19/03/2026

Plano Clima se equilibra entre ambiente e agronegócio – Editorial Folha

Plano Clima se equilibra entre ambiente e agronegócio – Editorial Folha
  • Planalto enfim publica compromissos para diminuir emissões, que é positivo mas poderia ser mais ambicioso
  • Ao menos 70% dos gases do efeito estufa aqui lançados provêm do setor agropecuário, que resiste a cumprir metas mais duras de redução

 

Vêm de longe no governo federal contendas entre as pastas da Agricultura e do Ambiente sobre políticas para enfrentar a emergência climática.

 

Embora figure entre as maiores vítimas potenciais de eventos meteorológicos extremos, parte do agronegócio move poderoso lobby contra assumir seu quinhão de responsabilidade no esforço de mitigação, como se patenteia agora no Plano Clima.

 

O Planalto enfim publicou a versão final do conjunto de metas com que planeja cumprir compromissos do Acordo de Paris (2015), após três meses de idas e vindas —em fevereiro havia anunciado somente um sumário executivo. O país pretende reduzir entre 59% e 67% as emissões nacionais de carbono até 2035, considerado o ano-base de 2005, num esforço considerável.

 

Tomando por base estimativas mais recentes de emissões, em relação a 2022, o Brasil teria de diminuir de 49% a 58% a poluição climática que contribui para o aquecimento global.

 

Objetivo difícil, pois ao menos 70% dos gases de efeito estufa aqui lançados provêm do setor agropecuário, sobretudo do desmatamento em áreas que serão usadas para pastagem de gado bovino ou culturas agrícolas.

 

Houve progressos nos últimos anos, com as quedas nos cortes rasos de florestas logrados pela gestão de Marina Silva, o que permitiu recuos nas emissões. Mas a meta brasileira é zerar o desmatamento ilegal em todos os biomas até 2030, tarefa árdua em meros cinco anos, ainda que não impossível —desde que as áreas de governo trabalhem em parceria, não umas contra as outras.

 

O setor agropecuário conseguiu incluir no Plano Clima uma dissociação entre desmate em áreas privadas e desmate em áreas públicas, de um lado, além de reduções diretas da agropecuária (fertilizantes e fermentação entérica do gado, por exemplo).

Fatiou-se com isso a responsabilidade por implementar medidas mitigadoras entre as pastas do Ambiente, da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário.

 

O ônus mais pesado recairá sobre a primeira, à qual caberá conter emissões em mais de 150% até 2035, o que implica não só reduzi-las a zero como ainda contar com emissões negativas, por meio de sequestro de carbono pelo crescimento da vegetação.

 

Vale dizer, terá de conter as derrubadas em terras da União e ainda ampliar por toda parte a regeneração de áreas desmatadas.

Nas glebas privadas, a redução será mais modesta, de 110%. Na produção agropecuária propriamente dita, o setor foi contemplado com compromisso em formato de banda: entre queda de 7% e aumento de 2%.

 

Causa espécie, ademais, que no setor de energia se preveja incremento de 1% a 44% de emissões. Esse é um sinal de que outros lobbies estão em ação, como o da exploração de carvão mineral e da queima em termelétricas desse que é o combustível fóssil mais problemático. Melhor dizendo, um sinal de falta de ambição (Folha, 19/3/26)