08/08/2025

OAB alerta sobre "precedentes perigosos" em ações do STF

OAB alerta sobre

Sessão plenária do STF (Supremo Tribunal Federal). Foto Fellipe Sampaio STF

 

Ordem divulgou carta aberta com recados ao Supremo e a políticos que “estimulem o descrédito das instituições públicas”.

 

       

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) divulgou, nesta quinta-feira (7), uma carta aberta em que faz um alerta ao STF (Supremo Tribunal Federal), no contexto do que tem ocorrido com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para a Ordem, a prisão e a imposição de medidas cautelares “severas” impõem a todos uma “reflexão séria”.

 

“É necessário reafirmar que medidas penais, especialmente as que limitam a liberdade, devem ser adotadas com fundamento inquestionável e com pleno respeito às garantias constitucionais, inclusive o direito à liberdade de expressão”, diz o texto.

 

No documento, a OAB fala em zelar para que qualquer cidadão seja julgado conforme o devido processo legal. "Sem isso, abrem-se precedentes perigosos, que podem amanhã atingir qualquer direção político-ideológica”.

 

A divulgação da carta ocorre em um momento de tensão por conta da prisão do ex-presidente Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes. Nos últimos dias, parlamentares da oposição chegaram a ocupar as mesas diretoras da Câmara e do Senado em protesto.

 

Segundo a Ordem, a atuação do STF deve seguir os princípios que sustentam a própria democracia. “Fundamental o respeito às prerrogativas da advocacia – como o sigilo profissional, o acesso pleno aos autos dos processos e à sustentação oral síncrona – que são garantias constitucionais, em verdade, do cidadão, destinatário do direito de defesa”, diz.

 

Na mesma carta, a Ordem faz críticas a detentores de mandatos eletivos e de lideranças políticas que estimulam o descrédito das instituições públicas e que incitam a adoção de medidas, principalmente estrangeiras, que desestabilizem a economia do país e prejudiquem, por consequência, empresários e trabalhadores brasileiros.

 

“Não se constrói democracia sabotando o próprio país; ataques à soberania nacional são inadmissíveis. A liberdade de expressão é um valor constitucional, mas não pode servir de escudo para práticas antidemocráticas”, completa.

 

O trecho faz uma clara ligação ao fato de o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) dizer que tem articulado com a Casa Branca sanções a autoridades brasileiras. Desde então, foram suspensos vistos do ministro Alexandre de Moraes e aliados, além de os Estados Unidos terem enquadrado o magistrado na Lei Magnitsky -- que pune violadores de direitos humanos.

 

No fim do texto, a OAB conclama integrantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e todas as lideranças políticas e civis do país “a firmarem um pacto pela pacificação do Brasil, com absoluto respeito à soberania pátria, ao devido processo legal e às normas constitucionais e legais, ao Judiciário e a todas as instituições públicas”.

 

Ausência

 

Na reabertura dos trabalhos do Judiciário, na sexta-feira (1º), a OAB foi a única instituição que participa da solenidade que não se pronunciou sobre as sanções dos EUA. Na ocasião, falaram o presidente do STF, Luís Roberto Barroso; o procurador-Geral da República, Paulo Gonet; e o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias.

 

Leia a carta na íntegra:

 

"Carta da Ordem dos Advogados do Brasil ao país

 

Em um momento de crescente tensão entre lideranças e instituições da República e de radicalização do debate público, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) conclama os atores políticos e integrantes do sistema de Justiça ao equilíbrio, ao respeito mútuo e à observância irrestrita aos ditames constitucionais. O Estado Democrático Direito exige contenção, prudência, limites e observância rigorosa da legalidade.

 

A OAB jamais tomará partido de qualquer lado político-ideológico, pois não é longa manus do governo nem linha auxiliar da oposição. Nosso compromisso é com o Brasil. Exatamente por isso, a OAB não pode se calar diante de excessos de qualquer natureza e origem institucional.

 

A prisão e a imposição de medidas cautelares severas contra réus ou investigados em processos criminais, determinadas sem trânsito em julgado, impõem a todos uma reflexão séria. É necessário reafirmar que medidas penais, especialmente as que limitam a liberdade, devem ser adotadas com fundamento inquestionável e com pleno respeito às garantias constitucionais, inclusive o direito à liberdade de expressão. A OAB não avalia a culpa ou inocência de envolvidos, mas zela para que sejam julgados de acordo com o devido processo legal. Sem isso, abrem-se precedentes perigosos, que podem amanhã atingir qualquer direção político-ideológica.

 

A atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), cuja missão é proteger a Constituição, deve sempre seguir os princípios que sustentam a própria democracia. Fundamental o respeito às prerrogativas da advocacia – como o sigilo profissional, o acesso pleno aos autos dos processos e à sustentação oral síncrona – que são garantias constitucionais, em verdade, do cidadão, destinatário do direito de defesa. A Ordem tem agido incansavelmente para reverter decisões que venham a ferir tais garantias, independentemente do viés ideológico dos assistidos, e continuará lutando, sempre dentro dos marcos institucionais, pelo livre e pleno exercício da advocacia.

 

Da mesma forma, a OAB rechaça veementemente gestos e ações de detentores de mandatos eletivos e de lideranças políticas que estimulem o descrédito das instituições públicas e que incitem a adoção de medidas, principalmente estrangeiras, que desestabilizem a economia do país e prejudiquem, por consequência, empresários e trabalhadores brasileiros. Não se constrói democracia sabotando o próprio país; ataques à soberania nacional são inadmissíveis. A liberdade de expressão é um valor constitucional, mas não pode servir de escudo para práticas antidemocráticas.

 

A Ordem dos Advogados do Brasil conclama todos os integrantes dos Poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário — e todas as lideranças políticas e civis do país a firmarem um pacto pela pacificação do Brasil, com absoluto respeito à soberania pátria, ao devido processo legal e às normas constitucionais e legais, ao Judiciário e a todas as instituições públicas.

A Ordem seguirá independente e crítica, ativa e propositiva. E reafirma: somos agentes da legalidade. Nossa missão é proteger o Estado Democrático de Direito e o país, contra quem quer que seja. Nossa bandeira é a Constituição. Nosso lado é o Brasil" (CNN Brasil, 7/8/25)