08/09/2026

Pacote de Lula para economia tem impacto abaixo do esperado

Pacote de Lula para economia tem impacto abaixo do esperado

Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma série de medidas para reforçar o crescimento econômico. Reprodução/TV Globo

 

Pacote de estímulos de R$ 200 bilhões teve impacto reduzido devido ao alto endividamento e cautela dos bancos, frustrando expectativas de crescimento econômico; governo diz que há pacotes que estão dentro da expectativa

 

A intenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de estimular a economia no ano em que tenta a reeleição foi, em grande parte, frustrada nas mesas de análise de crédito dos bancos e pela “ressaca” de consumidores que já chegaram ao limite do endividamento.

 

Uma série de medidas, envolvendo aumento de renda e expansão do crédito, prometia impulsionar a atividade em mais de R$ 200 bilhões — o equivalente a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Na prática, porém, o impacto efetivo — o que de fato se converteu em crescimento econômico — é estimado entre R$ 90 bilhões e R$ 130 bilhões, segundo exercícios de economistas consultados pelo Estadão/Broadcast.

 

A avaliação de analistas é que o pacote ajudou a sustentar a atividade, evitando uma desaceleração mais intensa da economia, mas não com força para promover uma reaceleração durante o período de campanha eleitoral.

 

Após isentar do Imposto de Renda trabalhadores com salários de até R$ 5 mil — cuja transmissão à atividade é mais direta por colocar mais dinheiro nas mãos de quem consome —, o governo tentou manter a economia aquecida com novas linhas especiais de financiamento, ao mesmo tempo em que buscava reabilitar consumidores ao mercado de crédito com o Desenrola, o programa de renegociação de dívidas.

 

O efeito, porém, não foi o mesmo: os brasileiros já estavam bastante endividados — muitos, com contas em atraso —, e os bancos mostraram pouca disposição em assumir risco, mesmo com a cobertura de fundos garantidores.

 

Apesar dos números, os ministérios envolvidos com os pacotes de crédito preferiram destacar outros programas que estão dentro do planejado. O crédito habitacional, dizem eles, já resultou em 290 mil contratos do Minha Casa, Minha Vida, além de 155,1 mil operações do Reforma Casa Brasil. Segundo o Ministério das Cidades e a Caixa, a ampliação do público atendido e das faixas de renda, incluindo a criação da faixa 4, tem ocorrido conforme as metas previstas (ver mais abaixo).

 

O BC começa a ganhar queda de braço?

 

Antes mesmo de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrar, na terça-feira, 1, um PIB menos apoiado pelo consumo das famílias — que caiu 0,4% no segundo trimestre —, economistas já vinham revisando para baixo as projeções de crescimento e passaram a colocar no radar o risco de recessão técnica. A percepção é que, enfim, o Banco Central (BC) começa a ganhar a queda de braço com a política fiscal expansionista.

 

“O governo tentou, como pôde, estimular os gastos desde o ano passado, especialmente com medidas microeconômicas. Mas estamos com as taxas reais de juros mais altas em 20 anos; não tinha como ser diferente. A conta poderá ser uma desaceleração mais forte no ano que vem”, comenta Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

 

Segundo Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, uma parte relevante dos estímulos foi absorvida pelo pagamento de dívidas — em um contexto de juros altos — e não se converteu em consumo adicional. Em suas contas, o conjunto de medidas anunciado pelo governo para impulsionar a economia deve contribuir com cerca de 1 ponto porcentual do crescimento do PIB neste ano. Responde, assim, por praticamente metade da expansão projetada, mas fica abaixo do impacto potencial, estimado por ele em 1,4 ponto porcentual.

 

“Os estímulos ajudaram a apoiar a economia, mas tiveram uma eficiência abaixo da esperada por conta da política monetária bastante restritiva. Talvez o crescimento do PIB não seja puxado pelo consumo das famílias, como havia sido previsto, e tenha maior participação da exportação de produtos primários”, comenta o consultor da Manchester.

 

O especialista em contas públicas do Santander, Ítalo Franca, concorda que o impacto efetivo das medidas lançadas em apoio à atividade em 2026 tende a ser bem menor do que o seu potencial, estimado pelo banco em R$ 220 bilhões (1,5% do PIB). “Essas medidas atuam mais como um amortecedor da perda de ritmo da atividade do que como um vetor de reaceleração significativa do crescimento”, observa Ítalo.

 

De acordo com o economista, se a execução das linhas de crédito ficar abaixo do inicialmente previsto, o impulso sobre a demanda tende a ser menor e reduzir marginalmente as pressões sobre a inflação. Ele, contudo, evita superestimar o efeito disso nas decisões de política monetária, que levam em conta um cardápio muito mais amplo de variáveis, como mercado de trabalho, câmbio, preços de commodities, condições financeiras e política fiscal.

 

Crédito para motoristas trava nos bancos e não repete efeito de isenção do IR

 

A linha de crédito para troca de carros por taxistas e motoristas de aplicativo, por exemplo, prometia um impulso à economia parecido com o da isenção do imposto de renda para salários de até R$ 5 mil. O programa, porém, se aproxima do fim, previsto para o próximo dia 15, sem ter decolado. Apenas 13% dos R$ 30 bilhões disponíveis se converteram, de fato, em vendas de veículos.

