Política mudou após impeachment de Dilma; PT, não – Editorial Folha
- Em 10 anos, polarização se acentuou com bolsonarismo; partido mantém teses econômicas que geraram a crise
- Congresso ganhou protagonismo ao longo de uma sequência de presidentes da República com índices de aprovação, quando muito, sofríveis
Esta Folha não apoiou o impeachment de Dilma Rousseff (PT), ocorrido há dez anos. Como apontou no dia em que a Câmara dos Deputados aprovaria o afastamento da então presidente, tratava-se de medida traumática, fundada em premissas jurídicas passíveis de discussão, "projetando para o futuro divisões e inconformismos".
Isso não significa que Dilma não tenha dado motivos para sua deposição, muito menos que tenha havido algum tipo de golpe, como quer a mitologia petista.
Uma combinação de política econômica ruinosa —da qual as famigeradas pedaladas fiscais eram apenas uma fração— e inabilidade política esvaziou o apoio popular e congressual à mandatária. O processo legítimo conduzido pelo Congresso Nacional e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) respeitou os dispositivos legais.
A crise devastadora semeada por Dilma, agravada pelo escândalo de corrupção revelado pela Operação Lava Jato, deixou de fato sequelas duradouras. O impeachment, inevitavelmente, tornou-se marco de profundas mudanças, inclusive institucionais, que se seguiram —e não se pôde saber se opções como renúncias e novas eleições, ao final preferidas por este jornal, as teriam evitado.
A mais visível delas foi a polarização ideológica entre as forças da esquerda, ainda sob a liderança do PT, e da direita, que ganharam alcance inédito na redemocratização com a ascensão do bolsonarismo. Já havia sintomas de radicalização na onda de protestos populares de 2013, mas foi a partir de 2018 que o centro deixou de ser competitivo nas disputas presidenciais.
Já o grupo amorfo de partidos fisiológicos conhecido como centrão prosperou no Congresso, que ganhou protagonismo e novas prerrogativas ao longo de uma sequência de presidentes da República com índices de aprovação, quando muito, sofríveis.
Com a ampliação anômala e vertiginosa de emendas parlamentares de execução obrigatória no Orçamento, deputados e senadores passaram a depender menos do Executivo para liberar dinheiro destinado a suas bases eleitorais. Derrubadas de medidas provisórias e vetos presidenciais, outrora quase impensáveis, tornaram-se corriqueiras.
A exceção mais notável a tantas transformações é, curiosamente, o próprio PT. O partido se mantém sob a liderança inconteste de Luiz Inácio Lula da Silva, que teve suas condenações por corrupção anuladas pelo Supremo Tribunal Federal e conseguiu um terceiro mandato presidencial com ajuda da repulsa da sociedade ao golpismo de Jair Bolsonaro (PL).
Mais ainda, os petistas atribuem os desmandos comprovados do passado a conspirações e reafirmam o pensamento econômico estatista e intervencionista que produziu o desastre de dez anos atrás. Ainda que hoje seja mais difícil dar concretude às mesmas ideias equivocadas, não espanta que o país ainda esteja às voltas com a ruína orçamentária legada por Dilma Rousseff (Folha, 21/4/26)

