17/04/2026

Plano da inegibilidade – Por Paula Sousa

Plano da inegibilidade – Por Paula Sousa

Ex-ditador sanguinário e criminoso da Venezuela Nicolás Maduro sendo recebido, entusiasticamente, pelo presidente Lula da Silva. Foto  Elmer Martinez   Agência O Globo Foto Reprodução Blog Época

 

Acordamos com uma ressaca institucional que nem o mais pessimista dos analistas poderia prever, embora todos soubéssemos que o roteiro já estava escrito nas gavetas de Brasília. O que assistimos agora não é um processo jurídico; é um ritual de extermínio político. Quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ultrapassou o atual presidente nas pesquisas de intenção de voto — atingindo 46% contra 45% de Lula em um eventual segundo turno, segundo o Datafolha de 9 de abril — o "botão de pânico" do sistema foi acionado. E no Brasil, o botão de pânico tem nome, sobrenome e usa toga.

 

A abertura de um inquérito por crime contra a honra devido a um post feito em 3 de janeiro não é uma busca por justiça. É um cálculo de calendário. O crime de Flávio? Dizer o óbvio sobre as conexões ideológicas e financeiras entre o PT e a ditadura de Nicolás Maduro. Para o "Olimpo" judicial, a verdade tornou-se um item de luxo proibido para a oposição.

 

O método do tapetão: De Lênin a Brasília

 

Não se engane: o que acontece hoje no Brasil é a tropicalização de uma tecnologia de poder muito antiga. A esquerda nunca soube perder. Quando o voto popular ameaça o projeto de poder, eles mudam as regras do jogo com a partida em andamento. Foi assim com Lênin e Stalin na URSS, que transformaram tribunais em pelourinhos; é assim com Xi Jinping na China, onde a oposição é um conceito inexistente; e é exatamente o que Nicolás Maduro faz na Venezuela, tornando inelegível qualquer um que tenha o "mau gosto" de ser mais popular que ele.

 

No Brasil, o método é mais sofisticado, mas o cheiro de mofo autoritário é o mesmo. O inquérito aberto pelo ministro Alexandre de Moraes contra o senador Flávio Bolsonaro é o exemplo perfeito da "engrenagem do desespero". Repare no fluxo: o governo do "descondenado" aciona o Ministério da Justiça, que aciona a Polícia Federal, que por sua vez pede ao Supremo a cabeça do adversário. É um ecossistema fechado onde o contraditório morre por asfixia. O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, alinhado ao regime, apenas carimba o que já foi decidido nos corredores do poder.

 

A imunidade de papel e o dicionário criativo do STF

 

O texto constitucional brasileiro tornou-se uma obra de ficção. O Artigo 53 da Constituição Federal é cristalino: "Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos". No entanto, em Brasília, as palavras "quaisquer" e "inviolável" parecem ter sido reescritas em um dialeto que só os ministros dominam.

 

Como bem pontuou o senador em sua nota oficial, estamos diante de um "cerco jurídico para intimidar". Se a imunidade parlamentar não serve para proteger um senador que critica o governo, ela serve para quê? A resposta é sombria: no Brasil atual, a lei é um chicote para os inimigos e uma gaze para os amigos.

 

Enquanto Flávio é investigado por um tweet sobre o Foro de São Paulo e o narcotráfico venezuelano, lembramos com amargura de 2022. Naquela época, o TSE, sob a mesma batuta de Moraes, negou pedidos do PL para remover vídeos onde Lula chamava Jair Bolsonaro de "genocida", "miliciano" e "fascista". A relatora Carmen Lúcia, acompanhada por Moraes, Lewandowski e Benedito Gonçalves, entendeu que aquilo era "liberdade de expressão". Ou seja: xingar a direita é democracia; expor a esquerda é crime de lesa-pátria.

