28/04/2026

O tirano sempre encontra um pretexto para sua tirania – Por Paula Sousa

O tirano sempre encontra um pretexto para sua tirania – Por Paula Sousa

Imagem Reprodução Youtube

 

Na fábula ancestral de Esopo, o lobo, parado rio acima, acusa o cordeiro de sujar a água que ele, o predador, bebia. O argumento era um absurdo lógico, uma impossibilidade física, mas para o lobo, a lógica era irrelevante. Ele precisava de uma justificativa. A justiça não era o objetivo; a devoração era. O pretexto — a água turva — era apenas a embalagem da tirania.

 

Séculos depois, o cenário mudou. O rio agora é um fluxo digital de dados, as margens são redes sociais e os lobos não usam presas, mas canetas tinteiro e decretos. A essência, contudo, permanece intocada. Estamos vivendo a era em que o poder se diz guardião da democracia justamente enquanto a estrangula, um paradoxo que Javier Milei resumiu com a precisão de um cirurgião ao enfrentar o questionamento de uma jornalista: "Quando você diz a verdade a socialistas, eles alegam que é discurso de ódio. Não, não é discurso de ódio. É que vocês são pessoas inúteis que arruinaram o planeta."

 

Esta é a nossa realidade brasileira. Uma casta aristocrática, instalada na cúpula dos poderes, que se vê ameaçada pela liberdade de pensamento e que, como o lobo da fábula, busca desesperadamente um "pretexto" para justificar o banquete.

 

A origem: A "razão do mais forte"

 

O poder, quando despido de legitimidade popular, recorre inevitavelmente à força bruta. No Brasil atual, a tirania não se apresenta com botas e tanques, mas com o peso da "justiça" aplicada seletivamente. A premissa é simples: o poder é bom, e quem discorda do poder é, por definição, uma ameaça.

 

Essa percepção de que a política institucional se tornou um instrumento de proteção da elite foi o que começou a corroer o "consenso social" que sustentava essa estrutura. Por décadas, através de jornais e emissoras tradicionais, criou-se a ilusão de que a esquerda era a única via civilizada. Quem pensava diferente ficava em silêncio, acuado por um consenso imposto. A internet quebrou esse monopólio.

 

E é por isso que hoje, quando deputadas e ex-deputadas como Manuela D'Ávila sugerem a regulação das redes sociais para "impedir o surgimento de perfis" como os que incomodam o establishment, elas não estão defendendo a democracia; estão tentando restaurar a mordaça que perderam. O medo delas não é da desinformação. O medo é da verdade que não passa pelo filtro da sua censura.

 

A vigilância: O olhar que escaneia a dissidência

 

O medo do poder é tangível, quase palpável. Ele se manifesta em medidas que, sob o manto da "análise de presença digital", escondem a vigilância pura e simples. O STF, em sua contínua escalada de isolamento, abriu o pregão eletrônico 90.10/2026, com o objetivo de contratar uma empresa para monitorar o que a internet diz sobre a corte.

 

Como noticiado por Andresa Matraz e André Shoulders, a intenção de gastar cerca de R$ 249 mil para saber quem são os críticos e qual o "sentimento" público sobre os ministros não é uma prática de mercado comum; é um sistema de inteligência voltado para a defesa de uma imagem que ruiu. O tribunal, que deveria ser o guardião da Constituição, transformou-se em um órgão que teme o povo. O monitoramento não serve para aprimorar a justiça, mas para mapear a insatisfação. E, como a história nos ensina, a identificação dos críticos é o primeiro passo para a punição.

 

É um desespero de elite. Eles possuem o "poder da caneta", mas perderam o "poder do convencimento". O pessoal que antes vivia no entorno dos ministros, paparicando-os em festas e eventos, começou a se afastar. Ninguém quer ser visto ao lado de quem está mergulhado em polêmicas — de Gilmar Mendes a Alexandre de Moraes. A vigilância é o reconhecimento dessa solidão.

 

A ironia: A armadilha do caçador

 

Há uma justiça poética na história, uma ironia cruel que persegue os tiranos. O caçador que se arma para prender o cordeiro acaba, muitas vezes, caindo na própria armadilha. O caso de Gilmar Mendes, o decano que se tornou o porta-voz do STF ao dar entrevistas frenéticas para tentar justificar o injustificável, é emblemático.

 

Ao tentar defender a corte, ele meteu os pés pelas mãos. Sua fala sobre um suposto "boneco homossexual" do governador Zema não foi apenas uma deselegância; foi um desastre político e jurídico. Como notou o ambiente de bastidores, a ironia é que a legislação que o próprio STF criou — equiparando homofobia ao crime de racismo, tornando-o imprescritível e inafiançável — virou contra o criador. O ministro, ao usar a homossexualidade como uma ofensa injuriosa, viu-se, tecnicamente, dentro do crime que o tribunal que ele integra jurou combater.

 

É o esgotamento do sistema. O que Diego Amorim descreveu como um "apoio silencioso" de outros ministros e políticos governistas revela a fragilidade da base. Ninguém, nem o mais fervoroso aliado, quer se aproximar de quem está afundando. Gilmar Mendes gritou por socorro, por apoio explícito, mas o que recebeu foi o silêncio constrangedor de quem teme o contágio. A tentativa de controle institucional tornou-se um espetáculo de vulnerabilidade.

