30/10/2026

Paraná confirma quebra na safra de inverno devido ao clima

Paraná confirma quebra na safra de inverno devido ao clima

Lavoura de trigo do produtor Thomas Salomons, de Arapoti (PR); cereal teve perda de qualidade — Foto: Arquivo pessoal

 

Produtividade do trigo caiu 18% devido aos efeitos do El Niño, diz Deral; qualidade do cereal também foi afetada pelas chuvas.

 

A queda na produção das culturas de inverno no Paraná foi confirmada nesta quinta-feira (29/10), em boletim divulgado pelo Departamento de Economia Rural (Deral). Os dados indicam uma colheita de 2,84 milhões de toneladas de grãos no Estado, incluindo aveia, canola, centeio, cevada, trigo e triticale. O volume é 28% inferior as 3,9 milhões de toneladas registradas em 2025 - quando, em comparação, apenas a cultura do trigo respondeu por 2,88 milhões de toneladas.

 

A redução apontada nas estimativas de produção dos grãos de inverno já era esperada, conforme Carlos Hugo Godinho, engenheiro agrônomo do Deral. O recuo se deve às intempéries durante a colheita, um risco previsto desde a fase de formação do fenômeno El Niño no primeiro semestre do ano.

 

No caso do trigo, o rendimento inicial projetado em 54 sacas por hectare foi reajustado para 44 sacas/ha - ou 2,6 mil kg/ha. Conforme a análise conjuntural do Deral, a redução de 18% na produtividade estimada, aliada ao decréscimo de 12% na área dedicada à cultura, resultou em uma produção esperada de 1,9 milhão de toneladas. O montante é 34% inferior ao obtido em 2025 (2,88 milhões de toneladas). Além da menor quantidade, a qualidade inferior do cereal também piora as restrições de oferta para a indústria moageira.

 

“O risco relativo às intempéries durante a colheita confirmou-se com o excesso de precipitação pluviométrica verificado na maioria das regiões do Estado, afetando principalmente os cultivos tardios”, explica Godinho. Atualmente, 88% da área estimada foi colhida.

 

O produtor Thomas Salomons, de Arapoti (PR), relata que houve uma quebra de ao menos 30% na sua safra de trigo deste ano, em comparação ao ciclo anterior. Enquanto no ano passado o rendimento atingiu 4,5 mil quilos por hectare na propriedade, neste ano a média caiu para 3,1 mil kg/ha.

“A safra foi bem complicada, devido ao El Niño teve muita chuva durante todo o ciclo do trigo”, comenta.

 

Ele também destaca a perda na qualidade do cereal, com lotes para comercialização classificados com tipos abaixo da qualidade exigida pela indústria ou até mesmo fora de tipo, o que mostra queda nos parâmetros avaliados, gerando queda significativa de preço.

 

Da mesma maneira, o produtor Marinus Hagen Neto, que cultiva grãos em 300 hectares distribuídos em fazendas em Arapoti e no município vizinho de Jaguariaíva (PR), afirma ter redução de produtividade e de qualidade, principalmente do trigo plantado mais tarde. “O potencial produtivo e a qualidade ficaram muito comprometidos”, comenta.

 

Marinus conta que a produtividade nas lavouras semeadas antecipadamente atingiu 4,4 mil kg/ha, enquanto o trigo plantado mais tarde fechou em 3,2 mil kg/ha, bem abaixo do esperado. Além disso, os lotes para comercialização também foram classificados com tipos mínimos da qualidade exigida ou foram considerados fora de tipo. “Acabou perdendo muito o valor agregado”, lamenta.

 

Cevada

 

Conforme o Deral, a cultura da cevada também apresenta perdas expressivas. Em razão do ganho de área verificado neste ciclo (+23%), estimava-se produção recorde, acima das 500 mil toneladas colhidas em 2025. Contudo, a estimativa atual projeta uma colheita de 492 mil toneladas, representando uma retração de 2% em relação à safra anterior.

 

Até o momento, 54% da área plantada já foi colhida, com registros de perdas qualitativas nos grãos menos expressivas que as de trigo. No caso dos produtores Thomas Salomons e Marinus Hagen, a cevada obteve melhores resultados no campo, com colheita anterior à do trigo e grãos obtendo classificação para malte.

 

Os demais cereais acompanhados pelo Deral (aveia, centeio e triticale) também registraram perdas de produtividade e redução de área, resultando no encolhimento da oferta no Estado. “A canola figurou como a única exceção positiva entre as culturas de inverno, visto que a ampliação significativa da área cultivada compensou os prejuízos de produtividade, duplicando o volume ofertado no Paraná”, informa o boletim (Globo Rural, 29/10/26)