Pão de Açúcar pede recuperação extrajudicial e cita dívidas de R$ 4,5 bi
- Principais credores são os bancos; acordo foi fechado com Itaú e outros detentores de 46% da dívida
- Grupo reforçou que medida não afeta pagamento a fornecedores e que lojas funcionam normalmente
O GPA (Grupo Pão de Açúcar), uma das maiores e mais tradicionais empresas do varejo brasileiro, anunciou nesta terça-feira (10) um acordo com os seus maiores credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial, que engloba dívidas de R$ 4,5 bilhões.
Diferentemente do plano de recuperação judicial, pelo qual passa a Americanas, por exemplo, em que todas as dívidas do grupo (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça, na recuperação extrajudicial a companhia escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao Judiciário.
No caso do GPA, os maiores credores são os bancos. O pacto foi assinado com instituições que concentram 46% dos créditos sujeitos ao plano (R$ 2,1 bilhões), percentual superior ao quórum mínimo de um terço dos créditos afetados, conforme prevê a lei. São elas Itaú, Rabobank, HSBC e BTG. Agora a missão é convencer os demais credores a aderir ao plano.
"Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas", afirmou o grupo, em comunicado.
Segundo a companhia, o plano já produz efeitos imediatos e prevê a suspensão temporária das obrigações financeiras junto aos credores incluídos no processo. Após o pedido, a empresa tem um prazo de 90 dias para elevar o atual apoio de 46% para a maioria simples (50% mais um), atingindo o quórum necessário para a validação.
O GPA afirmou que vai divulgar detalhes adicionais sobre o processo e os documentos da reestruturação em seu site de relações com investidores nas próximas semanas.
As ações da empresa enfrentaram forte queda na B3 desta terça e chegaram a entrar em leilão logo no início do pregão, quando o tombo era de mais de 8%. Fecharam com perdas de 2,93%, a R$ 2,65.
EFEITO CASINO
Os 90 dias funcionam como um período de trégua enquanto a varejista tenta reorganizar o perfil de seu endividamento e busca equilíbrio financeiro. O que está sendo muito difícil, conforme apontam ex-executivos da empresa e pessoas próximas ao atual comando ouvidos pela Folha.
Analistas apontam que o Casino, que comandou o Pão de Açúcar entre 2012 e 2023, promoveu uma redução dos ativos da companhia, na tentativa de aliviar o seu próprio endividamento na França. Entre 2012, quando passou às mãos do Casino, e 2023, quando os franceses deixaram o controle, o GPA encolheu 64% em receita bruta.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o Casino respondeu que sua estrutura acionária e de governança sofreu alterações significativas desde abril do ano passado. As mudanças se referem à saída do ex-dono do Casino, Jean-Charles Naouri, que passou o controle do grupo para um consórcio liderado pelo bilionário tcheco Daniel Kretinsky. "Nesse contexto, o Casino não pretende comentar retrospectivamente sobre a gestão anterior do GPA."
Entre 2024 e o início de 2025, o Casino foi abrindo mão da sua participação, mas continuou como principal acionista. Essa posição mudou em maio do ano passado, quando a família Coelho Diniz, dona de uma rede homônima no interior de Minas Gerais, se tornou o acionista mais relevante do grupo, com 24,6%.
Embora reconheça a influência do Casino no passivo bilionário do grupo, outro executivo próximo à empresa pondera que os atuais acionistas sabiam no que estavam investindo. Ou seja, os Coelho Diniz apostaram que se trata de um ativo bom e barato, que ainda tem um bom Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Os supermercados Coelho Diniz faturam cerca de R$ 2 bilhões, enquanto o Pão de Açúcar tem vendas brutas de R$ 20,6 bilhões.
TENTATIVA DE MANTER A CONFIANÇA DOS FORNECEDORES
A empresa fez questão de destacar no comunicado desta terça que o pagamento dos fornecedores segue normalmente. No último dia 3, o GPA enviou uma carta a fornecedores para tentar conter temores de ruptura no abastecimento das lojas. No documento, o CEO Alexandre Santoro afirmou que as negociações em curso envolviam apenas credores financeiros e não afetariam os parceiros comerciais da rede.
A carta veio no dia seguinte ao rebaixamento da nota do grupo de "A" para "CCC" pela agência de classificação de risco Fitch. A nota indica risco substancial de calote e capacidade muito fraca de pagamento. Foi o segundo corte consecutivo desde novembro, quando o grupo já tinha perdido o grau "AA". A agência apontou o aumento do risco de refinanciamento das dívidas, a piora da liquidez e a expectativa de fluxo de caixa livre negativo nos próximos anos, caso o endividamento não fosse reduzido.
No comunicado desta terça, a varejista ressaltou estar em dia com pagamentos a fornecedores e parceiros comerciais e que suas operações são "saudáveis". "O processo foi estruturado de modo a preservar a operação de suas lojas, que deverão seguir funcionando normalmente", diz o texto, reforçando que a empresa "está em dia com suas obrigações junto a fornecedores, clientes e parceiros, os quais estão excluídos e não serão afetados pelo processo de recuperação extrajudicial."
A decisão foi autorizada de forma unânime pelo conselho de administração, afirmou.
R$ 32 BI EM PASSIVOS TRABALHISTAS E TRIBUTÁRIOS FORA DO PEDIDO
No final de fevereiro, a divulgação do balanço de 2025, em que a administração mencionava "incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia", já expôs a dimensão do problema. O GPA possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento já em 2026 e terminou o último trimestre com capital de giro líquido negativo em aproximadamente R$ 1,2 bilhão.
Além disso, a companhia revelou a existência de R$ 15 bilhões em disputas tributárias classificadas como "perdas possíveis" —valores que não estão provisionados no balanço, mas que representam um risco potencial. Também existe um passivo trabalhista da ordem de R$ 17 bilhões. Mas essas duas dívidas, que somam R$ 32 bilhões, não entraram no pedido de recuperação extrajudicial.
A discrição da família Coelho Diniz contribui para o cenário. Desde que se tornaram os principais acionistas do grupo, no lugar do Casino, não deram entrevistas.
A nova estrutura acionária do GPA foi um dos motivos que levaram ao rebaixamento da nota do grupo, segundo a Fitch, que afirmou ter "visibilidade limitada sobre a estratégia da companhia a médio e longo prazos, bem como em relação ao apetite por risco e à capacidade de executar as medidas necessárias para fortalecer seu perfil de crédito".
RAIO-X | GRUPO PÃO DE AÇÚCAR
Fundação: 1959
Sede: São Paulo (SP)
Funcionários: 37 mil
Bandeiras: Pão de Açúcar Supermercados, Extra Mercado, Minuto Pão de Açúcar
Lojas: 728, em 11 estados e no Distrito Federal
Concorrentes: Carrefour, Assaí, Grupo Mateus, Supermercados BH
Faturamento em 2025: R$ 20,6 bilhões (Folha, 11/3/26)