 

O ridículo: Quando a carapuça serve perfeitamente

 

Se a vigilância é o medo e a ironia é o tropeço, o que sobra para o poder quando ele não tem mais argumento? Resta o ridículo. A tentativa de calar a dissidência torna-se tão burra que atinge níveis de comédia pastelão.

 

O caso do cidadão em Presidente Prudente é a prova cabal. Ao colocar uma faixa com a palavra "Ladrão" em sua própria residência, ele não citou nomes. Mas a Polícia Federal, agindo como um braço privado de proteção a uma figura política, interveio sem mandado judicial, exigindo a retirada. A pergunta que ecoa é: como eles sabiam que a carapuça servia?

 

O policial, no vídeo que circulou amplamente, admitiu o óbvio: a ofensa foi direcionada ao Lula. O próprio sistema, em seu desejo servil de agradar ao chefe, confirmou a máxima que o povo já sabia. Foi o efeito Streisand em sua forma mais pura: uma faixa que seria lida por poucos tornou-se um símbolo nacional de resistência.

 

Como apontou Cláudio Dantas, a reação foi um atestado de culpa. A censura, neste caso, não silenciou o dissidente; ela validou a sua denúncia. Quando o agente do Estado entra na propriedade privada para impor uma "censura estética" ou moral sem amparo na lei, ele não protege o presidente; ele desmascara o regime. O ridículo é que, ao tentar esconder o óbvio, eles o tornaram imensamente mais visível. A carapuça serviu, foi ajustada e ainda colocaram um chapéu em cima para que ninguém tivesse dúvida de quem era o alvo.

 

O desespero: A guerra contra a realidade digital

 

Por fim, chegamos ao estágio terminal: a guerra contra o meio de comunicação. O Presidente Lula, em suas viagens internacionais, como a recente passagem pela Espanha — onde a comitiva passeia enquanto o país agoniza — repete a cartilha de todos os ditadores decadentes: a culpa é da "intromissão estrangeira" e do "digital".

 

"Tem que regular tudo que for digital", ele proclama, como se a internet fosse um interruptor que ele pudesse desligar. Ele fala do ECA digital e da lei Felca como se fossem apenas o começo. Mas o que ele realmente confessa é a sua derrota cultural. O PT, que se gabava de ter "aprendido a usar as redes sociais" por causa de algumas hashtags irrelevantes, finalmente percebeu que as hashtags não mudam a opinião de ninguém.

 

A derrota é existencial. A esquerda brasileira perdeu a sua capacidade de ditar o consenso porque a internet permitiu que as pessoas falassem entre si, fora da vigilância das redações dos grandes jornais. A internet devolveu às pessoas a consciência de que elas não estão sozinhas. Aquele conservador, aquele liberal, aquele cidadão comum que se sentia isolado porque a Rede Globo dizia que todos pensavam de forma progressista, descobriu que a maioria sempre pensou como ele.

 

A tentativa de censurar a internet não é uma política de Estado; é o choro de uma criança que não consegue mais enganar o mundo com contos de fadas. Eles olham para o modelo russo, para a China, para a proibição de VPNs e para o controle estatal do conteúdo, e suspiram de inveja. Eles querem um país onde apenas a voz do governo possa ecoar.

 

Mas eles são burros. É a conclusão de quem observa a história com distanciamento: se fossem do mal, mas inteligentes, talvez tivessem sucesso. Mas são burros. Eles não entendem que a censura no digital gera mais revolta, mais tecnologia de contorno, mais indignação. Eles não entendem que quanto mais eles regulam, mais eles se tornam obsoletos. Como apontou Helena Landal sobre o "W na democracia", eles expuseram a corte e o governo de uma forma que ninguém mais consegue ignorar.

 

Conclusão: O lobo e a água turva

 

Chegamos ao fim da fábula. O lobo, cansado de tentar convencer o cordeiro de que a água estava suja, começa a rosnar sem disfarces. O pretexto já não importa. A "defesa da democracia" tornou-se o slogan vazio que justifica a invasão de lares, a vigilância de redes, a perseguição de opositores e a ameaça de prisão por opiniões.

 

Eles não entenderam que a história não perdoa os tiranos que se levam a sério demais. A cada vez que alguém como o cidadão de Presidente Prudente mantém sua faixa, ou que uma voz como a de Milei ecoa pelo mundo, a estrutura de medo que sustentam racha um pouco mais.

 

Eles dizem que protegem a democracia, mas a democracia não precisa de proteção contra opiniões. A democracia precisa de proteção contra quem se sente no direito de decidir o que pode ou não ser dito. O pretexto está lá, o lobo está rosnando, mas a água do rio, essa torrente de informação que chamamos de internet, continua fluindo, incontrolável, turva, mas profundamente livre.

 

E, no fim, a história sempre nos ensina: nenhum tirano, por mais que regule, por mais que monitore, por mais que ameace, consegue parar o fluxo da verdade quando as pessoas decidem que não têm mais medo.

 

O pretexto pode enganar por um tempo, mas a tirania é, em última análise, um suicídio político. E a nossa elite, fechada em sua bolha de Brasília, parece estar, dia após dia, empurrando o próprio gatilho. A pergunta não é se eles cairão, mas quanto estrago farão antes que a própria gravidade da sua arrogância os puxe para o chão. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 28/4/2026)