 

O "wishful thinking" e o despertar de quem apoiou o monstro

 

O nível de absurdo é tão estratosférico que até vozes historicamente alinhadas ao sistema começam a gaguejar de medo. A jornalista Vera Magalhães, que por anos foi o megafone das narrativas do "establishment", viu-se obrigada a admitir que a decisão de Moraes "soa esquisitíssima" e não possui "lógica que ampare". Ela chamou a postagem de Flávio de "wishful thinking" (desejo positivo sem base real), mas alertou para o perigo: o Supremo está consolidando na população a certeza de que tem um lado e de que joga para destruir a família Bolsonaro.

 

Quando aqueles que ajudaram a chocar o ovo da serpente começam a se sentir desconfortáveis, é porque o monstro saiu do controle. O "monstro totalitário" que a imprensa ajudou a criar agora bate à porta de todos. Se um senador da República, com foro privilegiado e imunidade garantida, pode ser silenciado por uma canetada baseada em um post de três meses atrás, o que sobra para o cidadão comum? Sobra o silêncio e o medo.

 

O fantasma de 2022 e a trapaça de 2026

 

O que estamos vendo é o "replay" de um filme de terror. Em 2022, vimos o uso ostensivo da censura, o bloqueio de contas e a proibição de se falar sobre a amizade entre Lula e ditadores sangrentos. O ex-chefe da assessoria do TSE, Eduardo Tagliaferro, confessou como operava para derrubar conteúdos da direita. Hoje, ele é processado — não pelas arbitrariedades que cometeu, mas por ter deixado o esquema vazar.

 

Agora, a estratégia é tornar Flávio Bolsonaro inelegível antes mesmo da diplomação. Notícias com tom de terrorismo já afirmam que, se condenado por órgão colegiado por calúnia, 01 ficará fora do jogo. E quem compõe esse "órgão colegiado"? Os mesmos que veem a oposição como uma "ameaça existencial". Como bem disse o senador no plenário: "Alexandre de Moraes não está mais no TSE, ele vai querer desequilibrar as eleições lá do Supremo com esse inquérito aberto há 7 anos, esse malfadado inquérito das fake news que atrai tudo que ele quiser e quem ele quiser".

 

A vitória não está garantida: Prepare-se para a luta

 

É preciso encarar a realidade sem anestesia: a vitória da direita não está garantida pela popularidade. Na Venezuela de Maduro, a oposição tem 80% de apoio popular, mas quem governa são os juízes e os fuzis. No Brasil, o regime de exceção opera em silêncio, através de inquéritos que "atraem tudo o que o ministro quiser", como o famigerado Inquérito 4.781 (o inquérito do fim do mundo).

 

O sistema não vai entregar a chave do país apenas porque o povo votou. Eles mudam as regras, controlam a propaganda e, agora, controlam quem pode ou não estar na urna. A perseguição contra Flávio Bolsonaro é o teste final. O objetivo não é punir um crime (que não existe), mas sim "limpar" o caminho para a hegemonia da esquerda.

 

Conclusão: O relógio está correndo

 

A postagem de Flávio Bolsonaro sobre o destino de Maduro e sua ligação com o PT não foi apenas um post; foi um diagnóstico. E o diagnóstico dói. O sistema reage com fúria porque sabe que, se a verdade sobre o Foro de São Paulo e o suporte a ditaduras terroristas for escancarada, não sobrará pedra sobre pedra da narrativa "democrática" do atual governo.

 

Estamos em uma encruzilhada histórica. Ou o Senado Federal recupera sua coragem e restabelece o equilíbrio entre os poderes — como pediu Flávio em seu discurso — ou o Brasil consolidará sua transição de uma democracia ferida para uma ditadura de toga definitiva.

Não há espaço para otimismo ingênuo. Eles jogam sujo, usam o aparato estatal como arma de guerra e têm o calendário eleitoral colado na parede do gabinete ministerial. A liberdade de expressão está na UTI e o "juiz" é o carrasco.

 

O próximo alvo da canetada pode ser qualquer um que ouse dizer que o rei está nu. E no Brasil de hoje, o rei não apenas está nu, como ele segura a mão de quem assina a sua ordem de prisão.

 

O alerta foi dado. A luta apenas começou. E ela será, antes de tudo, pela sobrevivência da própria verdade. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 17/4/2026)