29/06/2026

População brasileira vive estressada e perde o sono por causa de dinheiro

População brasileira vive estressada e perde o sono por causa de dinheiro

Marcelo Billi, superintendente de educação da Anbima. Foto Divulgação/Anbima

 

  • Cidadãos com nível alto de estresse financeiro somam 47%; destes, 53% são mulheres
  • Para superintendente da Anbima, problemas financeiros contaminam as outras dimensões da vida

 

Dados de pesquisa feita pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha mostram que 47% dos brasileiros têm estresse financeiro alto. Outros 48% têm estresse médio causado pelas finanças pessoais.

 

O levantamento foi colhido em 2025 e faz parte do raio-X do investidor. Para chegar aos indicadores acima, as organizadoras apresentaram frases sobre comportamento financeiro e os impactos disso na saúde mental aos entrevistados. O nível de concordância com as afirmações gerou uma pontuação, sobre a qual foi calculado o percentual de estresse.

 

A preocupação com a vida financeira atrapalha o sono de 37% dos entrevistados. Questões financeiras são motivo de discórdia na casa de 29%. E 49% dizem trabalhar em excesso para conseguir pagar as contas.

 

O superintendente de educação da Anbima, Marcelo Billi, diz que a combinação entre dívida e dificuldade de poupar ou investir dinheiro ajuda a explicar os efeitos negativos sobre a saúde mental dos brasileiros.

 

"O problema com dinheiro contamina as outras dimensões da vida. Quando se está endividado, a capacidade cognitiva fica comprometida e isso impacta na produtividade e na capacidade de resolver os problemas", afirma.

 

Um dos efeitos desse ciclo vicioso, segundo Billi, é a perda da capacidade de falar sobre as questões financeiras com familiares e amigos. Quem está endividado, diz o superintendente da Anbima, muitas vezes ignora a situação, e isso aumenta um problema que poderia ser resolvido de início.

 

Na pesquisa, um dado mostra que 53% das pessoas com alto estresse financeiro são mulheres. No recorte de idade, 37% dos mais estressados com dinheiro têm entre 45 e 64 anos.

 

A bióloga Leonir de Souza, 54, convive com dívidas há mais de dez anos. Hoje, tem pendências relacionadas a três cartões de crédito, e quatro créditos consignados reduzem o salário de professora da Unir (Universidade Federal de Rondônia) quase pela metade.

Leonir explica que os problemas começaram quando se divorciou e passou a arcar sozinha com os custos de moradia e dos três filhos. O primeiro consignado foi usado para impedir que a casa onde morava fosse a leilão.

 

Em 2019, ingressou no doutorado e teve que se mudar de Porto Velho, onde vive, para o interior do Paraná. Para custear a mudança, se endividou mais. Quando voltou a Rondônia, tinha oito consignados e oito empréstimos pessoais. Somava quase R$ 300 mil em dívidas.

 

Segundo a professora, o peso das dívidas na saúde mental se manifesta, sobretudo, na impossibilidade de lazer. "Eu gostaria de comprar mais livros, de viajar, mas não tenho descanso real. Quando entro de férias, fico pensando que vou receber meu 13º e meu salário de férias, e vou usar para pagar dívidas", afirma.

 

Com o objetivo de mudar a própria situação financeira, ela diz ter parado de usar cartão de crédito e começado a colocar os gastos em uma planilha. Leonir espera sanar as dívidas e envelhecer com mais tranquilidade em relação ao dinheiro.

"Envelhecer exige de recurso financeiro para cuidar da saúde e ter uma vida saudável. Quando a gente é jovem, não pensa nisso", afirma.

 

Olhar para as dívidas ajuda, segundo Marcelo Billi, a melhorar os efeitos das finanças sobre a saúde mental. "O começo é entender o tamanho real do problema e as condições de equacionar as dívidas", afirma. O número de pessoas que tinham dívidas atrasadas em 2025 corresponde a 29% da população, segundo a pesquisa Anbima e Datafolha.

 

Programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola Brasil, podem aliviar o estresse financeiro, diz o superintendente da Anbima. No entanto, devem ser acompanhados de estímulos públicos e privados à educação financeira. "A solução não é acabar com problemas emergenciais, mas condicionar as pessoas a não precisarem mais deles", diz Billi (Folha, 29/6/26)