 

Os entraves são diversos, a começar pela dificuldade de compatibilizar a operação dos bancos que lideram o financiamento de automóveis com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), fonte dos recursos. Conforme as financeiras de veículos, o programa foi lançado às pressas, sem que esses bancos — em geral não habilitados como repassadores do BNDES — tivessem sistemas e processos prontos para operá-lo.

 

Além disso, pesou a aversão ao risco de conceder crédito a um público de renda variável e que, com frequência, não alcança os scores (pontuações de risco de inadimplência) exigidos para a aprovação do financiamento. Nem a cobertura de 80% do risco por um fundo garantidor foi suficiente.

 

Na tentativa de destravar o programa, o governo injetou mais R$ 1 bilhão no fundo garantidor, elevando o aporte total para R$ 3 bilhões. Mais recentemente, aumentou de R$ 150 mil para R$ 200 mil o teto de preço dos veículos atendidos pela linha, abrindo espaço para a entrada de novos modelos, e ampliou o prazo máximo do financiamento: de 72 para 84 meses.

 

Procurada pelo Estadão/Broadcast, a Febraban, entidade que representa os bancos, afirmou que fundos garantidores mitigam uma parte importante do risco e ajudam a ampliar o acesso ao crédito. Ressaltou, porém, que a aprovação de cada financiamento segue sujeita às políticas de cada instituição, que considera variáveis como capacidade de pagamento do cliente, nível de endividamento, histórico de crédito, estabilidade e previsibilidade da renda e o peso da prestação no orçamento.

 

“Essa avaliação representa uma etapa essencial para assegurar uma concessão sustentável e compatível com a realidade financeira do tomador. Além de se preocupar com o endividamento saudável dos clientes, as instituições credoras devem zelar pela saúde da carteira de crédito”, comenta a Febraban.

 

Segundo Enilson Sales, presidente da Anef, associação que reúne as financeiras das montadoras, o caso difere do segmento de caminhões, em que linhas com juros mais baixos do programa Move Brasil tiveram boa adesão porque já havia interface com o BNDES. No financiamento de automóveis, as instituições não são, em geral, repassadoras de recursos do banco de fomento e, por isso, não tinham processos prontos para operar rapidamente a nova linha.

 

Como a iniciativa nasceu por medida provisória, os bancos não se dispuseram a redesenhar políticas, regras internas e sistemas para um produto que, em tese, tem prazo de validade. “As instituições financeiras não vão parar tudo para fazer a adequação a um produto que pode vir a vingar ou não. Ninguém vai ‘parar as máquinas’ para atender a uma medida provisória e ter todos os ajustes descartados se ela não for efetivada”, comenta Sales.

 

Conforme o presidente da Anef, programas de apoio à indústria automotiva deveriam ser planejados com objetivos de longo prazo, e não apenas para impulsioná-la por um período curto.

 

Se fossem usados integralmente, os R$ 30 bilhões em crédito para motoristas poderiam produzir efeito próximo ao da atualização da tabela do Imposto de Renda. A isenção para salários de até R$ 5 mil, junto com os descontos para remunerações de até R$ 7,3 mil, tem impacto potencial estimado por economistas da XP e do Santander em R$ 33,5 bilhões e R$ 35 bilhões, respectivamente.

 

Estadão/Broadcast procurou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para saber sobre o andamento das linhas de crédito do Move Brasil para veículos, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

 

Medidas que deram certo

 

O setor imobiliário foi outra frente que o governo Lula buscou impulsionar, oferecendo crédito mais barato e ampliação do público atendido pelo Minha Casa, Minha Vida. A Caixa informa já ter realizado 29,4 mil contratações, somando R$ 1,03 bilhão, em financiamentos para reforma e melhoria de moradias.

 

Em paralelo, com a atualização dos limites de renda familiar e a ampliação do público elegível do Minha Casa, Minha Vida, foram feitas 290 mil contratações, totalizando R$ 55,8 bilhões em financiamento habitacional. Desse montante, 134,1 mil contratos, que somam R$ 31,7 bilhões, concentram-se na faixa 3, que teve o limite do valor do imóvel ampliado, e na nova faixa 4, criada para atender à classe média.

 

A Caixa afirma que as contratações seguem dentro do ritmo e das expectativas projetados pelos gestores da carteira imobiliária do banco. O crescimento da carteira, ressalta a instituição, está alinhado à sua estratégia e à política de riscos.

 

Segundo o Ministério das Cidades, o Reforma Casa Brasil, voltado à reforma de moradias urbanas, já executou R$ 4,06 bilhões do orçamento, com a contratação de 155,1 mil operações de financiamento desde sua criação, em 2025. Para garantir 100% das contratações, foi feito um aporte de R$ 750 milhões ao Fundo Garantidor de Habitação Popular (FGHab). A pasta informa ainda que a execução orçamentária e a meta de contratação das linhas do Minha Casa, Minha Vida — com recursos do FGTS e do Fundo Social do pré-sal — estão em linha com o planejado.

 

Economistas ponderam que as novas linhas de crédito não podem ser tratadas integralmente como impulso adicional à economia, porque muitas vezes apenas substituem outras fontes de financiamento que seriam acionadas na ausência do incentivo (Estadão,6/9/26