04/03/2026

PIB sem surpresas, mas com incertezas – Editorial Folha de S.Paulo

PIB sem surpresas, mas com incertezas – Editorial Folha de S.Paulo
  • Economia perde fôlego em 2025, como seria de esperar devido à alta de juros provocada por gastos de Lula
  • Neste 2026 de eleições, há estímulos do governo; guerra no Oriente Médio pode ameaçar o processo de queda lenta da inflação

 

A economia brasileira não cresceu no segundo semestre de 2025 —o consumo das famílias ficou estagnado, e o investimento produtivo caiu. O aumento de gastos do governo e as exportações evitaram uma retração.

 

O resultado final do ano, divulgado nesta terça-feira (3), foi uma expansão de 2,3% do Produto Interno Bruto, abaixo dos 3,4% de 2024. A desaceleração foi resultado do aperto da política de juros para o controle da inflação. Poderia ter sido ainda pior.

 

Quanto à produção, o desempenho foi sustentado pelos bons números da agropecuária e da indústria extrativa, muito menos sujeitos aos ciclos domésticos. Os dois setores, com participação de menos de 11% no valor do PIB, contribuíram com quase metade do crescimento.

 

Interrompeu-se a sequência de surpresas positivas com os números da atividade, iniciado após a pandemia de Covid-19 com expressiva contribuição da escalada de gastos públicos —iniciada no final do governo Jair Bolsonaro (PL) e aprofundada sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

 

O mesmo estímulo fiscal derrubou a credibilidade das contas públicas, impulsionou a inflação e forçou o Banco Central a elevar os juros para os atuais 15% ao ano. A situação só não é mais grave porque a gestão ruinosa de Donald Trump nos Estados Unidos fez o dólar cair e amenizou a pressão sobre os preços.

 

Evidencia-se, mais uma vez, que a estratégia de atiçar o PIB com despesas do governo tem fôlego curto e consequências duradouras na dívida governamental.

 

O avanço do PIB em 2025 ainda superou o padrão verificado entre o término da recessão brutal de 2014-16 e o início da pandemia, quando a taxa média anual foi de 1,4%. Resta saber se mesmo esse ritmo é sustentável.

 

A mediana das previsões de mercado compiladas pelo Banco Central é de crescimento de 1,8% neste 2026. Para o Ministério da Fazenda, serão 2,3%.

 

Na avaliação oficial, haveria recuperação da produção industrial e do investimento, com o começo da redução de juros e o apoio de programas de incentivo ao setor industrial e à construção civil, além da redução do Imposto de Renda para a classe média.

 

A sucessão presidencial e dúvidas sobre o plano fiscal do próximo governo, qualquer que venha a ser, criam incertezas. É possível que a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã faça com que o BC seja cauteloso no início do processo de redução da Selic. O alívio das condições financeiras pode ser dificultado.

 

Em caso de prolongamento do conflito e dificuldades maiores para a produção e transporte de óleo e gás, há risco para o processo de queda lenta da inflação. A dúvida permanecerá pelas próximas semanas e, certamente, até a data da próxima decisão do BC sobre os juros, em 18 de março.

 

Quanto ao essencial, problemas macroeconômicos rudimentares e empecilhos ao aumento da produtividade permanecem (Folha, 4/3/26)