09/04/2026

Plano de combustível renovável dos EUA vai beneficiar Brasil

Plano de combustível renovável dos EUA vai beneficiar Brasil
  • Mercado americano precisará de volume maior de soja para produção de biodiesel
  • Aumento da mistura de etanol para 15% abre espaço externo para produto brasileiro

 

O Brasil deverá ser beneficiado pela nova definição dos padrões de combustíveis renováveis instituídos pela EPA (Agência de Proteção Ambiental), dos Estados Unidos, no final de março. Em busca de uma salvaguarda para os produtores americanos, muito afetados pela política comercial externa de Donald Trump, o governo define novos percentuais de mistura de biodiesel e diesel renovável ao diesel e acena com um aumento da mistura do etanol de milho.

 

Esses novos parâmetros nos Estados Unidos, concorrente do Brasil no mercado externo de soja e de milho, vão elevar a demanda de matéria-prima nos dois mercados. Plinio Nastari, presidente da Datagro, destaca a importância dessas novas medidas. No ano passado, a mistura de biodiesel e diesel renovável ao combustível fóssil somou 13,51 bilhões de litros, 6,1% do consumo americano. Neste ano, a mistura sobe para 20,96 bilhões de litros, 9,5% do consumo total de diesel. Em 2027 haverá novo crescimento, mas com taxa menor. A EPA definiu uma mistura de 21,17 bilhões de litros.

 

Nastari atribui essa ação a uma dificuldade de originação de produtos, e ela vem desde 2018, quando houve um aumento do consumo de diesel de baixo teor de enxofre na navegação marítima. A capacidade de refino de diesel, tanto convencional quanto de baixo teor de enxofre, ficou em xeque e estressada por causa do aumento do consumo de diesel de baixo teor de enxofre na navegação marítima.

 

"Essa decisão dos Estados Unidos de elevar o mandato para biodiesel e diesel renovável está muito relacionada até com a guerra, uma vez que houve interrupção de fluxos de fornecimento, principalmente de diesel e querosene de aviação, que vinham lá do Golfo Pérsico", diz o presidente da Datagro.

 

Luiz Roque, analista da Hedgepoint, diz que o aumento de mistura faz o esmagamento de soja, um dos principais componentes do biodiesel, subir de 69,1 milhões de toneladas, em 2025, para 73,1 milhões neste ano nos Estados Unidos. Isso é positivo tanto para o mercado brasileiro quanto para o americano, já que mexe na ponta do consumo com uma certa obrigatoriedade. "É uma demanda com regras", diz ele. Favorece a demanda não só de soja e de milho, mas também de trigo, acrescenta.

 

As novas regras da EPA podem afetar também o uso de milho na fabricação de etanol. Os Estados Unidos produzem de 62 bilhões a 63 bilhões de litros de etanol do cereal e exportam 8,5 bilhões, segundo Nastari. O consumo interno fica de 54 bilhões a 55 bilhões de litros.

 

No ano passado, a mistura total do combustível originário de milho à gasolina foi de 11,1%, com alguns postos comercializando o E15 (15% de mistura) em alguns meses do ano. A adoção do E15 durante o ano todo, o que quer o produtor americano de milho, não seria imediata. "Lá eles não têm mandato, mas uma autorização. O aumento do consumo ocorreria ao longo do tempo, e caso seja econômico", diz Nastari.

 

Se efetivado o aumento para 15% de mistura de etanol de milho à gasolina, o consumo de álcool teria alta de 17 bilhões a 18 bilhões de litros, segundo o presidente da Datagro.

 

Zippy Duvall, presidente da American Farm Bureau Federation, entidade que congrega produtores, afirma que o uso de milho para a fabricação de etanol, hoje em 142 milhões de toneladas, aumentaria em mais 61 milhões de toneladas. Os americanos consomem metade da gasolina do mundo.

 

As consequências para o mercado de milho se houver um aumento de mistura para E15 durante o ano todo são as seguintes, diz Nastari: primeiro, a pressão de exportação do etanol americano para o mundo diminui, abrindo caminho para o produto brasileiro em mercados do Reino Unido, Índia, Oriente Médio, Japão, Coreia do Sul e Canadá.

 

Segundo, é possível uma abertura do próprio mercado dos Estados Unidos para o produto brasileiro, como ocorreu no passado. Por outro lado, diminui a pressão das exportações americanas para o mercado brasileiro, o que já está ocorrendo com o aumento de produção no Nordeste.

 

O governo Trump quer reduzir a dependência de produtos estrangeiros, como óleo de canola, de girassol, sebo bovino e óleo de cozinha usado vindos da China. A partir de 2028, as matérias-primas e os produtos feitos com matérias-primas importadas terão valor de apenas 50% do dos produtos americanos. Simplificando, Roque diz que o uso do sebo importado, por exemplo, vai render um valor menor do que o de origem americana. Para chegar a esse cálculo, o sistema americano usa um padrão complicado de crédito, denominado RIN (Renewable Identification Number).

 

O uso de biocombustíveis estará cada vez mais presente no mercado de energia dos países. "É algo que veio para ficar", segundo Roque. O analista da Hedgepoint alerta, no entanto, para um ponto importante. "A caneta está definindo o consumo [ao determinar os mandatos], só que a oferta não é definida por caneta, mas por clima, preços e mercado". Uma quebra de safra poderá trazer um deslocamento dos preços do biodiesel e do etanol, afirma ele (Folha, 9/4/26)