Para Janja, tudo é ‘misoginia’ – Editorial O Estado de S.Paulo
Presidente Macron, da França, cumprimenta a 1ª dama Janja. Foto Reprodução Redes Sociais
Por ser mulher, a primeira-dama se considera dispensada de explicar seus gastos em viagens.
A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, afirmou em entrevista ao UOL que as críticas que sofre por supostamente gastar muito dinheiro público nas viagens oficiais são motivadas por “misoginia pura”. Donde se depreende que, por ser mulher, a sra. Janja acredita estar dispensada de dar explicações sobre seus gastos – escrutínio ao qual todos os integrantes do Estado brasileiro, independentemente do sexo, são submetidos.
E a razão desse escrutínio é muito simples: trata-se do dinheiro de todos os contribuintes, inclusive milhões de mulheres que lutam diariamente para pagar suas contas e seus impostos.
Usar a acusação de “misoginia” como artimanha retórica para esquivar-se de perguntas incômodas chega a ser cruel com as muitas mulheres que cotidianamente sofrem preconceito pelo fato incontornável de serem mulheres. Não há dúvida de que a sra. Janja muitas vezes também é vítima desse preconceito, mas, no caso da cobrança de explicações sobre despesas pagas com dinheiro público, é obrigação da primeira-dama fornecê-las sem demora e com total transparência.
A não ser que a sra. Janja se considere especial a ponto de não se sentir obrigada a dar satisfações sobre como gasta o dinheiro do contribuinte e de considerar preconceituoso quem as exige.
Aliás, parece ser este precisamente o caso: a sra. Janja se tem em tão alta conta que declarou, na mesma entrevista, que o Brasil nunca teve uma primeira-dama que “trabalha efetivamente” como ela – menosprezando a atuação, por exemplo, de Ruth Cardoso, que na Presidência do marido, Fernando Henrique Cardoso, idealizou o Comunidade Solidária, articulando Estado e sociedade no combate à pobreza.
Segundo a sra. Janja, “a sociedade brasileira, de modo geral, e a imprensa também não estavam acostumadas com isso”, sugerindo que o Brasil é uma retrógrada sociedade patriarcal que não estava preparada para uma primeira-dama como ela e, por isso, não entende sua atuação.
Ora, se a sra. Janja estivesse realmente preocupada com a condição feminina, teria cobrado do marido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que procurasse nomear mais mulheres para o primeiro escalão – lembrando que hoje, dos 38 ministérios, apenas 8 são ocupados por mulheres. A esse respeito, contudo, a primeira-dama deu a resposta padrão dos petistas: a culpa é sempre dos outros – no caso, dos partidos da base governista que não indicam mulheres para os ministérios.
A mesma desculpa, contudo, não serve para as escolhas de Lula para os tribunais superiores. Até julho do ano passado, Lula havia indicado nove homens e apenas quatro mulheres. Para o Supremo Tribunal Federal, escolheu Cristiano Zanin e Flávio Dino e, na vaga seguinte, preferiu Jorge Messias. Ou seja, em três oportunidades, mesmo pressionado pela esquerda, não indicou nenhuma mulher. Com Dino na vaga de Rosa Weber, o STF ficou reduzido a uma única ministra.
Mas Lula, claro, não é “misógino” (Estadão, 17/7/27)

