sufocada. Alcolumbre atua como um porteiro de luxo, impedindo que a luz do sol chegue às entranhas desse sistema.

 

O Sigilo de 100 anos: A cereja do bolo da podridão é o bloqueio do acesso aos registros de visitantes do "careca do INSS" no Congresso. Alcolumbre impôs sigilo sobre dados que poderiam expor quem exatamente circula pelos corredores do poder, protegendo não só a esquerda, mas a si mesmo e a sua rede de influências.

 

O grande balcão de negócios

 

A política brasileira virou um jogo de chantagem em tempo real. Alcolumbre não está apenas protegendo o governo ou o STF; ele está protegendo seu próprio feudo. O relato de que ele estaria utilizando a votação do veto do presidente Lula sobre a dosimetria como moeda de troca para enterrar a CPI do Banco Master e a CPMI do INSS é o retrato da decadência.

 

É um "toma lá, dá cá" escancarado. "Eu mato as investigações que te incomodam, e você garante a estabilidade do meu governo/corte". Enquanto isso, o brasileiro assiste, perplexo, à blindagem de parentes, aliados e financiadores que aparecem nos celulares apreendidos. A impunidade não é um acidente; é um projeto.

 

O senador Eduardo Girão, ao levar essa representação, coloca o dedo na ferida de uma forma que, infelizmente, é rara. A pergunta que fica — e que Claudio Dantas levanta com propriedade — é: isso prospera?

 

O futuro: 2027 exige um Senado com coluna vertebral

 

Sejamos realistas: o atual Conselho de Ética do Senado, presidido por nomes como Jaime Campos e tendo Eduardo Braga como vice, dificilmente será o tribunal que derrubará Alcolumbre. Eles jogam no mesmo time. Mas o valor dessa representação não está apenas no resultado imediato; está no registro histórico e na pressão pública.

 

O Brasil de 2027 não pode ser o Brasil de hoje. Se o Senado continuar a "baixar a cabeça" para as arbitrariedades do STF, teremos consolidado uma ditadura de toga e terno, onde o Executivo e o Legislativo são meros coadjuvantes de um Judiciário que, desavergonhadamente, tomou as rédeas do país.

 

Precisamos de um Senado que:

 

Enfrente o ativismo judicial: Que entenda que o poder do STF é limitado pela Constituição.

 

Abra a "Caixa Preta": Que instale as CPIs necessárias sem medo de quem será atingido.

 

Tenha espinha dorsal: Que não negocie o destino do país em troca de sobrevivência política momentânea.

 

A tragédia que vivemos, com um STF que atua como partido e um Senado que atua como secretária dessa corte, é o resultado de anos de omissão. A "limpa" necessária no Judiciário, que inevitavelmente passaria por nomes como Dino, Gilmar Mendes e Moraes, só acontecerá se o Senado decidir, finalmente, que seu papel é representar o povo, e não proteger a própria casta.

 

Alcolumbre pode conseguir enterrar uma CPI hoje. Pode conseguir manter o sigilo de seus amigos por mais um tempo. Mas o escândalo do Vorcaro e as ligações com o Banco Master não vão desaparecer. O odor da corrupção é forte demais para ser contido por manobras regimentais. O Brasil, na sua impaciência crescente, está começando a entender que, se não houver um basta, o próximo a ser engavetado seremos todos nós (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 6/3/2026)